Lunch atop a Skyscraper

E a clássica foto Almoço no Topo do Arranha-Céu completou 80 anos ontem. Uma matéria no Daily Mail tentou soar com um travo de “novidade” ao decretar que a foto é posada. Ou que havia nos bastidores uma motivação inconfessa: promover o Rockfeller Center. E, logo, a foto foi produzida por uma numerosa equipe lançando mão do que mais havia de ponta em termos de lentes e equipamentos ópticos.

E que diferença faz: posada ou não? A foto é impressionante, de qualquer ângulo. E ainda hoje, oitenta anos e um dia depois. Nunca se descobriu ao certo quem a tirou. Olha-se para os onze operários – são onze como num time de futebol – ainda jovens, as pernas dependuradas num vão de 69 andares, e, apesar da coragem deles, pode-se dizer com certeza: estão mortos. Pois até é possível postar-se acima, no espaço. Não no tempo.

A foto foi bastante reproduzida. E todo mundo deve tê-la visto alguma vez. Desde salas de agência de publicidade a quartos de jovem namorada. Espaços assim, onde grandes campanhas perigam. Ela parece mesmo a mais perfeita ilustração de uma frase de Walter Benjamin: “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal qual propriamente se deu’. Mas, do contrário, apoderar-se de uma lembrança tal como cintila num instante de perigo”.

Agora, de verdade, seria menos autêntica, não fosse posada. Ou a gente imaginasse que os operários almoçassem todo dia sentados nessa viga suspensa sobre os céus de Manhattan. Não, eles posaram uma só vez com desfaçatez de habitués. E isso não torna a foto mais rara?

E, então, a diferença para o presente talvez resida no fato de que, por lá, os operários que constroem arranha-céus hoje em dia dificilmente são wasps, como há oitenta anos. Hoje, estão mais para latinos, chineses, árabes, indianos, negros…

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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22 respostas a Lunch atop a Skyscraper

  1. Sandra Barata Belo diz:

    isto sim dá vertigens…
    é uma Grande foto.

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Ruy, é verdade – é impressionante de qualquer ângulo e um momento raro!
    Incrível foto! Momento de descontração dos trabalhadores ou talvez um break para fumar um cigarro…
    O cara da ponta direita parece que está olhando para a câmara.
    E eu estou como a Sandra, que vertigens!!!

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    sim, o sujeito da direita encara a lente. bem apanhado, ana.

  4. curioso (c.c.c.) diz:

    não sabendo o que fazem ali os wasps

    “Don’t fuck me anymore”

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    “Oh come home soon, I write to her.
    Go fuck yourself, is her answer.”

  6. Panurgo diz:

    Olha que giro. A primeira vez que vi a foto, foi, precisamente, na primeira e última vez (assim Deus me dê saúde) que vi os Óscares; ia lá o Caetano e os U2, fiquei acordado para os ouvir, e que se fodessem as aulas. Foi aqui:

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    bons motivos de lembrança: caetano, os u2, o óscar e matar aulas.

    • Panurgo diz:

      E o Ruy, ao citar o valter beijacuzinhos, lembrou-me o meu amigo gigante, que ao encontrar um ilustre estudante parisiense lhe retorquiu: «Que diabo de linguagem é essa? – objectou Pantagruel. – És por ventura algum herético?»

      Parece que estou no Teeteto, caramba! =)

      • Ruy Vasconcelos diz:

        acho que o rabelais ia apreciar a leitura do beija (ou beja, sei lá), tivesse a oportunidade, pantagruélico amigo. se bem que, de momento, quem faz sucesso mesmo é walter benjamin, o astro pop português

        • Panurgo diz:

          eu, astros pop portugueses, só o filho do Tony Carreira; é um gajo bonito, não se mete com profundidades do espírito e o mulherio dele é tudo triple A; ao contrário dos benjamins, que mais não fazem do que esconder a mediocridade e o vazio atrás duma verborreia estúpida e badalhoca.

          «Chama por mim, chama…» Sai ao pai, outro poeta.

  8. curioso (gfys) diz:

    se fosse só ela… 😉

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    hahaha.

    ao curioso amigo, uns versinhos:

    if you think fuck is funny
    fuck yourself
    and save your money

  10. curioso (iGwt) diz:

    versão mais folk

  11. curioso (so poor) diz:

    ain’t got no money – $ó $e for D 😉

  12. Rita V diz:

    Esta fotografia faz-me lembrar o fascínio do ‘quarto-escuro’ quando comecei a fazer fotografia. Bem trazida. Também podia ser sobre o Atlântico.
    🙂

    • pra você, rita, um mega 🙂 ultra-microchipado — coisa que, nós da tribo dos kiowas-xavantes, como bem lembra o pedro m. logo aí abaixo, jamais enviaríamos àquele manuel, sonso e dissimulado

  13. Quem é bom nesta coisa de construir arranha-céus são os índios – nativos americanos, em linguagem politicamente canalha -, sobretudo os Mohawks, sobretudo os da reserva Kahnawake, dos arredores de Montreal. Ao menos ficavam acima dos tipos que quase os dizimaram.

  14. Ruy Vasconcelos diz:

    ah, sim. aqui, lá pra amazônia, comenta-se que entre os maiores exportadores de madeira, estão alguns caciques indígenas — já que são meio que inimputáveis em suas reservas. por outro lado, posam ao lado de james cameron, sting, al gore e o príncipe charles como grandes defensores da floresta.

  15. Eu tinha ouvido dizer que algumas tribos eram utilizadas na construção exactamente por não terem vertigens!!! Grande fotografia que poderia ser intitulada “coragem”.

  16. Ruy Vasconcelos diz:

    bom, há um negro na foto. mas o tipo físico dos demais é bastante wasp. talvez um irlandês aí pelo meio. nunca tinha ouvido antes isso de índios serem empregados na construção de arranha-céus por supostamente não temerem vertigens. devem ser as tribos da banda de lá. por aqui, os índios gostam mesmo é de smartphones e das meninas. não perdem tempo os caras.

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