Prólogo a um Prólogo de Béla Tarr

 

Prologue (parte de Visions of Europe), Bela Tarr, 2004

Pessoas agasalhadas, agrisalhadas e embrutecidas olham adiante numa fila. Fim do outono. De meia-idade e, de algum modo, vazias; pois não há muito o que fazer no campo dos sonhos ao largo do fim de uma fila assim.

Para onde todos olham como destino.

(Ao fundo, teclados soam com mais harmonias que melodia)

Certa vez William Carlos Williams compôs um livro chamado Quadros de Brueghel (Pictures from Brueghel, 1962). Cada poema do livro não é mais que a descrição de uma tela de Brueghel. Por analogia, pode-se fazer o mesmo com algumas sequências nos filmes de Bela Tarr.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

19 respostas a Prólogo a um Prólogo de Béla Tarr

  1. Rita V diz:

    mesmo estranho
    só ouço o silêncio

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    você tem razão, rita, todos gritam demasiado alto.
    até formar um silêncio.
    mas o que também chama a atenção é este curta ser de 2004, quando os fantasmas ainda não estavam tão nítidos.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    You’re right, Ruy. Não sou frequentador do Tarra, mas ali em cima, chapam-se Brueghels. Tenho de ir ler o WCW. Há dois livros do Sena assim: a Arte da Música é um belo adagio.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    conheço muito pouco de sena. espero ainda corrigir este defeito, manuel. mas sua associação, já me leva a caminho.

  5. Que poderosa e estranha sucessão de rostos, que podem ser realmente o retrato de uma certa Europa. A vida dura que pesa nas olheiras e nas faces enrugadas encontra um pequeno refugio no sorriso da rapariga da janela. Não conhecia este Tarr !!!! Obrigado Ruy pelo bonito texto e pela forte curta…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é realmente forte, bernardo.
      mas, de outro modo, como sabe, há problemas por onde se vá neste mundo.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    “Quando um cego guia outro cego, ambos caiem no abismo” – passagem de S. Mateus. “A Parábola dos Cegos” de Brueghel recria-a. E porque a pintura flamenga me fascina, de Brueghel em particular, selecciono também “A Queda dos Anjos”.
    Neste texto e noutros, a sua escrita tem pontos comuns com a do maravilhoso Joaquim de Magalhães.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    absolutamente, céu. uma passagem de uma beleza terrível. e muito bem glosada. há o sermão das três cegueiras, de vieira. e buñuel ilustra-a de modo emblemático em la voie lactée. sim, a pintura flamenga é quase um enigma. uma abrir e fechar de espaços à luz. e seus van eycks e veermers…

  8. Pedro Norton diz:

    Ruy, fiquei muito curioso sobre esse livro sobre os quadros de brueghel. Foi o pintor com que o meu pai primeiro me ensinou a gostar de arte.

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    começaste com o pé direito, ô dos açores!

  10. curioso (apalpando) diz:

    acho que quem deve cair é o “i”, pois se os cegos não forem surdos nem mudos sempre poderão confiar nos outros sentidos e nos outros em quem possam confiar, ou seja, cegos mas não sós

  11. curioso (descobridor) diz:

    absolutamente: confirma ter a sua escrita pontos comuns com a do maravilhoso Joaquim de Magalhães? vou tentar descobri-lo…

  12. Ruy Vasconcelos diz:

    bravo curioso, sempre espalhando-se: despertando nossa curiosidade com algo instigante. infelizmente, nunca li joaquim magalhães. mas devo lê-lo. seu entusiasmo ao falar dele contagia. 🙂

  13. Pedro Marta Santos diz:

    Ruy, o Tarr é lixado, mas é um lixado que vale a pena aturar. Tem compensações. Esta passagem do “Visions of Europe” é uma delas. E momentos do “Werckmeister Harmonies”. E o “Satántango” quase todo. Mas que é lixado, e difícil, e belamente difícil, é.

  14. Ruy Vasconcelos diz:

    sim, pedro. à “lucidez” de alguns é preferível a confusão de tarr. mas também é como você ressalta, não se trata de obra, como a dos mestres. são momentos. belos momentos, no entanto. ao modo de epifanias.

  15. Ana Rita Seabra diz:

    Gostei deste Prólogo.
    Retrato de gente que tenta sobreviver. Vida injusta…uns com tantos e outros com nada.
    Fez-me lembrar uma cena que assisto ao final do dia quando regresso a casa, no Campo das Cebolas, velhos e novos formam uma fila atrás de uma carrinha para poderem comer uma sopa!

  16. Ruy Vasconcelos diz:

    ninguém como uma mulher sensível para achar a relação concreta, inesperada. vista no dia a dia. muito mais precisa que as abstrações que a gente anda atrás, como de miragens.
    como de miragens, que depois se desvanecem. e é preciso fabricar outras.
    o que mais peço, ana rita: que não deixes de me ler.

  17. Ana Rita Seabra diz:

    Ruy, adoro os seus textos e leio todos!
    Obrigado pela sua resposta.
    um beijo atlântico 🙂

  18. Ruy Vasconcelos diz:

    selado 🙂

Os comentários estão fechados.