#4, Soraia

40°48’19.776″ Norte, 28°37’49.335″ Este. Foram estas as coordenadas que a Organização lhe entregara. Umas coordenadas e uma data – 13/12 –, a isso se resumia a missão que lhe fora confiada. O resto aconteceria por si. Só precisava de ser ela própria. Já se imaginava a ser ela própria num luxuoso iate em pleno Mar de Marmara, na plataforma continental turca. Pelo menos era para aí que apontavam as coordenadas. Bem sabia Soraia o que a Organização dela esperava quando lhe comunicara que só tinha de “ser ela própria”. Já se habituara a que lhe atribuíssem responsabilidades que pouco mais lhe exigiam do que pôr a render os seus extraordinários atributos físicos e o irresistível poder de sedução que os mesmos lhe conferiam. E a verdade é que gostava desta improvável parceria entre os seus talentos de cortesã de luxo e os mais altos desígnios da Organização. Improvável, sim, porque lhe faltavam a disciplina, a contenção e a frieza que fazem a carreira das grandes prostitutas. Numa palavra, profissionalismo não era coisa que se visse numa mulher a quem bastava apertar a mão, piscar o olho ou dirigir um vulgar piropo para fazer atear a chama de uma sexualidade desenfreada e insaciável. Ninfomania ou excesso de libido, diziam os médicos da Organização (depois, claro, de cada um dos elementos de uma junta médica numerosa terem sido por ela possuídos, uns a seguir aos outros, no curto espaço dos vinte minutos que estavam reservados ao seu exame). Felizmente, agora tinha sempre os comprimidos com ela. Os seus controladores de libido não a largavam, e ela sabia bem que a sua missão, e toda a sua carreira mesmo, deles dependiam. O gozo que lhe dava exercitar diferentes dosagens conforme a natureza do mandato ou a atractividade de cada alvo, era um segredo que guardava só para ela. Mas, para aquele dia 13/12, nem um comprimido lhe seria permitido porque a ordem fora clara: tinha de “ser ela própria”.

Desta vez, pouco sabia do seu alvo. Todos os cuidados eram poucos para garantir o sigilo da missão. Apenas dois dados lhe foram transmitidos pela Organização. Um, relativo à origem “madeirense” do alvo. Dissera-lhe o seu pai português, já depois de todos os registos históricos existentes sobre o arquipélago da Madeira terem sido apagados, que se tratava de uma região autónoma de Portugal que caíra nas mãos da Organização depois de os desmandos de um governante terem obrigado, já com a população nas ruas, a uma intervenção (chamaram-lhe “humanitária”, como convém tratar todas as intervenções da Organização). Isto, ainda segundo o seu pai lhe contou já de lágrimas nos olhos, pouco antes de Portugal, sob o impulso de um governo infiltrado até à medula por elementos da Organização, ter deixado de existir como país para se transformar também numa colónia desta. Outro dado era, segundo a Organização, de grande utilidade para Soraia identificar o alvo. Fossem quais fossem as coordenadas onde o viesse a encontrar, uma tal de Brigitte Bardot de 56 estaria com ele. Nome de actriz explosiva de outros tempos, segundo lhe disseram. Uma espécie de Soraia em loiro, salientaram os responsáveis da Organização para a porem de sobreaviso sobre a possibilidade de o alvo (não podia chamar-lhe outra coisa se não o “alvo”, pois nem sequer sabia o nome dele) não se deixar distrair facilmente pelas suas manobras de aproximação (e Soraia sorria, já a imaginar as escaldantes noites a três que a esperavam).

Enquanto pesquisava sobre Brigitte Bardot no Ipad (e nem sempre era fácil obter informações fidedignas na web, dado a constante manipulação exercida pela Organização sobre qualquer dado disponibilizado ao público), ouviu o sinal que indicava que o avião onde seguia iria passar por uma zona de turbulência. À sua espera no aeroporto estaria Org para lhe transmitir mais pistas sobre o alvo. Org era uma criança sobredotada, uma das duas categorias usadas pela Organização para missões do género daquela que lhe estava confiada. Soraia, que orgulhosamente integrava a outra categoria – chamemos-lhe, para simplificar e nos deixarmos de eufemismos, a das prostitutas -, conhecia bem as razões do recurso às duas para a prossecução dos mais altos desígnios da Organização. Bem sabia que ninguém desconfiaria que uma pobre criança poderia ser portadora de inconfessáveis segredos que poderiam mudar o mundo. Lembrou-se, entretanto, que ainda faltavam cerca de três horas para chegar ao destino e que, desde que descolara, ainda não tomara nenhum dos seus previdentes comprimidos. E a verdade é que seu corpo já começava a acusar a carência do antídoto para os seus excessos. Levou à mão à carteira, não fosse o corpo pregar-lhe uma partida pouco aconselhável em pleno voo. Procurou, procurou, mas nada de comprimidos. Já tomada pela ansiedade, esvaziou a carteira no colo do seu vizinho de lugar, um simpático executivo que logo ofereceu os seus préstimos para a auxiliar na busca. Dois garbosos e solícitos comissários de bordo, dando conta do nervosismo de Soraia, acorreram também. Mas os comprimidos não apareciam mesmo…

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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24 respostas a #4, Soraia

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Muito bem esgalhado, Diogo. Confesso que me sinto também aflito e já estou à procura dos comprimidos só para ajudar a Soraia. Caramba, quem é que, com a tua descrição, não tem logo vontade de lhe dar uma mãozinha.

  2. Rita V diz:

    isto promete, ai promete promete, acho que não vai escapar ninguém no avião

  3. Ivone Costa diz:

    Isto vai ser lindo, vai.

    • Diogo Leote diz:

      Ivone, cabe-lhe a si também, lá mais para a frente, tornar isto bem lindo. E o curioso que eu estou em saber o que vai fazer da Soraia…

  4. MJC diz:

    Depois disto voto para que no fim não haja mortos 🙂

  5. Diogo Leote diz:

    Patrícia, ainda bem que gostaste. É uma honra.

  6. nanovp diz:

    Aposto que ainda andam à procura dos comprimidos, ela de joelhos e mãos no chão, testa com testa com o resto do avião…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, já consigo antever em que posições vais deixar a Soraia quando o cadáver te vier parar às mãos…

  7. Pedro Bidarra diz:

    Que grandes continuações. Que grande mosaico sim senhor e senhora…

  8. Diogo Leote diz:

    Mestre Bidarra, o teu Johnny Zarco foi a inspiração. E, já que tem de morrer, que morra feliz.

  9. Ufa, na primeira linha ainda pensei que fosse uma missão para o nosso superespião, mas surge uma senhora, embora Soraia possa ser um nome de código de Silva Carvalho.

    • Diogo Leote diz:

      Taxi, longe de mim a ideia de fazer renascer o superespião. Vamos lá ajudar a menina Soraia a Não encontrar os comprimidos.

  10. teresa conceição diz:

    Diogo, ri tanto.
    Esta história estava a precisar de uma continuação assim risonha e soraia. Muito bom.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, ainda bem que gostou. Peço desculpa por sujeitar as suas freiras de Capri a estes excessos da Soraia.

  11. Maracujá diz:

    Que belo enredo, caro Diogo. Gosto. Oxalá Soraia não encontre nunca aqueles comprimidos. A libido deve ser vivida e nunca reprimida, para o bem do nosso corpo e mente.

    • Diogo Leote diz:

      Vamos ver, Maracujá, o que decidirá a autora que se segue em relação à libidinosa Soraia.

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