Juliana Paes ou Sónia Braga?

 

Sónia Braga, a preto e branco, tal como a vimos em 1977

De há umas semanas para cá, a pergunta começou a correr, em jeito de sussurro meio envergonhado, entre gente séria e bem informada de uma certa idade: Juliana Paes ou Sónia Braga? E eu, que já tenho uma certa idade, assumo a pretensão de ser levado a sério e procuro andar mais ou menos bem informado, não fujo à regra e pergunto também: Juliana Paes ou Sónia Braga? Pergunta difícil. A Sónia parece levar vantagem, ou não tivesse sido com ela que tive o primeiro vislumbre dos bons e maus pecadilhos do mundo adulto. Mas a Juliana, ah a Juliana, promete levar-me a perder a vergonha, a mesma vergonha que não tive ao assistir diariamente, na companhia dos meus pais, às aventuras e desventuras de Gabriela, Nacib, Mundinho e companhia nos idos de 1977. Que me perdoem a falta de vergonha, mas é assim mesmo: não descansarei enquanto não pagar a dívida de gratidão por todas e cada uma das descobertas que a exibição de Gabriela, Cravo e Canela me permitiu ia eu, ingénua e inocentemente, na minha infância quase adolescência dos dez anos de idade. E como é que se paga uma dívida (ia dizer “serviço público”, mas arrependi-me a tempo, pois parece que a expressão tem sido dada a abusos e pode ser mal interpretada) destas? Eu já decidi como. Trinta e cinco anos depois, vou matar saudades da Malvina, a minha primeira namorada virtual (se é que me permitem usar a expressão sem cair na vulgaridade a que os tempos actuais a prestam), vou bater à porta do Bataclan sem pudor nenhum e até – mas não me peçam para jurar – vou deixar crescer o bigode só para ter o prazer de o pentear como o Tonico Bastos fazia antes de visitar as “suas viúvas e as suas órfãs”. Tudo isto a partir da próxima segunda-feira, todas as noites, de segunda a sexta, às 22.30. E, no fim, depois de paga a dívida, dou-vos a resposta claro: Juliana Paes ou Sónia Braga?

A colorida Juliana Paes

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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36 respostas a Juliana Paes ou Sónia Braga?

  1. O Tonico Bastos! Verdadeiro cara de ‘amigo-da-onça’…
    Eu como nessa altura já tinha pecado, usado e abusado muito, ouso mesmo propor uma Juliana Braga (se não for muito incómodo…)
    Acho que se equivalem, cada uma no seu tempo.

    • Diogo Leote diz:

      António, só conheço uma proposta ainda mais interessante do que a tua: já que uma e outra, não tenhamos ilusões, não vão passar do mundo virtual, ficar com as duas mesmo.

      • rodrigo de souza diz:

        não há comparação possível. sônia braga é, de longe e em todos os aspectos mais gabriela . e novela original muito melhor.

        • Diogo Leote diz:

          Rodrigo, sem ter visto sequer uma cena da versão de 2012, desconfio que estás absolutamente certo. E escusado será dizer que o aspecto afectivo e simbolico também pesa e miito: nada me tirará o fascínio da descoberta que a Gabiela dos anos 70 trouxe ( talvez mais a mim do que a ti, pois eu era mais jovenzinho).

  2. Fico antes com a Juju:

  3. GRocha diz:

    Vocês fazem a minima idéia de quanto sofrem as Gabrielas deste Mundo, desde que a Sonia Braga fez furor nesse papel?!?!? não podemos dizer o nome, que começam logo a cantar Gabriela é cravo e canela 😛 XD oh meu Deus!!!!
    Mas cada qual é como é, e a Sonia continua “enxuta” :P… mas penso que a Juliana vai retirar-lhe o reinado :S

    • Diogo Leote diz:

      Cara GRocha, eu pouco percebo do assunto, mas quer-me parecer que a Gabriela, na sociedade muito conservadora em que vivíamos no pós 25 de Abril ( e que, verdade se diga, não andava assim tão longe da Ilhéus de 1925), prestou um inestimável favor a todas as mulheres portuguesas.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Convém perder a vergonha, tal como seguir ‘maus’ caminhos, muito bem acompanhado. Digo eu que pouco sei… 😉

    • Diogo Leote diz:

      Maria do Céu, por força do estatuto que uma certa idade me dá, eu já a perdi toda (a vergonha). E ainda bem que tenho companhia para tanta falta dela (sem desfazer na mui didáctica companhia que também tive dos meus pais há 35 anos atrás).

  5. Francisco Rocha Antunes diz:

    Tudo vai depender do gatinhar da Juliana: o da Sónia é, até agora, imbativel.

    • Diogo Leote diz:

      Francisco, até prova em contrário, assino por baixo. E noutro aspecto não acredito sequer em prova em contrário: a extraordinária banda sonora da Gabriela dos anos 70, essa sim verdadeiramente insuperável.

  6. maria diz:

    Não acredito em pastiches…logo…

    • Diogo Leote diz:

      Maria, sem ter a intenção de contrariar essa sua crença (que é também, quase sempre, a minha), chamo a sua atenção para um detalhe que poucos conhecem: a primeira versão da Gabriela para telenovela data de 1961 e não ficou para a história. Ou seja, a versão que conhecemos (de 1975) é, também ela, um remake.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    diogo, sinto o mesmo fascínio pela telenovela. (e não menos por sua trilha sonora). tinha doze anos à época. era, portanto, um pouco mais crescidinho. vivi amplamente a chegada de gabriela. e, porém, lhe adianto, nem há termos de comparação. a gabriela do livro é uma garota de 16 anos. sônia, ao vivê-la tinha 24, e jamais estrelara uma grande produção. juliana representou-a aos 33, já uma atriz consagrada. e vão-se quase dez anos entre as respectivas idades em que uma e outra viveram a morena de amado. e largam-se 37 anos entre a versão de 75′ e a atual.
    mas este é só um — embora não o menor — de muitos aspectos tratados num artigo que escrevi há um mês. (e, sem embargo, há um referência ao impacto desse folhetim de 1975 em portugal). só receio que o texto seja um pouco mais longo (e por isto não o postei por aqui):
    http://bit.ly/U06n0h
    p.s. — ah, e também por cá a telenovela já nos chegou em cores. foi, de resto, um ótimo pretexto para o aquecimento da venda de televisores à época.

  8. Carla L. diz:

    Sou mais Sonia Braga.Ela marcou uma época não só pela sensualidade na tela mas por conta também do comportamento da sua personagem.Hoje, a Gabriela de Juliana, causa muito menos impacto, mas de qualquer forma é uma produção caprichada.Gosto de ver Ilhéus retratada assim.

    • Diogo Leote diz:

      Sabe que mais, Carla? Não duvido de uma sua única palavra mas a versão actual de Gabriela será para mim o alibi perfeito para voltar a ver novelas (coisa que não faço desde o Roque Santeiro, há mais de 20 anos).

      • Carla L. diz:

        Aproveite o álibi e divirta-se.Aliás, a nova Maria Machadão está engraçadíssima com suas caras e bocas.

  9. Diogo Leote diz:

    Ruy, acabo de ler a sua exemplar crónica sobre a comparação entre a Gabriela de 1975 e a de 2012. O mundo mudou muito nesse intervalo de 37 anos entre uma e outra (tanto aqui em Portugal como aí no Brasil). Espero, sinceramente, que as críticas que aponta à versão actual (muitas delas um produto da forma como se passou a entender o mercado televisivo) não apaguem a impressão e a memória, de magia e fascínio, que me provocou a versão dos anos 70.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      concordo inteiramente consigo, diogo. mas mesmo ao buscar alguma frieza ou isenção de argumentos, a memória afetiva de 1975, ao fim de tudo, é o que predomina. e muito acima de qualquer análise posterior ou cerebral. já quanto à mudança dos tempos e das vontades, você disse tudo.
      p.s. – agora, quanto à comparação entre ambas, o mínimo que se pode dizer é que a aposta em sônia braga foi um bocado mais ousada. por recair sobre: 1. um rosto praticamente desconhecido; 2. um tipo físico, étnico inusitado na TV até a época, e 3. uma atriz ainda jovem, inexperiente. e só isto já não passa recibo dos tempos e das vontades?

  10. Manuel S. Fonseca diz:

    Siderado primeiro com o nosso supremo noveleiro Leote (mas quem diria?) estou em transe apoplético com a devastadora incursão analítica do Ruy. Ó meu amigo, a minha pequena alma está para aqui a respirar doida como um fole.
    Seja como for, e por ter já osculado e trocado duas palavrinhas com a Juliana, juro que voto nela. Coisas destas não se esquecem, até porque lhe devo um problema de convergência ocular insanável.

    • Anjo Negro diz:

      Diogo, como é que se diz … nunca voltes ao lugar onde foste feliz ou qualquer coisa do género … esquece … não vejas a nova versão … lê ou relê o livro e guarda as memórias dos teus (nossos) 10 anos.

      • Diogo Leote diz:

        Meu caro Anjo Negro, penso sempre nessa frase para tirar da cabeça a ideia do meu (nosso) regresso a Cuba. E parece que Freud explica isso de querermos voltar aos 10 anos de idade com aquilo que sabemos hoje…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      foi mal, manel.
      mas esse debate é coisa mais séria do que nova esquerda por aqui.
      e, convenhamos, muito menos chato. e ainda bem que o diogo levantou a lebre.

  11. Diogo Leote diz:

    Manuel, não me humilhes mais por favor. Eu, supremo noveleiro, a falar-te de namoradas virtuais, e tu a dizer-nos que já estiveste carne com carne com a senhorita Paes…

  12. Não sou de novelas, embora tenha lido todo o Amado, mas a excepção foi Sonia em Gabriela….vou deixar ficar essa memoria, perdoe-me a Juliana….

  13. Pedro Norton diz:

    Diogo: a Malvina foi a MINHA primeira namorada!

  14. E, quando se tem dez anos, tem algum mal partilhar uma namorada?

  15. Bernardo, não és de novelas nem eu o sou mas algumas deixaram-me uma marca forte na memória: além da Gabriela, o Bem Amado e o Roque Santeiro também (a última que vi já lá vão mais de 20 anos). E também não sou de revivalismos. Mas, desta vez, não vou deixar de espreitar os primeiros episódios. Veremos se a vontade se preservar a memória (limpinha e sem mácula, pelos olhos de uma criança de dez anos) se vai conseguir impor.

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