Nasce Uma Estrela

“Oslo, 31 de Agosto”, de Joachim Trier

“Oslo, 31 de Agosto” é o mais belo filme deprimente do ano.

Anders é um ex-drogado a terminar a recuperação numa clínica dos arredores de Oslo. Após destruir seis anos da sua vida, e da vida dos que mais amou, graças a uma paixão pela heroína, encontra-se agora numa encruzilhada: ou regressa ao passado, lançando-se definitivamente no abismo, ou tenta recomeçar. Mas Anders sabe que não sobra espaço para segundas oportunidades. Outrora um escritor talentoso, de fácil sedução com as mulheres, ele olha em frente e só avista torpor, banalidade, o vazio. Sem motivos para prosseguir, ensaia o suicídio, à Virginia Woolf (tenta afogar-se com pedras num lago). Mas algo o impele para cima – talvez a simples curiosidade de atravessar mais um dia. “Oslo, 31 de Agosto” são 24 horas – as últimas? – na vida de Anders, o homem que parece implodir como um edifício despojado de funções. Segunda longa-metragem do norueguês Joachim Trier depois do excelente “Reprise”, “Oslo, 31 de Agosto” sobe um degrau artístico e aumenta as expectativas. Se em “Reprise” ainda boiava algum diletantismo literário – a propósito de um grupo de jovens escritores esmagados pelo seu próprio sucesso -, este filme é um dos mais originais ensaios europeus da última década sobre o desespero, como se, de súbito, tivéssemos descoberto que o mestre Antonioni se cruzara com uma neta maníaco-depressiva de Frank Capra para terem um filho na Noruega. Joachim Trier (é primo afastado do demiurgo dinamarquês Lars von Trier) filma como se a Nouvelle Vague tivesse acabado ontem à tarde, mas injecta nessa memória a precisão da era digital e o trabalho de câmara de um discípulo frenético de Sokurov. “Oslo, 31 de Agosto” parece-se com tudo, e não se parece com nada: há uma cena – lindíssima – com bicicletas e um extintor de incêndios que parece esculpida a partir do “Jules e Jim” de Truffaut; remete-se para a herança do “Le Feu Follet” de Louis Malle (que adaptava a mesma novela de 1931 de Pierre Drieu La Rochelle); descobre-se uma escuta de conversas de café que o Godard da fase luminosa não desdenharia; e assiste-se a uma longa sequência de diálogo, entre Anders e o velho companheiro de loucuras, hoje pacato académico com mulher e filhos, cuja lucidez quase atinge o patamar da conversa entre Bobby Sands e o padre no extraordinário “Fome” de Steve McQueen. Mas Trier é único, e namora o desespero como alguém que se envolve com uma rapariga que adora mas sabe à partida que a relação não tem futuro. Não existem moralismos, ou fatalidade. Não se trata de húbris: é apenas a constatação do protagonista (um notável Anders Danielsen Lie, já presente em “Reprise”) de que a vida talvez não mereça ser vivida. O mais belo filme deprimente do ano, e os primeiros passos do segundo Trier que vale a pena fixar num mapa.

 

Publicado na revista “Sábado”

PS: o Diogo já aqui tinha falado deste filme há uns meses. Só agora percebi que ele tinha razão.

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a Nasce Uma Estrela

  1. Pedro Bidarra diz:

    Até estou com medo de ver o filme. Nada me mete mais medo que uma bonita depressão

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Caríssimo Pedro, o que são os filmes senão medos de morte? Mas ressuscita-se sempre no fim.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Sou demasiado optimista para aceitar que talvez a vida não mereça ser vivida, mas acabas de me injectar umas quantas dúvidas, Pedro. Uma certeza: vou ver!

  4. Pedro, que grande filme sim. Disseste com mestria e erudição tudo aquilo que gostava de ter dito se disso tivesse sido capaz quando há uns meses aqui escrevi sobre o filme.

  5. Pelo contrário, Diogo. A tua visão do filme foi na mouche – foste tu que falaste dum Capra invertido, e bem. Doutor, vai e fala em silêncio com a personagem, que está convencida desse terrível infortúnio.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    com os valores que seguem aí, à mão, quem precisa de inimigos? ou quem ao menos uma vez não desejou embarcar numa aventura ilícita? mas os que estão confortáveis devem assustar-se um pouquinho mais com um filme desses. ao menos do modo como o pedro marta o descreve. e, antes, houve um baptismo do diogo — que usualmente prepara mais terreno no campo da música). agora, ainda bem que ainda não vi, pois se há resenhas melhores antes dos filmes, são as entusiasmadas.para bem e mal. depois, cabe ao olhar de cada dar ou não com os saltos e as lebres. mas isso é já outro turno. (e não é uma riqueza que aqui para o blogue já se somem duas previsões deste ‘oslo’?)

  7. Rita V diz:

    «namora o desespero» é o maior tiro no pé, pero que las hay los hay
    😀

  8. Sinto o frio deslizante da depressão nórdica, como um lençol a envolver-me , enquanto mastigo este belo texto. Vou ver, porque como o Manuel, acredito que a vida vale sempre a pena ser vivida…

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    E outra se perfila para ver o que não viu. O seu texto é belo e convincente.

  10. Pedro Marta Santos diz:

    Espero que goste, Maria do Céu.

Os comentários estão fechados.