Viagens pela minha estante III

Torre de Babel. Pieter Bruegel.

Nunca fui dado a conservadorismos. Talvez porque conheça bem demais uma certa direita conservadora portuguesa que sempre representou, na minha cabecinha pré-política, uma mistura insuportável de marialvismo pedante e de estupidez preconceituosa.  Mas a verdade, verdadinha, é que encontro uma elegância intelectual de fazer corar muito filósofo pós-moderno no recente “As vantagens do pessimismo” de Roger Scruton. Um senhor murro no cérebro que entrou agora mesmo no tal paraíso a que chamo a minha biblioteca.

A ideia básica é tão velha como a própria atitude conservadora, vem na senda do pensamento de Edmund Burke ou de Michael Oakeshot, e postula que as grandes desgraças políticas são filhas (indesejadas?) dos optimismos desenfreados, dos idealismos simplistas e das utopias de todos os quadrantes políticos. Uma ideia laboriosamente tricotada ao longo de pouco mais de 200 páginas cativantemente acessíveis (até para este vosso amigo)  em que Scruton discorre sobre sete falácias propostas por aqueles a quem chama optimistas “inescrupulosos” ou “perversos“:

1 – A falácia da melhor das hipóteses. “O optimismo inescrupuloso (…) dá saltos de pensamento que não são saltos de fé mas recusas de reconhecimento que a razão lhes retirou o apoio. Não faz contas ao custo do fracasso nem imagina a pior das hipóteses.

(…) Temos um exemplo (…) significativo na actual crise do crédito. Muitos factores concorreram para produzir esta crise. Mas não precisamos de olhar para longe para descobrir no seu cerne a falácia da melhor das hipóteses. (…) Uma pequena dose de pessimismo recordar-nos-ia que, quando as pessoas financiam o consumo corrente pedindo empréstimos sobre o futuro estão a lidar com um activo irreal – a promessa de produção futura – e que podem surgir mil ocorrências que impeçam este activo de se realizar. Uma economia de crédito depende, por isso, de uma confiança partilhada na natureza humana e na força das promessas, em circunstâncias em que a obrigação de cumprir promessas é cada vez menos reconhecida, precisamente porque as pessoas estão a adquirir o hábito de adiar as suas dívidas. Nestas circunstâncias, impõe-se uma ilusão peculiar. As pessoas deixam de ver o mundo financeiro como sendo composto por seres humanos, com todas as suas fraquezas morais e os seus esquemas egoístas, vendo-o em vez disso como sendo composto de gráficos e índices (…).”

2 – A falácia do nascido livre. “A liberdade disponível num estado natural é uma ilusão – uma mera falta de restrição, mas sem a segurança e o reconhecimento que dota a liberdade com os seus atributos distintamente humanos. É a liberdade do eu indomado, que pode perambular à sua vontade, mas que não tem ideia do valor de estar aqui em vez de estar ali, de ganhar uma coisa em vez de outra, uma vez que não tem o sentimento do nós que sancionaria os seus objectivos. Ele, o suposto senhor, é um eu sem auto-conhecimento, um eu no seu imediatismo, que deseja coisas mas não tem sentido do seu valor.

(…) A liberdade genuína só aparece quando o eu se transcende e o conflito se resolve num estado de reconhecimento mútuo. Cada lado renuncia então à luta de vida ou morte que os tinha escravizado e respeita a realidade da vontade do outro. Daí em diante os benefícios não são ordenados mas pedidos e a condição de os receber é a disponibilidade para se ceder a vez. Nestas novas circunstâncias, cada parte respeita a vontade e a autonomia da outra, renunciando aos caminhos da coacção e reconhecendo a justa reivindicação de respeito da outra.”

3 – A falácia utópica. “As utopias contam a história da queda do Homem, mas ao contrário: a inocência e a unidade anteriores à queda do Homem residem no fim das coisas e não necessariamente no princípio (…). Kolnai descreve a tendência utópica como um desejo de uma união sem tensão do valor e do ser.

(…) A crítica mais importante a fazer a este modo de pensar não é que é contraditório, embora o seja, mas que ao prosseguir uma solução única e completa para o conflito humano, uma solução que elimine o problema para sempre, destrói as instituições que nos permitem resolver os problemas um por um. (…) A solução para os conflitos humanos descobre-se caso a caso e incorpora-se depois em precedentes, costumes e leis. A solução não existe enquanto plano, esquema ou utopia. É o resíduo de uma miríade de acordos e negociações, preservada no costume e na lei. (…). São um depósito criado pela atitude do nós, enquanto se desenrola através das normas de relacionamento mútuo. E é precisamente esse depósito que o utópico se prepara para destruir.

(…) Mas a falácia utópica também revela uma coisa importante acerca do optimismo nas suas formas extremas e intransigentes. Para a pessoa que confia a solução de todos os problemas a uma solução final, a realidade é destituída de esperança e de soluções. Tem de ser forçada a ajustar-se a outro molde e para esse fim serão necessárias novas formas de governo e novos poderes de longo alcance. Assim, por trás da utopia avança em simultâneo outro objectivo que é o desejo de vingança contra a realidade. Se os utópicos chegassem ao poder, a própria instabilidade do seu objectivo, que continua sempre fora do alcance, exigiria que encontrassem, no mundo real, a cabala ou a conspiração que está a impedir a sua realização. E isso, na minha maneira de pensar, é a característica mais notável dos Estados totalitários: a necessidade constante e implacável de uma classe de vítimas, a classe dos que se colocam no caminho da utopia e impedem a sua aplicação.

Alguém disse judeu ou burguês? Mas isso, nada de confusões, já sou eu que pergunto.

(continua)

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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13 respostas a Viagens pela minha estante III

  1. curioso (qb) diz:

    simpático, não! antipático, muito menos!! apático, nem pensar!!!

    então, empático. qb. belo murro, que não pondo as coisas ko, ajudam a passar os maus tempos que teremos pela frente (e dos lados todos, menos um, o de dentro).

  2. fernando canhão diz:

    AA) “My most basic credo is: I never said freedom was cheap. And it isn’t. Never will be. It’s been the highest priced and most precious commodity in my life.”
    Sonny Barger

    BB) EMMANUEL MOUNIER e o seu Optimismo Trágico.

    CC) They’re not bad guys, individually. I tell you one thing– I’d rather have a bunch of Hell’s Angels on my hands than these civil rights demonstrators. When it comes to making trouble for us, the demonstrators are much worse.
    Jailer, San Francisco City Prison

  3. Pedro Norton diz:

    Gostei particularmente do AA). Não conheço o BB (fiquei-me pela BB) e tenho dúvidas sobre o CC). Mas obrigado pelas dicas.

  4. Panurgo diz:

    Tipicamente inglês. Denunciar falácias com mentiras. Ou simples burrice, o que não seria de espantar no Rogério Escroto.

  5. Panurgo diz:

    É de meter os cabelos em pé. Até li outra vez. 1 – começando pelo fim, não são as pessoas que olham para a indústria (?) financeira como um número, mas o invés; assim como no mercado do crédito – como em qualquer outro – é a oferta que condiciona a procura. Mas é escusado: a criatura não sabe o que é «crédito». 2 – completamente absurdo – fica para outra vez, mas onde e quando é que se deu esse tal estado natural, para sequer poder ser criticado? Nunca e em lado nenhum. E é precisamente na luta de vida ou de morte que reside a liberdade! 3 – Falácia Utópica? Mas qual? A de Platão? Santo Agostinho? Bacon? Valentinus? Campanella? Brant? É que naquelas que eu conheço, nada do que está aí escrito pode ser lido. Que se lixe, vou aproveitar a única coisa boa que a inglaterra tem: o gin tónico.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, ando a prometer ler, mas ainda não li. Conheço o Scruton de outras andanças (parecidas) e do notável “England an elegy” que alguma editora de jeito deveria traduzir e publicar. Estou, eu optimista, muito de acordo (se é que isso interessa para alguma coisa) com os 3 pontos desse suposto pessimista:
    1. sim, as pessoas, porque são pessoas, que estão envolvidas no mundo financeiro, deixaram de o ver como um mundo de pessoas. A montante, a jusante e no meio, o mundo financeiro são pessoas.
    2. é na superação do eu indomado que se cria liberdade, como foi o cristianismo que, estancando o ciclo de vingança e de vítima sacrificial, deu fundamento ao respeito pelo outro.
    3. A utopia é o triunfo da pura negatividade (do mais profundo pessimismo): alguém que se coloca numa total exterioridade tem sempre toda a razão (o que quer dizer que não tem razão nenhuma) contra o mundo que pretende resolver, melhorar, rever, regular, reconstruir. A utopia é um tsunami, hubris.
    Este documentário não sei, mas a SIC passou, numas secretamente célebres Noites Longas, a série Beauty and Consolation com uma excepcional entrevista de Mr. Scruton.

  7. Contra as falácias só um copo no bar habitual:

  8. Pedro Norton diz:

    santé!

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