Três Tristes Montanhas

Para dizer a verdade, nem sei bem como vim parar aqui. Logo eu, que tenho vertigens mal subo ao terceiro degrau de um escadote, ainda no mundo dos centímetros, quando quero dar a mão a Kant ou a Aristóteles no topo da minha bibilioteca. Pediu-me o Manuel, um destes dias, que escrevesse sobre o novo banner do blog, assinado pela Cristina Ataíde. Pouco depois, recebi na volta do correio e do sim, a imagem de umas montanhas tristes. Contei-as. Três tristes montanhas.  É sobre elas que vou contar o que imagino.

As montanhas metem-me medo. Umas, parecem seres pré-históricos que rugem com dentes iregularmente afiados. Outras, lembram uma paisagem guardada por silenciosos monstros de pedra, corpos que permaneceram disformes só para não nos esquecermos que já cá estavam muito antes de nós. Todas elas são uma escultura à beira do mundo, uma ampliação (sem percentagem quantificável) dos trabalhos da terra. Tornaram-se duras para durarem. Uma frase de Jean-Luc Godard, vinda de um atalho da memória – C’ést trop dure ce qui dure – aparece-me no caminho.

As montanhas pedem para ser subidas. Prometem o sagrado e ameaçam vertigens. Descobrem-se e conquistam-se do sopé para o cume. Precisamente o movimento inverso dos textos. Esses, pedem para ser descidos e escrevem-se (e lêem-se) de cima para baixo. Foi com estas montanhas, tema recorrente na sua obra, que Cristina Ataíde decorou o topo do nosso colectivo blog. Tingidas de vermelho e preto, parecem injectadas de sangue e de tristeza. Ou de amor e de morte. Eros e Thanatos em pó, soprados sobre a paisagem. Da montanha ao centro rola uma palavra. A palavra É. Aliás, é. Como se o verbo ser não pudesse permanecer sossegado e tivesse de estar sempre a trabalhar, a ser. As palavras escrever triste pairam acima das montanhas. A esta última foram mesmo roubadas as hastes dos tês. Talvez as nuvens estivessem com fome.

Convidam-nos as montanhas de Cristina Ataíde a escalar o silêncio. Pede-nos a nossa curiosidade que espreitemos a sua obra, que tem algo de científico e de mitológico, mas também de botânico e de zoológico. Nos diversos meios utilizados – do desenho à instalação, passando pela escultura e pela fotografia – as suas peças são aproximações ao mundo e à natureza. A natureza, o modelo preferido de Cristina Ataíde, faz perguntas. A arte, essa procura mostrar as respostas que a vida não dá. As suas peças são representações de paisagens onde podemos inventar um lugar. Topografias imaginárias. Mas também a escultura de corpos onde podemos ver morfismos inexistentes. E desenhos onde pressentimos geometrias invisíveis. Os seus materiais são a folha de papel branca, o bloco de mármore, o ferro, a madeira e o vermelho (sim, aqui o vermelho é um material).

É com eles que trabalha para esculpir o tempo, desenhar a duração e fotografar a memória. E assim, transformar superfícies interiores ou inacessíveis em algo palpável. Como se as paisagens existissem, também, dentro de um corpo e não se contentassem em viver fechadas, nesta conversa constante entre o vermelho e o negro. O vermelho do sangue, pois claro, mas também da tinta com que se corrigem as palavras e das cerejas. E o preto da solidão, da melancolia e da morte. Por vezes, o interior vasa das artérias para o exterior, como sangue por estancar.

Outras, o mais inesperado dos elementos – a pedra – parece ter um coração palpitante que ordena ao sangue que corra como um rio vermelho.

Há cadeiras que são troncos onde nascem árvores de bronze.

Metáforas de ferro. Fissuras na pedra. Obliterações no mármore.

 Objectos que revelam o seu interior como se fossem transparentes.

A obra de Cristina Ataíde fala-nos de uma ferida que, estando à vista ou sendo secreta, é o abrigo possível para a solidão. E cada objecto, como cada texto, é singular na sua solidão intocável.

Já estou a imaginar os Tristes, um a um, a escalarem as suas íngremes montanhas. Em vez de cordas, levam nos bolsos longas palavras. Advérbios de modo. Superlativos absolutos. Verbos conjugados no gerúndio. No lugar de freios, trazem sinais ortográficos: pontos de interrogação e parêntesis (muitos parêntesis). Como capacetes, usam acentos circunflexos. E em vez de garrafas de oxigénio, carregam um inesgotável silêncio. Querem chegar à morada dos deuses. Vão sofrer, como Sísifo no mito. Sabem que as palavras empurradas até ao alto da montanha cairão de novo. Rolarão, encosta abaixo, em direcção ao fundo da página e ao esquecimento. Para depois, de novo, serem erguidas montanha acima, num trabalho quase absurdo que no entanto chega para lhes encher a alma. Como escreveu Camus, é preciso imaginar Sísifo feliz. Com as montanhas de Cristina Ataíde, é fácil imaginar os Tristes felizes.

http://www.cristinataide.com

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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24 respostas a Três Tristes Montanhas

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria João, mas que feliz ampliação esta, a que fez aos Trabalhos da Terra da Cristina Ataíde. Passa-se, smoothly, de cumes e vales ao palpável sangue que ensopa o pó do calcário. Ouve-se e vê-se. Tão bom.
    Gostei muito do seu texto que tão bem agradece pelos Tristes, felizes uma vez, à Cristina Ataíde. Obrigado Cristina, já agora, por nos ter comido sem cerimónias os tês.

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel,
      Obrigada eu, por me ter convidado a escrevê-lo. Caso contrário, não saberia que o carregava comigo.

  2. Ivone Costa diz:

    Que belo texto, Maria João e que belas montanhas-desenho-palavras para se ser Triste. Obrigada, também à Cristina Ataíde.

  3. Panurgo diz:

    Desde pequenito que gosto de subir às montanhas, hábito do meu pai. Nessas caminhadas, agora mais solitárias, nunca me ocorreu nada do que a Maria João escreveu. Não percebo muito disto, mas até que nem desgosto.

    • Maria João Freitas diz:

      Panurgo,
      Isto é o que dá escrever com a imaginação. Mas haverá outra forma de falarmos do que não conhecemos?

  4. jorge diz:

    Podia viver-se dentro desta casa, deste texto, nestas montanhas… e ser feliz! sorry…

  5. «Now, that the work is done, is time to dig another one». (quem disse isto?)
    Sísifo é um chato mas põe-nos a trabalhar (falo por mim…)
    Gostei imenso, Maria João, desta sua imagem de imagens que são coisas que são ideias, as da Cristina Ataíde.
    Obrigado às duas.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Entre montanhas nasci, entre montanhas também me fiz. Grata por tanta beleza escrita e vista.

    • Maria João Freitas diz:

      Maria do Céu,
      Muito obrigada. E essas entre montanhas de que fala, se fossem pintadas pela Cristina Ataíde, seriam vermelhas ou negras?

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    muito bom, maria joão e cristina ataíde.
    é isto. se nós, tristes maomés, não vamos à montanha…

  8. Cristina obrigada por ter aceite fazer parte deste ‘bando’ de tristes que escalam montanhas com a alegria às costas e obrigada Maria João por nos apresentar a Cristina de uma forma tão, tão feliz.

  9. Pedro Bidarra diz:

    Bela obra, belo texto

  10. Cada um à sua maneira, texto e obra, elevam uma vez mais a intrínseca qualidade e beleza deste triste blog….obrigados a ambas!

  11. Maria João Freitas diz:

    Bernardo,
    Obrigadas a si.

  12. Belíssima análise, com robustez e sentimento.

  13. Foi um prazer, Manuel. A nuvem em que viajava estava realmente com fome…

  14. cristina ataide diz:

    Obrigado à Rita, Maria João e a todos os Tristes. O artigo ficou lindo e eu não estou mesmo nada TRISTE por ter participado.
    Beijos encarnados para todos.

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