O triste Eneias

Sei bem que o epíteto de Eneias não é este, mas não é pelo habitual piedoso que quero começar. Escolhe-se, às vezes, de entre os heróis como de entre os comuns: atrai o brilho e o lugar da sombra é deixado à mercê das sombras.

Os heróis mediterrânicos são solares e vencedores. Podem chorar como Ulisses no palácio de Alcínoo quando ouve Damódoco, o aedo, a cantar-lhe as desventuras, mas logo essa turbação momentânea se faz ao largo. Ulisses regressa da vitória.

Eneias não. Acorrentado a um fatum que se vê impelido a cumprir, é o único herói das epopeias ocidentais que aparece a desejar a morte. Caída Tróia e feitos incêndio os campos onde ela foi, em sonho lhe surge o cadáver desfigurado de Heitor a indicar-lhe rumo e direcção: fundar uma nova pátria, que para isso estão de conluio os deuses, partir com um grupo de sobreviventes e continuar. Eneias nunca deixará Tróia, porém, e aí começa a sua amargura. Pedem-lhe os imortais um compromisso com o futuro, perde-se Creúsa na fuga porque Creúsa é o passado, leva o filho pela mão e ampara o pai que traz os Penates, a transportável memória, mas nem à vista do cadáver decapitado de Príamo na praia ensanguentada se consegue soltar, em espírito, da cidade.

Depois, são sete anos de errores. Sete anos de mar e de morte. De mortes e de más memórias. Até Cartago. Uma rainha em sedas pode criar, num só gesto, um simulacro de vida. Dido ama-lhe o passado e a ascendência, um príncipe troiano, um príncipe triste, filho de uma deusa e de um mortal, bebe-lhe as palavras da última noite de Tróia na narrativa que descobre horrores e mágoas até baixar de tom, madrugada fora, complacentes os deuses, propícia a tempestade.

Mas Eneias não pode ficar. Disso o vêm tornar ciente: há um futuro a haver no Lácio, no coração da península itálica. Para aí apontam os dedos implacáveis dos deuses. Eneias não se pertence, pertence ao fatum. E diz “A Itália, não é por minha vontade que a procuro.” (Italiam non sponte squor. 4.361) Eneias é o herói da pietas, do respeito pelos deuses, ainda que isso seja torná-lo, desde sempre, um vencido.

Dido, em desvario, lança-se sobre uma espada esquecida e solta presságios funestos para o futuro da futura Roma. A rainha de Cartago tem de morrer, mais uma morte antes da fundação da cidade, que a Eneida é isso mesmo: cada centímetro de vida custa o preço de uma inteira.

E Virgílio, quem é, quando começa a escrever o poema? Há quem veja nele o poeta da propaganda de Augusto. Seria, mas era também um homem triste. Pedem-lhe um poema que celebre a pax Romana. Uma epopeia. E ele cantará o homem que veio das praias de Tróia para fundar Roma que nunca verá. Mas Virgílio tem muitas sombras na memória. Depois da vitória sobre António e Cleópatra em Áccio, veio o horror demorado das guerras civis, a espoliação das terras e, finalmente, uma paz enganadora. O mundo romano apazigua-se, o poeta também, de certa forma, embora toda a demorada construção do poema se ressinta de fantasmas que não foram esconjurados e, a toda a hora, pareçam recordar que a fragilidade do destino dos homens, viajantes da amargura e tão facilmente rendidos à barbárie, é a única constante. Em 26 a.C., o grande amigo de Virgílio, o poeta Cornélio Galo, que fora nomeado prefeito do Egipto, cai em desgraça junto de Augusto e é forçado ao suicídio; em 23 o imperador acusa Murena e Cepião de conjura e manda executá-los. Nesse mesmo ano morre, tão misteriosamente, Marcelo, o herdeiro indigitado de Augusto. A esperança de Roma, o futuro. Muito provavelmente, com o envolvimento de Lívia. Agripa sai da corte e até as relações entre Augusto e Mecenas, o protector de Virgílio, se tornam distantes. O imperador está doente e é um homem desassossegado. Como pode o poeta escrever uma epopeia rutilante?

Depois de Cartago, a Eneida é longa sucessão de batalhas pela conquista da terra. Mas antes, no canto 6, é dado a Eneias descer ao reino dos mortos onde a sombra de Anquises, o pai, lhe ensina as uirtutes romanas, sobretudo (…) pacisque imponere morem/ parcere subiectis(…) (6.852-853) “estabelecer as normas para a paz e poupar os que se submetem.” Um projecto de civilização e de futuro.

No final do poema, mortos Palante, Miseno, Palinuro, Euríalo, Niso, Amata, Lauso, Camila … um cortejo sem fim, cabe a Eneias enfrentar Turno, o jovem rei dos Rútulos. Turno matara Palante e retirara-lhe, como despojo, o boldrié, o magnífico cinto de onde se suspendia a espada. É um combate sem glória. Os deuses desertaram Turno. O próprio Júpiter parece ambíguo, se é que não são ambíguos todos os deuses na Eneida. O rútulo cai, ferido, aos pés de Eneias e reconhece-lhe a vitória. Tome a mão de Lavínia e a posse da terra, que estabeleça a paz. Que o poupe. Eneias hesita. Fica suspenso de gesto e pensamento. Nisto, dão-lhe os olhos no boldrié de Palante que Turno trazia consigo. Do passado, das sombras, do desespero, da frustração, das mágoas, chegam-lhe de todos os cantos da alma os gritos das Fúrias. E Eneias mata Turno cuja vida cum gemitu fugit indignata sub umbras (12.952) “ com um gemido foge, indignada, para o mundo das sombras.”

Parece que Virgílio, perto da morte, tentou queimar o poema. O poema que celebrava a pax Romana e terminava com o contrário de tudo o que ela propunha.

Eneias é Augusto? Por certo que é, na barbárie e na paz; e é também António, quando se dá a uma rainha e ao amor; e é também Virgílio nas incertezas e angústias.

Eneias é Roma. E é o Mundo.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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21 respostas a O triste Eneias

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Noite de 22 de Julho de 2009. O dia adormecido em vão prometera-a suave. Os jardins do Palácio de Belém acolheram a ópera “Dido e Eneias” e um público ansioso pela combinação do espetáculo dos espetáculos com a beleza do redor. Mas o dia, já em profundo sono, mentira: um frio de quebrar ossos cortava os abrigos leves de quem estava. O vento transportava para longe música e canto. Resistia a expressão dramática do elenco.
    Quem via desertava aos poucos. Para os restantes, memorável o todo e na parte Glória de Matos ao declamar “Cantata de Dido”, no final, “Alma Minha Gentil que te Partiste”.
    Memória boa que a Ivone acordou com a excelência do texto.

    • Ivone Costa diz:

      Maria, obrigada pelo exagero da excelência. Ainda bem que lhe fiz acordar boas memórias.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Roma é o meu calcanhar de Aquiles. Tenho ali um volume de mais de mil páginas sobre a Literatura da Roma Antiga, que a Gulbenkian louvavelmente editou, mas abri-lo está quieto. Tudo o que é monumental me assusta. Mas esta estreia do “Está Escrito”, com o embalo que a Ivone, brilhante, lhe deu, convida. Convida à morte, a uma serenidade de sombras. Também se podia chamar “Roma, uma elegia”.

    • Ivone Costa diz:

      Eu percebo-o, Manuel. Então, se uma pessoa vier da luminosidade helénica, assusta-se ainda mais, mas este percurso mediterrânico está demasiado perto …

    • Ivone Costa diz:

      E obrigada pelo brilhante.

  3. Panurgo diz:

    Um texto assim, Ivone, com um português tão belo, quase que dá vontade de lhes perdoar. Quase.

    Manuel devia abrir isso; por exemplo, veja lá se isto não lhe lembra nada: «Também esta literatura [lambe-botas] confirma o juízo de Tácito segundo o qual se havia tocado o ponto extremo da servidão. Todo esse processo se iniciara, no entanto, na época de Augusto, e nunca mais se interrompera. Domiciano dotou de uma estrutura mais avançada e mais estável o aparato das formas do poder monárquico, um aparato que o curso da história imperial só vai confirmar […]. O próprio escritor tinha consciência de que se tratava de uma parte obrigatória da recitação. Quem a isso não se adaptava ficava obrigado ao silêncio, ao passo que quem pactuava tinha campo aberto para a sua experimentação literário».

    E por aí afora. O mais triste é que num livro também ele brilhante, Vida Privada (livro esse, que uma certa editora de referência podia tratar de publicar em português), o Veyne mostra bem que Roma é bem o espelho deste nosso mundo. Um vómito, do princípio ao fim.

  4. ruyvasconcelos diz:

    todo o texto, ivone. mas em particular esse reconhecimento da fragilidade do destino humano capitulando à barbárie por um dá cá a palha.
    uma beleza. por mais textos sobre os clássicos.

    • Ivone Costa diz:

      Obrigada, Ruy. Esse aspecto da humana condição é mesmo uma carga de trabalhos.

      • Panurgo diz:

        A Ivone que conhece tão bem os gregos e os filhos da… perdão, os romanos, podia escrever sobre isso; até porque eu penso que não é o Destino que é frágil: esse é implacável, duro e, pior de tudo, paciente como um gato. Ainda vemos o Prometeu no Cáucaso a gritar “aqui estou neste ritmo…”

  5. Maria João Freitas diz:

    Ivone,
    E que bem escrito está o primeiro Está Escrito. Para melhor o adjectivar, roubo uma palavra do seu texto: rutilante.

  6. Ivone Costa diz:

    Obrigada, Maria João. Rutilante é bom adjectivo, não sei é se o mereço.

  7. Helena Sacadura Cabral diz:

    Belo texto. Como sempre. Apenas Roma nos separa. Mas isso dava pano para mangas e tu ias matar-me!
    Ler-te apazigua-me.
    Bjo

  8. Obrigada, Helena. Beijo.

  9. Deixei o seu Eneias para o fim. Para o fim de tudo. Mesmo para o fim, fim, fim onde acabei finalmente por encontrar o princípio.
    Belíssimo texto.

  10. Eu aqui emparelho um bocado com o Manel, mas reconheço que já cedi à tentação (episódica, diga-se) de mergulhar nos escritos maiores. O mergulho mais profundo foi no Dante, onde acompanhei noites a fio o «seu» Virgílio, claro.
    O seu texto, Ivone, lembrou-me ‘Roma’, do grande Fellini, os vários palimpsestos nas escavações, e, à luz crua do sol, o excesso perverso da estética e dos hábitos humanos.
    Muito bom ‘vol d’oiseu’ sobre a Eneida e os vários Eneias.

  11. Ivone Costa diz:

    Muito bom mesmo, António, é ter gostado do “vol”. Obrigada.

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