Teresa D’Ávila

 

Eu tenho por Santa Teresa um apreço bem medido: “Formosura que excedeis / A todas as formosuras…
Julgo não dar novidade a ninguém se disser que o meu radical catolicismo (suspendo por instantes a agnóstica dúvida) é sobretudo solar. Também a Santa Teresa o devo. A disponibilidade orgástica da Santa (“Sem magoar, dor fazeis…“), por revolver vales e montanhas, reforçou as minhas inclinações metafísicas. Sou pela elevação, mas a elevarmo-nos, elevemos corpo e espírito. Se é para subir, sobe tudo. O êxtase só é êxtase espiritual se for também êxtase carnal: “… sem acabar acabais, / e sem ter que amar amais…”
Um pormenor: gosto dela D’ Ávila. Gosto do indecidível D que o curvo dedinho do apóstrofo vem acariciar.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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18 respostas a Teresa D’Ávila

  1. Ivone Costa diz:

    A ser êxtase, que seja muito berniniano. Não é, Manuel?

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Sempre me fascinou esta Santa Teresa.
    Manel, viu o filme? Na altura marcou-me bastante…
    Aqui vai o link

    http://youtu.be/vBaBlVtZY3U

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    teresa. imensa. também como poeta. por aqui, manel, irreverentemente chamada de a teresona, para distingui-la da outra, a de lisieux. há momentos que não somos nada subtis.
    e dos mistérios que se acham entre espírito e corpo, ao que parece, a teresona sabe um bocado. pois há coisas que nos escapam. ou que não se rendem a qualquer nominalismozinho redutor….

    • Ainda oscilo com o impacto da sua Teresona, meu amigo. Não fazia a mínima ideia. Mas, Teresona? Tira-me um bocadinho, como hei-de dizer, o aguçado brilho no olhar. E é um desastre para as rimas, meeu bom Ruy.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        sinto quebrar o clima, meu velho. fazer o quê? os brasileiros, manel. toscos como o eça, trisavô aí do nosso antónio, os pintava. vá desculpando aí a perda das chispas no olhar…é como a chamam…não estou inventando…e sobre os brasileiros deixo-lhe com um poema do oswald de andrade:

        *

        Vício na fala

        Para dizerem milho dizem mio
        Para melhor dizem mió
        Para pior pió
        Para telha dizem teia
        Para telhado dizem teiado
        E vão fazendo telhados

        * * *

        é isto. e quando menos se espera, já está tudo cobertinho que é uma beleza. e até a teresona, de má rima, agradece…

  4. Rezar a santa Teresa não bastará, agora que não há dúvidas da breve falência de Portugal, restam música, martinis e memórias:

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Tem razão Manel! Quando vi o nome Santa Teresa a primeira coisa que me veio à cabeça foi este filme…

  6. A mim vem-me logo à cabeça Jacques Lacan.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Isso é um relâmpago. Fizeste-me lembrar o Pedro Luzes (era assim?)

      • O Luzes era freudiano, duvido que tivesse ido aos seminários do carote Lacan. (Uma das coisas que os distinguiam, era os preços das consultas, as dos lacanianos eram upa upa, partindo do princípio que, um tipo pagando muito, só por si, é um incentivo a curar-se).

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    De Santa Teresa D´Ávila, ficou-me esta: “Teresa sem a graça de Deus é uma pobre mulher; com a graça de Deus, uma fortaleza; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência.”

  8. Curioso (flamegando) diz:

    Será que há uma santa que dê lulas?

  9. Helena Sacadura Cabral diz:

    “Um por­me­nor: gosto dela D’ Ávila. Gosto do inde­ci­dí­vel D que o curvo dedi­nho do após­trofo vem acariciar”.
    Ora aqui está descrita a sensualidade do nome da Santa. Delicioso, meu caro Manuel!

  10. Manuel S. Fonseca diz:

    Helena, a falta que o dedinho do apóstrofo anda a fazer estes tempos!

  11. curioso (anti-mouton) diz:

    este sermão (encomendado sabe-se lá por quem e para quê??) acaba numa procissão de fiéis comentários que ficam bem rematados com a deixa do Panurge evocada no Cadavre Exquis

    Panurge (from Ancient Greek Πανοῦργος / Panoûrgos meaning “He who makes everything”) is one of the principal characters in the Pantagruel (especially the third and fourth books) of Rabelais, an exceedingly crafty knave, a libertine, and a coward.

    In Chapter 9 of the first book he shows he can speak many languages (German, Italian, Scottish, Dutch, Spanish, Danish, Hebrew, Ancient Greek, Latin and French), including some of the first examples of a constructed language.

    In French, reference to Panurge occurs in the phrase mouton de Panurge, which describes an individual that will blindly follow others regardless of the consequences. This, after a story in which Panurge buys a sheep from the merchant Dindenault and then, as a revenge for being overcharged, throws the sheep into the sea. The rest of the sheep in the herd follow the first over the side of the boat, in spite of the best efforts of the shepherd.

    “Suddenly, I do not know how, it happened, I did not have time to think, Panurge, without another word, threw his sheep, crying and bleating, into the sea. All the other sheep, crying and bleating in the same intonation, started to throw themselves in the sea after it, all in a line. The herd was such that once one jumped, so jumped its companions. It was not possible to stop them, as you know, with sheep, it’s natural to always follow the first one, wherever it may go.” –Francois Rabelais, Quart Livre, chapter VIIIhttp://

    http://www.youtube.com/watch?v=sPI3DYMJMbM

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