Ritorniamo questa sera

Vamos lá ver se os rapazes deixaram um dos cannoli para mim, que isto d’ O Padrinho, bem se sabe, é território deles.

O nosso Manuel escreve, num dos comentários ao seu post: “A angús­tia de Brando é da ordem do trá­gico”. Não só a de Brando: toda a ordem d’ O Padrinho é da ordem do trágico. A imagética,  a cor, o grito, o dress code, também o sãoNão perderam a fundura helénica dos excessos, das desmesuras que desembocam na morte, e ganharam, para além disso, a   dromologia de uma cultura que os moldou mas nunca, em definitivo, os afastou da casa onde, paradoxalmente,  não nasceram mas de onde nunca saíram. Basta olhar para Connie a segurar os binóculos de ópera com a mão enluvada em que se enlaça um rosário. Na mira está Dom Altobello a agonizar por causa dos doces envenenados que ela lhe mandara.

Mas só na cena final, após a morte de Mary, lhe vemos realmente o rosto. Quando Connie puxa sobre a cabeça o manto do luto, já regressou à casa antiga, à Sicília agreste e trágica, onde “quando eles vierem, hão-de matar quem mais amares.” Pouca importa a griffe da écharpe que se faz véu. Connie é uma camponesa siciliana. E grita. Todos gritam de dor.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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15 respostas a Ritorniamo questa sera

  1. Gostei muito. A Keaton faz uma bela Pietà.

  2. Sc diz:

    Creio que foi acometida pela alma do technicolor dos defuntos anos 50.
    Connie está perto do trágico, pela total aceitação do seu destino (de divindade familiar e imanente).
    O grito – refere-se ao de Miguel, presumo – pertence não à tragédia mas ao drama cristão: redime-se pela renuncia.

    • Ivone Costa diz:

      Há vários gritos que se sobrepõem e é isso que me fascina, tanto quanto a cena inicial d’ O Leopardo: quando se ouve o rezar do terço e a câmara mostra os frescos com figuras da mitologia pagã.
      Sou acometida pelo cruzamento dessas heranças diversas.

      • Sc diz:

        Somo todos acometidos, sendo europeus.
        Creio que a nós, portugueses, é mais fácil esquecer o paganismo, por sermos ainda um pouco pagãos sem que isso nos angustie.

  3. (Essa de “Os Padrinhos” serem para os rapazes… ). A Ivone captou inteiramente a natureza trágica da trilogia, que tem o seu ponto culminante no brilhante, operático terceiro filme (primordial é perceber que a transgressão do sangue, a relação amorosa entre Vincent (Andy Garcia) e Mary (Sofia Copolla), os primos que afrontam o interdito, desencadeia a Ira, e dá origem à derrocada da ordem, o tenaz desejo de ordem, simbolizado na legitimação legal dos «business», que Michel Corleone (Al Pacino) persegue. Viu muito bem a Connie (Talia Shire), a irmã fiel até ao fim, símbolo da vontade dos homens e das mulheres: mão do destino, guardiã da vingança, marioneta dela. Contra a vontade levanta-se o destino. Fala-nos de um filme injustamente apreciado pela crítica, que não percebeu que nele que se fechava o ciclo. A consumação da tragédia.

    • Ivone Costa diz:

      Obrigada, Manuel Margarido. Também creio nessa injustiça da crítica. Por isso peguei nele, enquanto os rapazes preferiram outras imagens.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    dom altobello degustando os caramelle e morrendo.
    puxa, que tragédia, ivone. mas tragédia mais puxada à modernidade.
    e a modernidade sabe mais à farsa. e, ainda assim, quem não lembra de gêrmanico morrendo envenenado na síria, segundo o relato de suetônio. ou agripina envenenando seu marido, crispo.
    por seu turno, suspeito que se puzo escrevesse em português não seria muito melhor que paulo coelho com as palavras. a diferença, talvez, é que puzo seja menos fanfarrão ao falar de si e de seus livros. e, sobretudo, que escreva em inglês.
    nós? babamos com qualquer embrulhada posta em inglês.

  5. Ivone Costa diz:

    Oh, valha-me Deus, seu Ruy, não me traga Paulo Coelho para debaixo dos meus posts. Ai.
    Olhe que há mais coisas nos Padrinhos do que vê a nossa moderna velocidade ( estou com Shakespeare porque ia meter o rei Lear na conversa e já estou com sono …)

  6. Rita V diz:

    Belo texto. Consegui ver ainda mais imagens.

  7. Óptima visão, Ivone. Talia Shire é Agripina (ou Electra, versão Eugene O’Neill?) na fita mais incestuosa da trilogia – Coppola recorda uma vez mais que o incesto é o tabu fundador da civilização ocidental (segundo Eliade, é-o de todas as civilizações). Quando o incesto se insinua, nasce a tragédia. A força dramatúrgica dos “Padrinhos” está na forma como cruza a mitologia clássica, o peso mediterrânico cristão e a violência que fundou a América. Nesse sentido é, em todo o cinema americano, apenas a segunda vez que a tragédia se faz imemorial, após o “The Searchers” de John Ford. Mas não esqueçamos o paganismo da sociedade de consumo, como atestam os sobretudos Armani e a iconografia pré-Eames, tão importantes para o sucesso e perenidade do filme como as referências de “alta cultura” – “O Padrinho” é igualmente importante na memória colectiva por causa da “alta costura”. obrigado pelas suas palavras.

    • Ivone Costa diz:

      Ora essa, Pedro, obrigada digo eu. Sim, também creio que a força dos “Padrinhos” nasce desse cruzamento de vivências e modos de estar. A última “peça” de uma trilogia tende a resolver o conflito. Olhe-se A Oresteia de Agamémnon: na última, As Euménides, Orestes é arrancado à fúria das Erínias, que vingavam os crimes de sangue, e julgado pelo Areópago. A vendetta mediterrânica dá lugar ao julgamento num tribunal e o mundo parece apaziguar-se. Parece.
      O Padrinho III não resolve. Lembremo-nos de Connie a beijar a mão de Vincenzo que traz em si a memória do que nunca viu: o corpo de Sonny, perfurado de balas, na portagem da auto-estrada. Também ele voltará a casa. Nós é que (ainda) não vimos, embora eu consiga imaginar perfeitamente.

  8. Muito bom, adorei ler sobre um filme (trilogia) da qual sou absoluta fã. E gosto especialmente do terceiro filme, cheio de alegorias e simbolismos. 5***** para si e para o Coppola. 🙂

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