Ruben A. pela vida adentro

 

Os livros, os escritores, os filmes, os realizadores da nossa vida são-no nesta e por causa desta. Cruzam-se com ela, aninham-se nela, entranham-se nela, fazem-se nela de uma forma tão apaixonadamente simbiótica que já não sei dizer o que são uns e o que é a outra. Foi o Ruben A. que apareceu na minha vida ou foi a minha vida que se pôs à procura de Ruben A.? Não sei, nem verdadeiramente interessa. Foi no ano mais cinzento da minha vida e isso pode justificar tudo e o seu contrário.

Sentava-me ao seu lado naquelas tardes muito geladas de hospital e lia-lhe tudo o que as forças dele já não alcançavam. Estou seguro que dormitava. Sonos e sonhos de morfina. Mas nem a dormir deixava de sorrir. E logo abria os olhos para sublinhar uma passagem, pontuar um parágrafo. Li-lhe excertos longuíssimos do “Mundo à Minha Procura“. Perdemo-nos num silêncio cúmplice na casa do Campo Alegre como nos tínhamos perdido em todos os casarões da nossa infância. Sonhámos os naufrágios ao longe e as sirenes de desgraça. Os Natais nórdicos que eram do Ruben e que por terem sido também de Sophia a nossa mãe fizera nossos. Os desencontros de amor, ridículos como só eles sabem ser. O Minho que era dele e que o nosso pai nos legara. Interlúdios felizes mastigados num deserto de granito sem fim.

Julgo que passámos às “Páginas” logo depois. Lia-as ao acaso. Levava dois e três volumes de cada vez, perdido no cadeirão mais solitário que alguma vez conheci, e abria-os sem nexo que pudesse dizer meu. Talvez pressentisse que não podia chegar-lhes ao fim antes que chegasse o fim de todas as histórias que eu pude ler-lhe. “Conto de Natal“, “O professor e o armário“, ” O jardim ancorado“. De trás para a frente, de frente para trás, numa pressa angustiada de lhe dar tudo. As máquinas infernais faziam as vezes do relógio, pontuavam o tempo, as refeições, as enfermeiras e as dores que ele escondia para não nos inquietar. E eu lia, lia numa sofreguidão imensa, numa saudade antecipada, numa sede que não sabia ainda ser sede de sal.

Quando tropecei no “Rapaz de veludo” não sabia, não podia saber, que a hora chegara. Mas talvez devesse ter desconfiado. Do riso, franco, solto, valente como todos os risos e todos os sorrisos dos que querem tudo rir. Do espanto dos ciclóstomos com as lampreias de ovos que desaguavam nas pastelarias da baixa. Da snobeira dos chernes que desprezavam as pescadas e namoriscavam as garoupas na esperança de apanhar linguados. Talvez devesse ter desconfiado da tristeza imensa  com que acompanhava com o olhar a eterna horizontalidade dos mortos pequenos arrebatados de praias pelo descuido de criadas parolas.  Talvez devesse ter desconfiado que com o “Rapaz de Veludo“, também ele entrava já pelo mar dentro, pelo orvalho dentro. Talvez devesse, mas nunca desconfiei.

Agarrei-me ao conto com mãos desesperadas de um náufrago e deixei-me ficar a boiar na doce ilusão de que se fazem as mortes anunciadas. Quando o deixei finalmente escapar o Rapaz de Veludo já não era. E o Ruben A. tinha-me entrado, com o descaramento dos que também já não são, pela vida adentro.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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6 respostas a Ruben A. pela vida adentro

  1. È, Pedro, um texto de veludo. Pede leitura sôfrega e avisa-nos de que, por muito que venhamos a ler Ruben A., nunca o leremos tão silenciosos e náufragos como aqui está lido e está escrito.

  2. Ivone Costa diz:

    Um texto magnífico, Pedro.

  3. nanovp diz:

    Ler para contá-la, à vida, e deixar a escrita entrar.

  4. JP Guimarães diz:

    Lembro-me bem desse cadeirão e de uma tarde em que, ele e eu , assistimos juntos a um episódio do National Geographic. Na televisão, sem som, viam-se imagens de uma selva tropical; lá fora estava um céu cinzento, cada vez mais escuro à medida que a noite chegava. O silêncio era absoluto. A certa altura adormeceu. E eu, no tal cadeirão, adormeci também. Lembro-me como se fosse hoje.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Fui pelo teu texto adentro e comovi-me.

    Lembrei-me de um poema da Sophia que deixo aqui:

    Ausência

    Num deserto sem água
    Numa noite sem lua
    Num país sem nome
    Ou numa terra nua

    Por maior que seja o desespero
    Nenhuma ausência é mais funda do que a tua

  6. É bom deixar correr as lágrimas quando se lê um texto assim.

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