Os financeiros não são como nós

Os financeiros são diferentes do resto de nós. Têm talentos diferentes, vidas diferentes, preocupações diferentes. Também comem e dormem e presume-se que façam as outras coisas que nós todos fazemos, mas a cabeça deles funciona de maneira diferente. Um financeiro (dos bons porque os maus não servem para nada) tem um talento muito especial: o talento de cumprir regras. Um financeiro é um cumpridor, consegue sempre cumprir as regras todas e trabalha, desde a escola, para ter 20.

Os financeiros são normalmente empregados, bem pagos, mas empregados. Têm que ser pois precisam de regras para viver e a regra é, para eles, uma coisa imanente. Um financeiro não cria regras, não as inventa, não as põe em causa. Recebe-as, de cima para baixo, como coisa metafísica e cumpre-as com zelo, dedicação e limpeza apostólica.

Os financeiros são normalmente asseados – não deixam um único cantinho por limpar – frugais, e não dados a excessos consumistas, e, tirando na festa de Natal do escritório ou com alguns colegas de curso (e, e…) são bebedores muito moderados. Dificilmente se vê um financeiro a cair de bêbado para afogar a mágoa do cônjuge lhe ter posto os palitos – uma impossibilidade que não estava escrita nas regras. Uma ressaca é fatal num financeiro pois pela manhã os números começam todos a mexer e os espacinhos nas folhas de Excel ficam mais pequeninos do que o costume.

Os financeiros não trabalham para os consumidores das empresas onde trabalham, nem trabalham para os trabalhadores das empresas onde trabalham, nem tão pouco, ou raras vezes, trabalham para os donos ou para os CEO’s das empresas onde trabalham. Os financeiros trabalham para cumprir a regra.

A regra, que como já disse tem para eles um carácter imanente, é-lhes dada por outros financeiros. É dogma passado do Worldwide CFO’s ao Regional CFO’s ao CFO local e por aí fora até ao contabilista que é o pároco da igreja financeira. É assim nas grandes empresas, nas multinacionais e nessa grande e patologicamente gerida multinacional chamada Europa. Claro que as regras vêm de algum lado, têm alguma razão de ser e podem ser qualificadas de boas ou más, práticas ou impraticáveis, lógicas ou absurdas. Mas a reflexão sobre as regras e a sua adjectivação não é o trabalho do financeiro. O trabalho do financeiro é cumpri-las até que sejam, imanentemente, mudadas.

Os financeiros não são pessoas como tu ou como eu. Os financeiros não trabalham com pessoas, que são imprevisíveis e imperfeitas e, sobretudo, todas desiguais; nem trabalham com coisas que são sujas e irregulares e têm cores quando podiam muito bem ser todas beige e encaixar umas nas outras. Os financeiros trabalham com números que, graças às regras, encaixam sempre e são pretos no branco. O inesperado não é do mundo do financeiro. As coisas têm que dar o resultado certo e certo é o que diz a regra. Se a regra diz, por exemplo, que a empresa x com um income y tem que ter um rácio de 50% de ordenados, 25% de outros custos e 25% de lucro e tem antes um rácio de 60% de ordenados e 15% de lucro, então o financeiro, se tiver poder para isso, faz cumprir a regra mesmo que, no fim, com menos gente a trabalhar, o income seja muito menor que y.

Os financeiros são gente da obediência cega. São gente da manutenção da ordem e não da sua alteração. É gente que vive no mapa, que é ordenado e limpo, e não suja os sapatos no território. É gente que acredita que desenhando uma casa no mapa ela aparece no território. É gente que acredita que o mapa é melhor que o território. É gente que não sai à rua.

Eu trabalhei com financeiros muito bons e competentes e tenho por eles o maior respeito profissional. Fazem um trabalho que eu detestaria fazer. Mas ter um financeiro a mandar na minha empresa é coisa que nunca me passaria pela cabeça. Infelizmente tenho um financeiro (e um porta voz) a mandar no meu país.

(Publicado hoje no jornal electrónico Dinheiro Vivo)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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22 respostas a Os financeiros não são como nós

  1. Sandra Barata Belo diz:

    e feitas bem as contas, um financeiro nunca teria capacidade para descrever a sua vida de uma forma tão interessante. acharia um perda de tempo no primeiro parágrafo.

  2. Panurgo diz:

    Há aqui uma ligeira confusão, se me é permitido dizê-lo. A Finança não segue regras, mas leis – é uma diferença bastante importante. Só é possível Método dentro dos parâmetros que a Lei estabelece, em resumo.

    Para os interessados existe um livrito (um entre muitos) onde isto está bem às claras: Analytical Methods for Risk Management; para os mais profundos há sempre Braudel, Sombart, ou Chandler.

    Mas, deixando isto; Pedro, quem é o porta-voz do Ricardo Salgado?

    • Pedro Bidarra diz:

      Caro Panurgo, confusão é o mundo onde vivo por isso não admira que as faça. Mas o Panurgo também fez confusão. Mea culpa, mea culpa que tenho obvias insuficiências no que à eloquencia diz respeito; mas não estava a falar da finança mas dos financeiros, uma “classe” profissional que todos os que trabalham em empresas conhecem; os bifes chamam-lhes account crunchers. São os financeiros, os contabilistas,os toc’s e os roc’s e os directores financeiros, também conhecidos como CFO’s. A vida deles é seguir regras. A lei é de outro nivel lógico a que o seu metier não dá acesso.

      • Pedro Bidarra diz:

        PPC: porta voz dos CFO’s e contabilistas que nos governam

        • Panurgo diz:

          Insisto, mas não muito. Seguem leis – conheço relativamente bem esse mundo amaricado e essa rapaziada efeminada – que mais não são do que a expressão visível em duas patas da coisa-em-si; Aristóteles descreve-os melhor do que eu na Retórica. Era necessário ir até à raiz da palavra para deixarmos as confusões. Mas ficava menos interessante. O paizinho deles, Maquiavel, que o diga.

          • Pedro Bidarra diz:

            Eu também não insisto mais. Fico-me pelo Houaiss que é o que se gasta cá em casa:
            REGRA, aquilo que regula, dirige, rege; princípio norma preceito
            LEI, 1 regra categórica 2 regra, prescrição escrita que emna da autoridade soberana de uma dada sociedade …
            Eventualmante estamos a falar da mesma coisa

            • Panurgo diz:

              São duas das palavras cuja história, raiz e etimologia é mais interessante. Se olhar para lá, vê a enorme diferença. Todavia, concordo consigo, claro. Apenas, como não podia deixar de ser, na definição das criaturas eu escolheria “canalhas” em vez de “financeiros”, mas, eventualmente, estamos a falar da mesma coisa.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    as mãos sempre limpas do financeiro. que talvez nunca as julgue sujas, ou tenha vontade de lhes auto-arrancar a machadadas, depois de um malfeito. só vontade.
    um seu texto, bidarra. mas, isso já pressentia, lendo um outro, mais ameno, sobre poder cooperar, nem que com vírgulas, para a enciclopedia coletiva

    • Pedro Bidarra diz:

      Não sei se têm mãos limpas ou sujas mas i trabalho é sempre limpo. O deve e o haver, o resto 0, as contas que dão certas. É gente muito asseada, de colarinho branco.

  4. nanovp diz:

    fiquei com pena dos financeiros e a gostar ainda mais da minha vida desordenada, sem racios, sem nexo muitas vezes, sem leis, e cada vez mais sem dinheiro…

  5. Orvalho diz:

    … falta dizer que alguns comunicam via facebook, quase todos se esquecem da palavra cash flow nas suas narrativas … e consta que um deles sabe trautear a nini que vestia de organdi.

  6. Pedro Bidarra, isso não é bem assim, olé! Eu conheço um ror de tocs, rocs e afins que são mulheres e a conversa, nesse caso, fia… não é bem mais fino, mas lá que fia, fia. Só para nós, aqui no blog, faz lá o favor de pintar esse omitido retrato. Nós sabemos que tu sabes.

  7. cc diz:

    O quê? Também há mulheres a jogar monopólio sofisticado? Pensava que só mesmo (alguns) homens estragavam o mundo:)
    ~CC~

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Odeio normas e convenções. Vindas de incompetentes, pior. E não é que a praga destes mandadores alastra insidiosamente!…

    • Pedro Bidarra diz:

      Normas e convenções são coisas muito práticas, organizam-nos a vida, poupam-nos tempo. Todos temos convenções e todos seguimos normas. Nem era possivel viver de outra maneira.
      O que há é normas e convenções adequadas a resolver problemas num universo que, quando mudam de universo, se mostram completamente inadequadas e patológicas.
      Eu sofro de tantas normas e convenções como o Gaspar e algumas são bem uteis na minha vida e no meu metier. Mas seriam absolutamente inuteis para fazer a contabilidade de uma empresa.

  9. Viver no mapa é viver num mundo que não é tridimensional. As três dimensões da realidade – mais a quarta, esse canibal de desejos chamado Tempo – é demasiado imprevisível. Nada disso seria ofensivo se o mapa não tomasse conta do território, devorando-o, como agora faz.

  10. Eu chamo-lhes contabilistas ‘snobs’.
    Um Relatório & Contas asséptico, muito completo.

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