O Aleph

num futuro breve, o homem valerá também pelo dispositivo portátil. Ou seja, os smartphones e tablets – ou algo análogo a eles, porém menor, já devidamente ultra-microchipado, não se sabe se já embutido sob a pele, conectado aos nervos – terão de ser aceitos em concursos, avaliações. Talvez consistam em algo tão só tatuado, que se possa tocar de leve, não como se ataca o prurido com as unhas depois de algum tempo e resistência. E terão de ser aceitos, porque se ao aluno anteriormente era vedado consultar livros durante uma prova, isso se dava também em função de ele não poder portar consigo todos os livros para todo canto. Quer dizer, os da instituição ou os sobre o tema em demanda. O caso do smartphone ou do mini-tablet é diferente: ele se propõe como complemento cerrado do pensamento. Se ideal ou não, não vem ao caso. Ele pode conter bibliotecas inteiras, vastíssimas, em muitas línguas, enciclopédias em fila indiana e dimensão britânica – e não só livros, como também filmes, sons, mapotecas, 3D’s, museus de belas artes…E, mais urgente, vai chegar-se ao ponto em que será impossível desfazer-nos deles, por mais que desejemos. E tome a levá-los para piscina, elevador, praia, igreja, cama. Em resumo, talvez haja sido por um desses que Esaú trocou a primogenitura. Equívocos sempre os há ao se passar a mensagem, como na brincadeira do telefone sem-fio – que, de resto, agora é real. Quer dizer, mais real. Mas é também toda cultura material do mundo compactada numa geringonça que ocupa menos área que uma lata de lentilhas em conserva. E pode-se levar para onde se for. Como se porta anel ou verruga

o próprio Áleph materializado

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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12 respostas a O Aleph

  1. Panurgo diz:

    Há só um pequeno problema: é que essa tralha custa dinheiro. Nunca tendo tido dinheiro para comprar um, poupem-me às figuras de parvo comuns no tecnojunkie (felizmente, o Ridículo ainda é um direito bastante barato noutras áreas). Lamento pela Fnac, pois ainda vamos assistir à discussão se a entrega dos Itrash limpa ou não a dívida. Ou a um muito mais cinematográfico, nesta época da arte inumana: se a entrega de fotografias, dos filmes da família, dos registos gravados por câmeras de segurança, enfim, da Memória que esta gente tem, se essa entrega configura uma Redenção, e a possibilidade de começar uma vida nova, livre do casamento, dos filhos, do crédito das férias, dos impostos, etc.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    prezado panurgo, o ridículo é uma das modalidades de redenção. dele não se escapa, dizia francis ponge. então, por que condenar-se, mesmo em hipótese? de mais, isso não é para já (felizmente!) só para breve. mas a suspeita é a de que até lá vão estar pagando para entrar no teu corpo. (lá eles! como dizem em salvador). há modalidades e modalidades de entrada num corpo. algumas podem ser bem prazerosas.
    decerto.
    e é sempre uma satisfação poder contar com seus comentários.

    • Panurgo diz:

      É capaz de ter razão; tenho um amigo meu, com mais do que idade para ser meu pai, que está convencido do mesmo, que a tecnologia do nosso tempo, sendo toda ela praticamente inútil, alterou em muito não só os nossos comportamentos, como até a essência; um outro, da minha colheita mas bem mais brilhante, trabalha em implantes que aliviam os sintomas da Parkinson e promete-me devolver a visão aos cegos, em boas condições, daqui a um par de anos. Avisou-me de que como o progresso na área da Informática é agora muito limitado, as grandes companhias de Hardware passaram-se todas para a Medicina. Por mim, que me lembro logo de Santo Gulliver, de Gauss, e dos macacos do Huxley, quando esse dia chegar, passai-me o veneno; de preferência uma coisa que mate mais depressa do que a coca-cola.

  3. nanovp diz:

    Tenho um medo horrível de ficar sem pilhas….e tudo desaparecer…

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    não se preocupe, bernardo, há baterias recarregáveis e na reserva. hehe.

  5. Ruy, ficas já a saber que contas com uma adesão: eu quero ser microchipado. E também quero um daqueles implantes do Panurgo a ver se recupero a convergência ocular que perdi quando vi a Juliana Paes (isto não é nenhuma brincadeira, já lá vão anos a ler tudo a dobrar). No microchip quero o Borges todo (bingo!) e meia dúzia de poemas do Char. Nem é pedir muito.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    manel, tô começando a desconfiar que és na verdade uma ficção. uma invenção da nossa eminência parda, o nuno rodrigues. depois explico melhor a teoria. mas, então, gostou do ‘microchipado’? não são adoráveis esses termos? por aqui há todo um abundante acervo dessas palavrinhas “da moda”: gestor, estafe, microchipar, estarte…(putz!) quanto a juliana, nada contra. tudo a favor. e só espero que ela me perdoe por preferir a sônia braga (e até a alice braga) como gabriela. (como gabriela, entenda-se bem, pois os méritos da juliana são para lá de evidentes, embora bastante sinuosos)

    e por aí se vai, ultra-microchipando chimpanzés, por este vale de (tristes) lágrimas…

  7. Panurgo diz:

    O Manuel não precisa de implantes. Precisa é de relaxar

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    “num futuro breve, o homem valerá tam­bém pelo dis­po­si­tivo por­tá­til”. Não fosse o vindo a seguir, perguntaria: _ Não tem sido sempre assim? 😉

    • Ruy Vasconcelos diz:

      acho que você catou uma das ironias que vão por aí no texto, céu. hehe.
      mas este é o tipo da coisa que você escreve e acharia ótimo que não existissem essas categorias como ficção e não ficção. de qualquer forma, para quem se interessar pelo assunto:
      http://bit.ly/QpV5St

  9. Curioso (duriense) diz:

    Não tanto, pois as mulheres podem ser autocompensadoras 😉

  10. Ruy Vasconcelos diz:

    well…

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