The Basement Cinematheque: Bruscamente no Inverno Futuro

Onde estão os fantasmas das árvores de Natal?

 O russo Andrei Tarkovsky (Zavrazhe, 1932), filho de um poeta, admirava Brueghel O Velho, Piero de la Francesca, Durer, Dostoievsky e não era menos do que eles. Começou a ser notado em 1962, com “A Infância de Ivan”, um filme assombrado pelos traumas de guerra, parcialmente autobiográfico, que renovava o esplendor plástico de Dovjenko e Sojstrom mas não se parecia com nada. Tornava-se nítida desde logo a busca da transcendência como objectivo final, e a presença da transcendência como triunfo artístico último. O cinema de Tarkovsky não é um cinema de prosa, é um cinema de poesia, como confirmaram “Andrei Rubliov (1966), “Solaris” (1972) e “O Espelho”, os filmes seguintes. Não interessavam o “plot”, as interpretações, a montagem. Interessava o pormenor, um movimento, a beleza do jade reluzindo no silêncio. Ninguém filmou e filma a natureza como Tarkovsky, antigo estudante de geologia, em planos de pormenor transformados em planos-sequência, num rigor e numa fluidez que pereceram com ele. Elemento comum e ideal unificador? A água. “Há sempre água nos meus filmes. Na natureza, gosto das coisas pequenas. Microcosmos, não macrocosmos. A água é um elemento misterioso por causa da sua estrutura simples. É muito cinegética; transmite movimento, profundidade, mudança. Nada é mais belo do que a água”. A água em Tarkovsky não reflecte apenas o pulsar da vida, centro transparente de onde tudo brota.

Wasser, Walser,Welt. Warum?

Ela simboliza a procura do sagrado, tão cara ao cineasta, e a seriedade da sua investigação poética sobre o tempo. Como em “Stalker”.

“Stalker”, longa-metragem dirigida em 1979, é o quinto trabalho do russo – só terminaria mais dois, “Nostalgia” (1983, com financiamentos italianos) e “O Sacrifício” (1986, com produção sueca). Adaptada duma novela dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, é a história da “Zona”, uma área alienígena – resultado do impacto de um meteorito – guardada por um governo totalitário, e de um dos guias que, vivendo nas fronteiras dessa “terra de ninguém”, orienta ilicitamente os viajantes à procura de uma possível Verdade Interior. No coração da “Zona” há o Quarto, espaço que revela e concretiza os desejos mais profundos dos que nele penetram. Os únicos humanos (mutantes da radiação libertada pela “Zona”, mas ainda humanos) que sabem o caminho para o Quarto são os “stalkers”. Um deles, interpretado por Aleksandr Kaidanovsky, rosto ofegando cem anos de solidão, tem uma filha com deficiências físicas mas poderes telepáticos (a telequinésia e os mistérios da mente fascinam tanto Tarkovsky, cristão ortodoxo, como os mistérios da Fé).

“Espelho meu, quem levita mais leve do que eu?”

 Um dia, o “stalker” recebe a visita do Escritor (Anatoli Solonitsyn, um “habitué” do cineasta) e do Cientista (Nikolai Grinko), que anseiam conhecer o que a “Zona” e o “Quarto” lhes revelarão. O filme é o processo da busca da “verdade escondida” nas almas do trio viajante, num cenário pós-apocalíptico saturado dos restos mortais da nossa civilização e pontuado por referências bíblicas e ecológicas. Parece fastidioso, mas todos os minutos são fascinantes.

Acontece perto da entrada de “O Quarto”. O Cientista vai revelando a vacuidade dos seus anseios, o rosto unidimensional de um desejo motivado pelo “conhecimento”, onde não sobra lugar à espiritualidade. O Escritor insinua o pavor da autodescoberta, e vai recuando. O “stalker”, santo louco, tão caro à tradição literária russa, sugere pistas, esconde outras, e ficamos suspensos na revelação. Mas Tarkovsky abre-nos a mente para a urgência das perguntas, recusando a pele de demiurgo. O tempo suspende-se (será que a “Zona” é um produto da imaginação do “stalker”?), a estrada e os túneis interrompem-se, e detemo-nos na água. A câmara flutua sobre um lago subterrâneo onde jazem os pedaços de glórias antigas, sepultadas pelo orgulho humano – há quem diga que “Stalker”, prelúdio de Chernobyl, reflecte um acidente nuclear ocorrido em 1957 em Chelyabinsk e abafado pelas autoridades soviéticas. Na água repousam cruzes, retratos a preto e branco de famílias mudas, pedras semipreciosas, pedaços metálicos de tecnologias defuntas, cabeças de bonecas vitorianas, moedas de tesouros bizantinos, detritos mecânicos, lixo, lama, sorrisos breves, torpor fundo. São vários minutos de contemplação, sem som, de uma beleza que não sabemos de onde surge: como todo o génio que não se descreve, virá do Céu?

“Lend me an angel.”

O poeta Arseni Arsenevich Tarkovsky, pai de Andrei, escreveu um dia: “A vida uniu-me/ Seguro sob a sua asa/ A minha sorte manteve-se sempre/ Mas tem que haver mais”. No fim de “Stalker”, há apenas chuva. Mas uma rapariga levita, feita esperança. Andrei Tarkovsky morreu há 25 anos, e o seu lugar permanece vazio.

 

 

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a The Basement Cinematheque: Bruscamente no Inverno Futuro

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    impressiona em ‘stalker’ como a direção de arte vale por toda um trupe de atores de primeira linha. e, ainda assim, quando se olha em volta, há o vento nos arbustos, celeiros arrebentados, goteiras, pisos encharcados, nada muito pirotécnico. e a gente se pergunta: de onde vem a misteriosa urgência do filme?
    p.s. – este seu texto está de antologia, pedro. chapeau!

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Honra seja feita ao Tar­kovsky. Belíssimo texto.
    Aqui ficam uns poemas do Arseni (um livrinho que anda sempre comigo)

    O verão partiu
    E nunca devia ter vindo.
    Será quente o sol
    Mas não pode ser só isto.

    Tudo veio para partir,
    Nas minhas mãos tudo caiu,
    Corola de cinco pétalas,
    Mas não pode ser só isto

    Nenhum mal se perdeu,
    Nenhum bem foi em vão,
    À luz clara tudo arde
    Mas não pode ser só isto

    Agarra-me a vida
    Sob a sua asa intacto,
    Sempre a sorte do meu lado,
    Mas não pode ser só isto.

    Nem uma folha se consumiu
    Nem uma vara quebrada…
    Vidro límpido é o dia,
    Mas não pode ser só isto.

    “8 Ícones” (Assírio e Alvim)

  3. Rita V diz:

    Pedro dizem que os blogs são assim uma espécie de ‘ganzas de ego’ expressão usada por uma querida amiga, mini feira de vaidades onde os ‘parceiros’ se auto elogiam. Mas eu estou-me nas tintas para o que dizem. Assim e depois de bem esclarecido deixa-me dizer-te simplesmente:
    como é belo o teu texto

  4. Gostei muito do texto, Pedro. Foi pela água que Tarkovsky me prendeu.

  5. Belíssimo. Sou suspeito por considerar Tarkovsky um dos grandes nomes do cinema de todos os tempos…Só Solaris é que me desilude um pouco, ( e penso que tambem ao próprio Trakovsky), tudo o resto é uma colecção de obras primas…

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Três «er»: quando crescer, quero ser capaz deste escrever.
    Obrigada, Pedro.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Texto encantado sobre um cineasta que tanto me desencanta.

  8. Companheiros, a cumplicidade bloguista leva-vos ao exagero. Obrigado pelas palavras. Maria do Céu, pelo que já li de si, o sentimento é mútuo.

  9. Maracujá diz:

    Já o disse aqui, que sou uma ignorante nestas matérias, mas você, caro Pedro, consegue levar ao extremo esse adjectivo que me define, com o encanto exuberante da sua escrita. Obrigado por a partilhar.

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