Paraíso

A fotografia é de um tempo com tanto tempo que não pode ser uma fotografia do paraíso. Mas é. Um paraíso em cima de um tempo cheio de histórias, de heroísmos e maldades, de uma alegria de praia e uma tristeza de chuva.

Ao contrário do que acontece à minha esburacada memória, há quem se lembre do paraíso com precisão holográfica. Era tudo, cantando e rindo, como o meu mais velho diz.

Ouvindo-os, aos do paraíso redondo e impoluto, ninguém nunca teve ou terá tido a descuidada infância limpa e suja, inocente e perversa, idealista e totalitária, que o envergonhado Império nos deu. E o que é que nos terá dado para sermos, do Paraíso, anjos luciferinos? Dito de outra maneira: que raio de ideia, fazer o Paraíso em cima da Inferno.

A imprecisa foto é de 1975, no Lobito. Estou com três alunos meus, a Cristina, o Zé Tó e o Vitor. Digo os nomes deles, e ainda me lembro dos nomes de mais uns vinte, e é uma brisa fresca, maré cheia e plácida de fim de tarde. Não me lembro do que, naquele minuto da foto, se passava à nossa frente. Não parece uma festa, não era um comício, talvez um jogo de hóquei, e se há por ali um vestígio de angústia, é só um risco irónico.

Lembro-me, eu pouco mais do que a idade deles, que tínhamos uma espécie de Paraíso dentro de nós, mesmo quando parecesse que traziamos um diabo revolucionário no corpo. Estávamos sentados em cima de um inferno ainda em lume brando. Ardeu pouco depois.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

36 respostas a Paraíso

  1. curioso (já agora) diz:

    essa imagem é certamente um bom tapa-buracos da memória a ponto de ainda manter a figura com hoje se nos apresenta, passados 37 anos. é obra! é hora de avivar o presente e pôr ali a cara da verdade, por infernal que possa parecer 😉 http://www.youtube.com/watch?v=i8v2L2zcqyc

  2. Panurgo diz:

    O mais engraçado é que você e o seu aluno estão a olhar na direcção contrária ao resto do pavilhão.

    Fiquei a olhar para a moça de lenço à cabeça, ao lado do barbudo. Por agora deve estar velha, feia, ou morta. Não gosto de fotografias.

    • Sentimos o fotógrafo. E logo ele, que já era fotógrafo.

    • Fernando Leite Velho diz:

      O barbudo é o Rui Coelho, barbaramente fuzilado nos acontecimentos de 27.03.1977 em Luanda, juntamente com o Zeca Vandunem, Zila Valles e Nito Alves…

      • Fernando Leite Velho diz:

        Pois estava enganado, nâo é o Rui Coelho, mas o Fernando Madeira…

    • Stella diz:

      O moço barbudo é o Fernando Madeira, e à frente dele esta a minha querida prima Cristina Leite Velho, com um chapéu. O Rui Coelho, que foi evidentemente mal identificado, estava ha muito em Lisboa, onde fez o curso de direito, na Universidade de Lisboa. Jamais voltou ao Lobito, viveu sempre em Luanda com a mulher que é do Lobito também.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    puxa, como todos ainda fumam sem culpa nestas fotos. e olha-se para todos os lados do fora de campo, como em épocas mais saudáveis, docemente incorretas e políticas.
    e o hairstyle de todos é tremendo.

  4. Para que estão eles a olhar? Como o próprio Manuel não se lembra, podemos nós inventar….que histórias escondem este rol de personagens apanhados pela lente indiscreta da cãmara…

  5. curioso (a porta inferi) diz:

    e esta curiosidade conduz, involuntariamente, a um tempo ido em que era tudo gente morta… (e com cadavre exquis!)
    🙁

  6. Do poder dos céus e do poder dos infernos sou tão curioso como o Curioso (a porta inferi)!
    Mas dê lá mais pistas, que ainda o vamos (ou a vamos) descobrir…

  7. Maria João Freitas diz:

    Manuel,
    Apetece fazer tantas perguntas a esta fotografia…
    (aproveito a ocasião para fazer outra: o que aconteceu a esses inacreditáveis óculos?)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Maria João, e eu à espera que me perguntasse por onde é que, ligeiramente abaixo dos óculos, andam aqueles ombros semi-nus, luzidios e capazes de suportar o peso do mundo!

  8. Helena Sacadura Cabral diz:

    Meu caro Manuel esta foto fez-me andar pianinho uns, muitos, anos para trás. A um tempo em que o tempo não contava…
    Gostei do texto. Mas não acredito que o Paraíso esteja acima do Inferno. Nem em baixo. Julgo que serão espaços excêntricos, geometricamente falando, claro!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Minha querida Helena, mas que privilégio tê-la em visita a esta Triste casa. Fiquei a pensar e estou convencido que, afinal, inferno e paraíso são tudo menos excêntricos no tempo que é o tempo das nossas vidas. São mais como os entrelaçados sabores dos gelados: um é stracciatella, o outro pistachio. Quando julgamos que prendemos um na língua, bate-nos o outro nos dentes. Que outra coisa é a vida que não seja um Haagen Dasz!

      • Helena Sacadura Cabral diz:

        Odeio gelados…mas gostei desse entrelaçado da língua e dos dentes, ou não fosse eu cozinheira!

  9. O que faltava era uma carga da polícia:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Taxi, muito sagaz, muito sagaz… mas onde é que tu vais buscar estes incunábulos?!! Não me digas que viste estas coisas todas quando eras menino e moço!

      • Muitos vi-os, Polanski, Brouvil, Ford, Godard, etc, devo ter visto todos, passava a vida no cinema, nos cineclubes, nos ciclos da Gulbenkian ou palácio Foz, a chatice foi ter ficado sem os meus arquivos e ter que puxar pela memória. Graças a um deus menor que temos Deus Google, que por Sua mão nos leva às portas do céu com menos penar que Cimino, outra chatice é ter que me lembrar de uma palavra referência (e em inglês) para Ele fazer a busca, mas a Sua bondade não tem limites, só, talvez, a noite americana: estarmos no escuro sendo dia e não vermos a Sua resposta. (Por, exemplo, ando à procura de imagens de um filme chamado A filha do guarda da passagem de nível, creio, que vi no Quarteto, creio, em que o Roland Topor, o tipo dos desenhos, andava metido, como ator ou realizador, ou coisa parecida, e Deus Google veda-me os frutos da árvore do conhecimento).

        • AASAG diz:

          Procurava o mesmo filme e esbarrei no teu post.
          Provavelmente já chegaste aos mesmos resultados mas o título original era “La fille du garde-barrière” e em inglês, “The Gatekeeper’s Daughter” ou “The Daughter of the Railroad Crossing Guard” (informação de IMDB em http://www.imdb.com/title/tt0072984/)
          Pelo que percebi, não existe muita informação sobre o filme, além da meia dúzia de fichas, meio vazias, nos habituais sites de cinema.
          Se ainda não a tiveste, desejo-te boa sorte na pesquisa.

          AG

  10. curioso (meio vivo meio morto) diz:

    para Deus, muitas outras substâncias 😉

    A vida é o dia de hoje,
    A vida é ai que mal soa,
    A vida é sombra que foge,
    A vida é nuvem que voa;
    A vida é sonho tão leve
    Que se desfaz como a neve
    E como o fumo se esvai;
    A vida dura um momento,
    Mais leve que o pensamento,
    A vida leva-a o vento,
    A vida é folha que cai!

    A vida é flor na corrente,
    A vida é sopro suave,
    A vida é estrela cadente,
    Voa mais leve que a ave;
    Nuvem que o vento nos ares,
    Onda que o vento nos mares,
    Uma após outra lançou.
    A vida – pena caída
    Da asa de ave ferida –
    De vale em vale impelida
    A vida o vento a levou!

  11. “Digo os nomes deles(…) e é uma brisa fresca, maré cheia e plá­cida de fim de tarde.” Talvez o paraíso seja apenas – e é tanto – constituído por brisas frescas como essa.
    Um texto lindíssimo e uma fotografia magnética.
    Impossível não deixar um “triste” comentário.

  12. Maria do Céu Brojo diz:

    Seres e leituras. As desta cristalização volteiam no leitor.

  13. curioso (goodgladiador) diz:

    curiosamente, saco desse deus quase tudo… até as três fotos existentes da filha do guarda da passagem de nível 😉

    http://www.allocine.fr/film/fichefilm-132646/photos/detail/?cmediafile=18856947

  14. Ana Rita Seabra diz:

    Manel, esta fotografia está simplesmente um espectáculo…não sei se o seu texto fica atrás, o que é muito difícil… Confesso que sou uma grande fã dos seus textos 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      A Ana Rita gosta dos nossos textos porque é tão Triste como nós. A Tia já lhe chama sobrinha.

Os comentários estão fechados.