O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes

. Uma

“Veronika Decide Morrer”, de Emily Young

 A adaptação de um livro de Paulo Coelho com Sarah Michelle Gellar como actriz principal é o mesmo que um jogo da selecção preparado por Carlos Queiróz e com Hélder Postiga a ponta de lança: desconfia-se logo. As reticências justificam-se em pleno, já que esta historieta de uma menina que tem tudo – juventude, beleza, família, roupinha catita e um trabalho à maneira – mas decide suicidar-se, sobrevivendo para descobrir que, afinal, tem pouco tempo de vida, não lembra ao Diabo. Lembra, porém ao demoníaco Coelho, que põe a moça a redescobrir o sentido do Universo, o significado do Amor, as notas de um piano, o fio invisível que une todos os seres humanos e a corda que dá vontade de enfiar ao pescoço da Sarah Michelle após assistirmos a esta reflexão para-existencialista/crítica à sociedade de consumo/ manifesto zen/ supositório New Age que “Veronika Decide Morrer” impinge a todos os que se sujeitem a absorvê-lo. Também não se percebe bem porquê, mas David Thewlis, Melissa Leo e Barbara Sukowa, todos bons actores, andam por aqui a passear a sua indiferença. Será pela mesma razão tilintante que move o senhor Paulo Coelho há décadas?

. Duas

“Jerichow”, de Chrstian Petzold

 Thomas (Benno Furmann, um aprendiz do “Método” de Brando e Pacino que trabalhara com Tom Tykwer e Christian Carion) é um veterano do Afeganistão compulsivamente despejado na reserva. Com uma mãe recém-falecida, uma casa rural a cair de podre e credores violentos à perna, está no fundo do poço. Quando Ali Ozkan (Hilmi Sozer), um turco proprietário de 47 pequenos snack-bares nas redondezas, recebe por duas vezes o auxílio desinteressado de Thomas, convida o ex-militar a ser o motorista da empresa que gere com a mulher Laura (Nina Hoss, actriz-fétiche do director Petzold), caucasiana esguia e dez anos mais nova. O inevitável acontece: Thomas e Laura envolvem-se, acabando por planear o homicídio de Ali. “Jerichow”, de 2008 (porque não estrear antes “Barbara”, o filme de Petzold deste ano, Urso de Prata para Melhor Realizador em Berlim 2012?) é uma versão livre de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, a novela de James M. Cain já adaptada ao cinema por Tay Garnett, Luchino Visconti e Bob Rafelson. Transportando a intriga para o nordeste da Alemanha na actualidade, é uma óptima variação: não possuindo a alquimia do par Lana Turner/John Garfield, a precisão neo-realista de “Ossessione” ou a crueza sexual de um Jack Nicholson a derrubar nabos e repolhos para penetrar Jessica Lange na mesa da cozinha (o guião do “remake” de Rafelson era de David Mamet), evita o labirinto de traições dos filmes anteriores e vai mais longe nas tonalidades morais. Claro que Petzold, um dos chefes de fila da primeira geração da nova Escola de Berlim, é menos talentoso na “mise en scéne” do que os seus antecessores. Mas há um rigor inexorável na engenharia de “Jerichow” que quase transforma o drama em tragédia. Aconselha-se.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes

  1. curioso (vai a todas) diz:

    uma: não atender

    duas: atender

    três: não há duas sem três, cada um atende como lhe aprouver… até porque na primeira quem quer vai e na segunda vai quem quer 😉

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    .uma
    pois é, pedro marta. outro dia, falávamos sobre stone…
    .duas
    ?

  3. Pouco interesse no Coelho, já Jerichow apetece, mas acho que já não anda por aí….

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