Slogan de um país

Nunca fui de movimentos que não fossem geneticamente meus.
Abomino multidões, aquela massa imprevisível e potencialmente perigosa, de bruscas pulsões peristálticas e urro facilitado pela mole embriagada de si e do seu instante de força.
Mas há coisas que ainda detesto mais.
E por isso, hoje, a las cinco de la tarde, serei um numa.
(trago reportagem!…)
(a imagem utilizada pedi-a emprestada ao Movimento-Antipartidario, que imagino não ficar aborrecido com este meu pequeno uso)
E agora uma musiquinha impiedosa, que vem sempre a propósito…

 

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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10 respostas a Slogan de um país

  1. Caro António, também serei um numa, hoje, “a las cinco de la tarde”. Como diz uma velha canção, “p’ra melhor, está bem está bem / p’ra pior já basta assim!…” Já bastava José Sócrates! Será que agora se pensa que um mal se combate com outro ainda maior?… (Ah! Já agora… boa escolha musical!)

  2. Caro António, faço minhas as suas palavras.

    Será a primeira manifestação em que participarei.

    Apesar de ainda não estar completamente restabelecida de uma intervenção cirúrgica e, portanto, apesar da minha mobilidade ainda não ser a melhor para uma coisa destas, haverei de encontrar maneira de lá estar.

    Há alturas em que temos de ultrapassar as nossas reservas ou limitações para mostramos, alto e bom som, que há coisas que não se conseguem suportar.

    Bom sábado!

  3. fernando canhão diz:

    1988, estou com um colega em Atenas a fazer horas para o regresso a Lx. Chegados à praça Syntagma damos com uma manifestação – Canhão, vai para um horror de anos que não vou a uma manifestação, que tal aproveitarmos esta? Belíssima ideia, mas sugiro a varanda, da sala de jantar do Hotel Grande Bretagne à nossa esquerda(?), de onde se deve assistir a tudo e onde não passaremos sede.
    Medimos mal a coisa, o Grande Bretagne para evitar incómodo aos seus hóspedes, esquecemo-nos disso, assim que surgiram os manifestantes e a sequente carga policial, vedou a varanda com robustas persianas de aço e brindou-nos com vários quatuors de Mozart dedicados a Haydn, muito bem tocados por um string quartet cujo nome não recordo.

    Abaixo as varandas. Hoje irei acabar o dia de pés para cova, e atafulhado de água do Vimeiro a esmagar-me a próstata.

    Já num jantar recente, com colegas de várias origens, fiz-lhes notar que sendo nós idosos pré acamados, e carenciados, daqui por meia dúzia de anos estaremos todos em lares (os ainda vivos), alimentados por tubos ou colheres de yogurth. Perante tal quadro de miséria, a alternativa aprovada passará então pela criação de um grupo terrorista semi demente, fortemente armado (Uzis e AKs, armas leves que requerem pouca pontaria, inclusive a doentes com Parkinson). E claro, gravata inglesa, Harris tweed e deslocando-nos exclusivamente em carro de praça.

  4. Panurgo diz:

    Acordei demasiado tarde e demasiado ressacado para lá ir; pelo que vi na televisão, não se matou ninguém – compreende-se, porque a Quinta Patino ainda é longe…

    Nada de interessante, portanto. Quando for para queimar uns vivos, dou lá um salto; embora tenha perdido a esperança, pois vi na reacção ao assalto gaspariano um dirigente da CGTP de polo cor-de-rosa Lacoste, e hoje, segundo diziam os papagaios do microfone, a extrema-direita sob protecção policial.

    Pussies

  5. Muito bom, António. Tanto o slogan como a selecção musical. (Vou partilhar, como partilhei a marcha e a falta de pachorra).

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