Vanitas

Quem esteve próximo da velhice e da morte, quem já sentiu o cheiro, a angústia sem remissão, sabe que é aí, nesse momento em que os olhos se despojam de todo o brilho, nesse segundo que antecede a vanitas, que o amor — e nada é mais verdadeiro do que essa philia, sem eros, já só agápe — atinge o estético acumen. Outros gostos são, sim, uma boa merda.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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18 respostas a Vanitas

  1. Rita V diz:

    desse momento exacto só me lembro de uma coisa:
    – do suspiro

  2. Inma diz:

    Odeio escrever e falar destas coisas.
    Lembro-me das danças da morte do século XV.

  3. curioso (morna mente) diz:

    sobre outros gostos e boa merda fico-me por este

  4. Talvez que perante a morte tudo se desvaneça….

  5. curioso (non vanitas) diz:

    não faz sentido que haja um segundo a anteceder a vanitas: antes nesse suposto segundo pode ter-se a imagem/filme da plenitude do que de bom vivenciámos e possívelmente uma infinita saudade de não mais voltarmos a essa vida que fez parte de nós 🙁

  6. sid. gonçalves diz:

    Por vezes pergunto-me se haverá maior penúria do que a de viver na escuridão
    naquele lugar onde surgem apenas pequenos pirilampos de luz
    frutos daquela força que fazemos num forte fechar de olhos
    Tão ténue e tão frágil luz que aparece e desaparece numa fracção de segundo
    que me dá por um breve momento, a ilusão de que uma verdadeira luz vai-se acender
    que me cria aquela esperança de que é agora, agora é que é, a minha hora
    a hora de me libertar…mas não, não foi, afinal foi só mais uma ilusão, continuo infeliz, sozinho nesta escuridão…
    Peço a esperança, peço a essa simples palavra que a mim não me diz nada
    mas peço, ainda tenho a fé e pergunto-me: fé? o que és?
    Em Deus, em mim, nos Homens!?
    Não descubro ou não aceito a resposta, que me parece suspeita
    como que se fosse escolhida por minha inconsciente preguiça
    Não quero, não aceito, sou eu, só tenho uma vida e quero-a verdadeira, única!
    mesmo que dum engano fadado, quero-a verdadeira.
    Tenho,medo, medo que o tempo me fuja, mas nem por isso desisto
    sim…sou um vagabundo, resta-me o consolo de me fazer nobre…um nobre vagabundo.

  7. curioso (adeus) diz:

    isso é ainda in vanitas… na hora/segundo do adeus (a Deus?) a poesia será outra, de entrega, de sublimação, sem condições, duma vez 🙁

  8. blimunda diz:

    COISAS AMÁVEIS

    não é tanto uma dor que se instala
    entre os dedos
    da manhã fria
    os gatos
    esperando a alba, o pinheiro na dormente mansidão e eu
    que entre as rugas da memória
    vou nomeando criaturas
    vivas
    que me assistem nas razões
    – há algo que procura
    a água do meu corpo, faz
    de conta nos côncavos quentes
    e espreita nos meus olhos

    blimunda

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    tempo

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