Na cama

Quem diria que Colette e eu tivemos infâncias em muito cruzadas? O pai dela era veterano de guerra, a mãe duvidava se certos livros deviam ou não estar arredados duma criança, leituras sim, mas discutidas em família, impedido o alcance às prateleiras onde as mais apetitosas e suculentas cerejas impressas repousavam. Cumula o facto de ambas lermos às escondidas: ela na cama, eu onde calhava. As semelhanças terminam aqui. Estou certa que, no temor de ser descoberta presa a ‘impróprio’ fruto literário, jamais ocorreria à Colette escondê-lo sob a púdica toalha que disfarçava o requisitado bidé. Pelo atropelo, vi-me condenada a reler Comtesse de Ségur e lembrar comportamentos adequados a uma menina. Senão: os desastres da irreverente Sofia sugeriam-me refiná-los.

De volta a Colette e à cama que até ao final dos dias seria ‘jangada’. Nela, sempre leu e passou a escrever ao tropeçar na doença. Porque rebelde e caminhante à frente do tempo em que era, viver foi sequência de aventuras, algumas em variegadas camas partilhadas com homens e/ou mulheres (Josephine Baker não lhe terá escapado). Escrevem os biógrafos ter sido detonador a infidelidade crónica do marido. À depressão, seguiu o desmontar da armadura de esposa submissa e traída – Simone de Beauvoir havia de tomar esta nudez como exemplo na libertação do “segundo sexo”.

Repartida entre escândalos e escrita, embrulha a emancipação da mulher com lençóis em enredos amorosos de vigor genial. A Academia Goncourt reconhece-o. Esta, ainda enlutada pela morte de Colette quatro meses antes, passa testemunho a Simone de Beauvoir.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Na cama

  1. A ler o seu texto e a lembrar-me do dedo em riste da mãe a proibir-me alguns das prateleiras do pai. belo texto

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Mais tenho para contar sobre aselhices minhas de ontem e de agora. Puxe-me pelas memórias e as teclas vão a reboque. 😉

  2. curioso (salvo seja) diz:

    tristemente, diferenças:

    – nasceu em 1873
    – estudou piano e teve altas notas a matemática
    – escreveu Gigi
    – casou aos 20 anos com um artista 15 anos mais velho
    – aos 33 deixou o marido infiel e juntou-se com uma escritora americana
    – aos 34 gerou escândalo no Moulin Rouge
    – os affairs foram-se sucedendo
    – aos 39 voltou a casar e teve uma filha que não desejou
    – aos 41 escreveu um ballet para a Opera de Paris
    – aos 47 foi Cavaleira da Legião d’ Honra
    – aos 51 divorciou-se depois de um escândalo com o enteado
    – aos 62 voltou a casar e passou a chamar-se Sidonie Goudeket
    – aos 81 foi-se, em cadeira de rodas, com 50 obras publicadas

    não quererá seguir-lhes todas as ‘pisadas’?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Pergunta demasiado íntima para ser respondida aqui. Mas continue a perguntar que me enleva.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria, prometa que nos aparece mais vezes nesta cama! Duas perguntinhas: o que é um bidé? E o que é uma Comtesse de Ségur – bate-se com ela às meninas?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Duas perguntas não íntimas, ainda venho esbaforida lá de cima, com direito a resposta.

      1ª Bidé – objeto com a serventia de prestar arranjo para lavar as “partes” (A D. Irene que esteve comigo 22 anos chamava-lhes assim) e os pés se a banheira entupiu ou cortaram o gás.

      2ª Comtesse de Ségur – autora de encantadores manuais onde os mandamentos eram mais que dez e os pecados mortais superiores a sete.

      Com que então bater com ela nas meninas? Naughty, naughty boy!

      À laia de castigo, deixo-lhe esta:

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    uhhm, céu, vasto apetite pelas cerejas impressas neste texto. mais delas.
    e, é certo, graças ao bidê, que fez as vezes de inusitada estante, num tempo decisivo, os desastres de sofia hoje podem abrigar-se em estantes menos heterodoxas.

    e sem tanto vexame.

  5. curioso (enlevante) diz:

    afinal, respondeu.

    as ‘pisadas’ são públicas (publicadas) e para a enlevar diga se também deseja chegar aos 81?

    fácil de entender:http://www.youtube.com/watch?v=12OYj_xZ3-U

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sou banal: “um dia de cada vez”.
      Aos 81? Estafa apetecível para assistir, talvez, ao finar deste sistema especialistas em coices.
      Conhecia o vídeo, mas agradeço o gesto.

  6. curioso (iluminante) diz:

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