Um Talbot Yancy de trazer por casa

Se o governante que implementou o mais violento corte nos salários dos portugueses de que há memória viva não compreende as razões de prudência de um povo que de há mais de dois anos a esta parte não tem ouvido falar de outra coisa que não da crise (que até é mundial) – da necessidade de cortes em tudo o que é despesa pública na saúde, educação, segurança e assistência social, da monstruosidade da nossa dívida soberana e das sucessivas derrapagens descontroladas do défice do Estado –, será então caso para dizer que, simplesmente, tal governante não compreende nada de coisíssima nenhuma.
O indivíduo Passos Coelho, ser político de perfil difuso e também empresário de contraste esmaecido, depois de esbulhar a classe média nacional aprovou uma medida que transfere directamente parte do ordenado dos trabalhadores para as respectivas empresas – desobrigando ainda estas de parte das suas contribuições sociais –, mas não percebe a razão para a quebra abrupta na venda de automóveis ligeiros e outros bens de consumo.
Neste momento, tal incapacidade representa a maior catástrofe nacional.
Porque há ano e meio muita gente deu um grande benefício da dúvida a este homem que, em campanha, jurou fazer o seu melhor para tirar Portugal do buraco em que os seus antecessores o meteram. Porque, vê-se agora, o melhor de Passos Coelho limita-se a uma visão dogmática e quase esquizofrénica das mais elementares leis da causalidade.
Porque, finalmente, percebe-se que o PM é apenas um curioso da política.
Com isto tudo e o resto, o Governo de Passos Coelho poderá ainda não estar morto, mas estará certamente moribundo.
Por momentos – talvez devido ao cansaço existencial que toda esta situação acaba por me provocar – refugio-me num tipo de literatura (há mesmo quem ache tal género exterior a esta classificação) que por norma permite retirar boas imagens simbólicas. Refiro-me ao género Ficção Científica (FC), e citarei um livro do autor de Blade Runner, obra posteriormente transformada em filme pelo realizador Ridley Scott, e que certamente muita gente já viu.
O livro em questão possui o sugestivo título de A Penúltima Verdade.
Como acontece em boa parte da obra de Philip K. Dick, este curioso livro envolve um cenário alegadamente catastrófico: prossegue uma violenta guerra nuclear na Terra, mais concretamente à superfície do planeta.
Porque o grosso da população civil vive em abrigos nucleares a duzentos metros de profundidade, de pequena dimensão, onde grupos de 30 a 40 homens e mulheres sobrevivem e trabalham para o esforço de guerra – de que todos têm notícia diária pelo cabo axial que os liga à superfície, onde, supostamente, exércitos semi-automáticos se digladiam.
Todos os dias, a uma determinada hora, os habitantes dos abrigos reúnem-se para ouvir o presidente, Talbot Yancy de seu nome, relatar os recuos e avanços das tropas em conflito.
No entanto, certo dia, e por razões que não interessam ao que pretendo dizer, um destes cidadãos é mandado à superfície a fim de obter determinada informação – pois o cabo axial apenas lhes fornece os briefings presidenciais e não permite diálogos.
No fim de várias peripécias, o enviado das fábricas-abrigos descobre à superfície coisas deveras curiosas: já não há guerra nenhuma e o mundo floresce em matas recuperadas e bacias hidrográficas quase limpas de radiação. O mundo da superfície é agora dominado por uns quantos senhores, donos de vastíssimos territórios, e Talbot Yancy não passa da metade superior de um andróide estrategicamente colocado atrás de uma mesa, de bandeira americana ao lado, que diariamente debita para ‘baixo’ os discursos produzidos por um novo grupo profissional – os ‘yancemen’ – cujo trabalho essencial é inventar mentiras plausíveis e pormenorizadas sobre o evoluir da falsa guerra.
Na verdade houvera uma guerra nuclear, e na sequência disso tinham sido criados os abrigos subterrâneos, verdadeiras fábricas profundas capazes de albergar e proteger a população civil e respectivas fábricas. Só que a guerra acabara em pouco tempo, e os blocos que dantes se opunham acordaram na manutenção das respectivas fábricas subterrâneas e da mentira continuada que as justificava.
Sim, eu sei que a imagem é abusiva – mas o simbolismo não.
Porque, como dizia Jacques Prévert, «o sol não brilha para aqueles que trabalham na cave, fabricando as canetas com as quais outros irão escrever que tudo vai pelo melhor*».
Resta concluir, também simbolicamente, que os ‘yancemen’ responsáveis pelos discursos do nosso Talbot Yancy local são loucos ou apenas muito fracos.
Há ainda a possibilidade de serem ambas as coisas.

*(esta tradução é da minha autoria, podendo não corresponder ao ideal da poesia traduzida – se é que existe semelhante ideal; mas o sentido final está correcto)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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22 respostas a Um Talbot Yancy de trazer por casa

  1. O sujeito em causa nem categoria tem para ser um Talbot Yancy.
    E a citação de Jacques Prévert assenta nos resultados quiça ao acaso, quiça intencionais deste governo. Cambada de incompetentes.

  2. curioso (aterrado) diz:

    quem escreve assim não é de Genebra 😉

  3. Rita V diz:

    Belo texto, só é pena ter essa mancha gigante de encarnado que dificulta a leitura.
    🙁

  4. Pedro Bidarra diz:

    É isso mesmo meus caros, António e Philip. E ainda assim, por muito que dê vontade de escrever e vociferar sente-se a impotência.Como dizia outro dia o Miguel Beleza numa declaração nos jornais, “Nem vale a pena reclamar que não há nada que se possa fazer”. Quanto mais eu e tu e todos escrevemos mais eles se sentem “empowered”. Aquela malta sem estudos e de cabeça lavada na universidade da Jotas, onde se imaginaram ministros desde pequenos, alimentam-se de contestação convencidos que estão numa missão e a reclamação é o sinal positivo de que estão a fazer bem, como um médico a aplicar um remédio que arde e quanto mais grita o paciente mais certo ele está que cura. É destas metáforas e comparações simples que se faz o raciocínio daqueles desqualificados. É com base nelas que justificam as decisões que outros tomam por eles.
    No fim fico a ideia de que eles se alimentam do protesto e que a escrita protestante e indignada lhes dá poder, energia e importância.
    Mas se não escrevermos fazemos o quê?
    Crime? Bombas?

    • Rita V diz:

      Escolhermos melhor talvez, mas como? Formatados do berço para o partido, do partido para o poleiro. Já viu Pedro, é o melhor ‘emprego’ que se pode arranjar porque é dos poucos lugares que eu conheço que se entra com pouca ‘massa’ e sai-se com muita.

      • Bloqueando o regime, talvez…

        • fernando canhão diz:

          Uma sugestão:

          Durante o primeiro semestre do ano reuniram alguns dos nomes mais vitais do panorama musical nacional no bar O Meu Mercedes É Maior Que O Teu na cidade do Porto. Outubro marca agora o retorno desta mensalidade após uma pausa de verão. Os próximos convidados são os Tropa Macaca, que atuam no dia 5, numa altura em que acabam de ver editado Ectoplasma. Mais um inacreditável documento sonoro assinado pela banda com o selo da Software – editora de Daniel Lopatin aka Oneohtrix Point Never. Os Loosers apresentam-se no mesmo local no dia 2 de novembro; e, por fim, no dia 7 de dezembro, o ciclo encerra com uma formação especial composta por gente ilustre como Pedro Gomes (Sei Miguel Unit Core), André Abel (Aquaparque e Tropa Macaca) e Gabriel Ferrandini (RED Trio). Como sempre, a entrada vale cinco euros e pode ser adquirida na loja Matéria Prima do Porto e Jo Jo’s.

          ps. Pedro Gomes é uma peça a não perder, vai para uns anos que não o vejo actuar (Caveira, com Albergaria e Rita Vozone). Tem trazido a Portugal coisas excelentes, 1º através da ZdB e depois com o seu (e de Nelson Gomes) Filho Único.

    • Bombas, Pedro?
      Prefiro o bom veneno dos Borgias 🙂
      Temos de escrever e gritar até que eles percebam -. é realmente gente muito impreparada. Acho que só há lá dois tipos que sabem o que estão a fazer – e não são nem o contabilista snob nem a metade de andróide..
      .

  5. Voto em branco há tanto tempo que já não me lembro. O que me lembro é que estamos em crise desde que saímos da outra…prefiro a FC tem mais imaginação criativa…a pergunta difícil, como o Pedro diz, é o que fazer?

    • Bernardo, o Paulo Morais já deu algumas pistas – embora eu ache que antes disso era conveniente alguma punição exemplar (o que complica muito as coisas, já não me estou a ver outra vez aos tiros…)

  6. fernando canhão diz:

    Caro António, não se iluda, esta gente sabe e com rigor o que faz. Lembro-lhe que a TSU funcionou como capote de toureiro. Tudo o resto passou a ser quase legítimo. Acerca da putativa crise, que inclusive tal como a ida à lua, e armas de destruição maciça, pode ser falsa, bem mas no caso de existir foi feita pelos dois partidos mais meio. E claro, o PC a fazer-se de lucas, que nestas coisas geralmente deixa correr, para depois apoiar os desesperados. Resumindo, se tiver saúde emigre e venha cá de férias. Portugal visto com olhos de fora é um país engraçado, sempre a arder é um facto, com populares de mãos na cabeça a salvar as casitas e mais uns animais, no meio das entrevistas dos da protecção civil. Já na Ericeira, para acompanhar um panado, bebi um Santos Jorge e soube-me à pipas. Fui pela auto-estrada deserta, e de Lx à Ericeira foram 20 minutos. Na bomba de gasolina ainda mais deserta fui recebido como o Rei de Itália, até me deram brindes.
    Se entretanto vir um desempregado a matar um político, com um X-acto, mantenha-se à distância e no fim chame-lhe a atenção para o acto desumano que ele acabou de cometer, só para ele largar a correr. Ao fingir que se baixa para ver se o politico ainda respira roube-lhe o relógio e aneis. Se entretanto chegar alguém, escolha uma etnia sem aceitação na zona, e diga alto e bom som que eram dessa mesma etnia, e que no mínimo eram dois, e que fugiram num Audi de cor escura, certamente roubado.

  7. Panurgo diz:

    Até hoje ninguém desmentiu Aristóteles: a Democracia é somente a fatiota de Carnaval da Oligarquia. No nosso caso a única solução é a matança pura e simples de 3 a 4 mil responsáveis pela nossa desgraça – coisa, aliás, que também se aprende com os gregos (os antigos, não esta turcalhada que para lá anda), ou na jardinagem. A anedota a que isto chegou é tal, que eu ontem vi no programa do Medina Carreira um gajo a dizer nomes atrás de nomes, e com toda a razão. O problema é que a esse mesmo programa foi convidado um dos maiores responsáveis pela bandalheira moral e económica, um tal presidente de um tal Banco de Investimento português, cuja actuação, em conluio com dois escritórios de advogados (outra raça a pedir extinção), levou isto à ruína. Obviamente, a limpeza teria de se estender aos familiares destas criaturas, para que a «mancha» não subsista e volte a infectar o solo.

    Da comunada e restantes palhaços trata-se como sempre: com cuspo.

    • Pedro Bidarra diz:

      Há aqui qualquer coisa sim senhor… (parte II)

    • Pratico imensa jardinagem (a sério) e estou completamente de acordo consigo e com o Aristóteles. O gajo que viu é o meu amigo Paulo Morais – que é o único homem público que conheço com eles no sítio correcto. Quanto ao tal banqueiro…, como já deve ter reparado os jornais (e TV’s & Cª) são o ‘suporte tecnológico’ da coisa, prestam-se a isso com denodo…

      • Panurgo diz:

        Um abraço ao seu amigo. Mas é como o Bidarra e um outro homem, Pedro Lains, dizem: quanto mais a gente guinchar, mais o ricciardi se ri. Estas alminhas do Passos e do Gaspar não passam de ventríloquos de feira.

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