Quem não tem seu labirinto?

( O Manuel começou ali com Minotauros e eu, de imitadora, fui logo repristinar um texto antigo.)

Ariadne em Naxos. Evelyn de Morgan. 1877

Estraguei um casaco hoje de manhã no supermercado. O dia começou acinzentado e eu decidi pôr sobre os ombros um casaquito leve e atar-lhe as pontas à frente. Teria sido uma boa ideia se me tivesse apercebido de que, ao debruçar-me sobre uns alhos franceses, uma ponta solta no canelado do cós se tinha prendido a sei lá o quê. Não dei por nada e segui o meu caminho. Só quando levantei o braço para os iogurtes é que vi um longo fio rosado que saía de mim e se perdia ao longo do corredor. Tivesse eu algum juízo e cortaria o fio, seguindo em frente. Mas quem diz fio diz labirinto e eu sou lá pessoa para deixar em aberto uma possibilidade daquelas. Fui, então, guiada pelo fio, ao longo do corredor dos lacticínios, entrei na zona da fruta, virei para o lado dos legumes e lá encontrei o princípio do fim do punho do meu casaco. Dei-me, então, conta de que reentrara num labirinto (ainda que imaginário) para procurar uma resposta e dela retirar um ensinamento: ter cuidado ao debruçar-me sobre alguma coisa, não vá estragar-se o que tenho em mim.

O mito do fio de Ariadne tem assumido, sob as mais variadas representações artísticas, tantas e tantas versões que, desde os antigos (Homero, Hesíodo, Apolónio de Rodes, Apolodoro, Diodoro Sículo …) até aos modernos e contemporâneos, é possível encontrar um descomunal leque de interpretações, concomitantantes ou não.

Teseu, o herói, depois de ter matado o Minotauro no labirinto em Creta, viu-se em dificuldades para sair lá de dentro. Apaixonada ou não por ele, o certo é que Ariadne, a jovem princesa cansada daquelas zoomórficas complicações familiares, decidiu que ao ajudá-lo se ajudava a ela. Ajuda-te a ti mesma, deve ter pensado, que o conhecimento viria depois e para alguma coisa lhe havia de servir ser neta do Sol. Os poetas já deram mil e uma explicações para o facto de Teseu ter abandonado Ariadne na ilha de Naxos. Quando Marguerite Yourcenar escreveu a peça Qui n’a pas son Minotaure?, mostrou-nos um Teseu fragmentado em busca de uma íntima unidade, de um absoluto pessoal, busca na qual Ariadne é, ao mesmo tempo, auxílio e objectivo. “Si j’ai voulu vivre, c’ést pour sentir de nouveau l’odeur de miel des cheveux d’Ariane.” O odor de mel dos cabelos de Ariadne está para além dela e dos seus cabelos, é a procura incessante de mais qualquer coisa, de outra coisa a ultrapassar. Que é destino do herói ser heróico. Ariadne não pode deixar de ficar em Naxos.

Muitos pintores a representaram chorosa sobre o areal ou junto às rochas da ilha. A convivência com Dédalo, o engenhoso arquitecto do labirinto, deve tê-la tornado uma rapariga prática. E as raparigas práticas sabem que o melhor sítio para chorar um homem é o ombro de outro. Melhor do que o ombro de um homem, só o ombro de um deus . Ah, pois! Era mesmo isto: foi, com certeza, a conclusão a que chegou quando Dioniso lhe apareceu, disposto ao amor e aos seus excessos.

Faz muito tempo que tudo isto se passou. Até porque tudo isto se passou antes do próprio tempo começar.

O labirinto, esse repetido percurso entre a intimidade da sombra, não é apenas uma marca inapagável na condição humana. Existe, exige e é anterior a nós.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a Quem não tem seu labirinto?

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ivone, já se vê que, acima de tudo, Teseu não teve vida fácil. Por muito pouco que se ame a amada, alguma coisa há-de custar deixá-la a um deus hirsuto.

  2. Ivone Costa diz:

    Pois é, Manuel, ser herói não dá vida fácil a ninguém.

  3. curioso (labirintado) diz:

    baralhando e voltando a dar:

    o que tem a ver o canelado do cós com o punho do casaco?

    o nosso/vosso labirinto tem a ver com o cordão umbilical e para o lado interior ou exterior?

    os alhos portugueses teriam evitado o acidente?

    com quantos metros de fio se desfaz um punho de casaco leve?

    quando se debruça não tem nada que a proteja, sustendo-a?

    aquele Teseu foi herói ou vilão?

    baralhado e dado: assunto arrumado, só para labirintar 😉

    • Ivone Costa diz:

      Ora bem:

      estando o caro curioso habituado a que “cós” seja a cintura, tome nota de que pode significar toda a tira que reforça o punho, a cintura ou o colarinho; no caso vertente é a tira de malha canelada em que termina a manga.

      uma vezes é para o lado interior, outras para o exterior, em situação de labirinto não há norte nem sul, quanto mais interior e exterior.

      poderiam ter evitado, uma vez que se encontram, habitualmente, num plano mais elevado não exigindo, assim, um debruçar tão profundo.

      muitos, quanto mais fina a malha mais fio é necessário.

      nada, debruço-me pouco, mas quando o faço é sempre a benefício de inventário.

      foi herói. A missão era matar o Minotauro. Feito. A ajuda de Ariadne, ele não a pediu.

  4. Rita V diz:

    próxima vez leve-me consigo,
    duas agulhas de tricot e umas migalhinhas no bolso

  5. nanovp diz:

    Eram uns heróis muito humanos, com sentimentos e desamores, e as histórias muitas vezes sem “happy endings”…

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