Viagens pela minha estante IV

Ilustração para a edição de 1516 de Utopia de Thomas More

(este post, que já ia insuportavelmente longo, começou aqui)

4 – A falácia da soma zero. “Quando optimistas empenhados se confrontam com o fracasso – seja o fracasso dos esquemas para si mesmos, seja o fracasso dos seus esquemas para melhorar a condição humana – começa um processo de compensação destinado a salvar o projecto encontrando a pessoa, a classe ou a clique que o frustrou. E essa pessoa, classe ou clique é marcada para condenação pelos sinais do êxito. Se falhei foi porque outro foi bem sucedido – esta é a ideia mestra estratégica com base na qual posso construir o resgate das minhas esperanças. (…) A ideia pode exprimir-se doutra maneira: toda a perda é um ganho de outra pessoa. Todos os ganhos são pagos pelos seus perdedores. A sociedade é por isso um jogo de base zero em que os custos e benefícios se equilibram e em que a vitória dos vencedores provoca a perda dos vencidos. Esta falácia da soma zero está na raiz do pensamento socialista desde os textos de Saint-Simon.”

 5 – A falácia do planeamento. “Está implícita em Hayek a ideia de que a livre troca e os costumes duradouros se justificam exactamente nos mesmos termos. Ambos são destilações indispensáveis de saber socialmente necessário, um a funcionar sincronicamente e o outro diacronicamente, a fim de fazer com que a experiência de um número indefinido de outros incida na decisão tomada por mim, aqui e agora. Hayek dá ênfase ao mercado livre como parte de uma ordem espontânea mais ampla baseada na livre troca de bens, ideias e interesses – o jogo de catallaxy, como ele lhe chama. Mas esse jogo é praticado ao longo dos tempos e – para adaptar uma ideia de Burke – os mortos e os que hão-de nascer também são jogadores que tornam a sua presença conhecida através de tradições, instituições e leis.” Não consigo continuar sem um pequeno interlúdio: que noção elegante e sábia esta de que os mortos e os que hão-de ser são actores políticos e sociais de pleno direito! Não há PPP nem SCUT que lhe resista.

Mas continuemos porque estamos aqui para ouvir Scruton. “Os que acreditam que a ordem social exige restrições ao mercado têm razão. Todavia, numa ordem verdadeiramente espontânea as restrições já existem sob a forma de costumes, leis e princípios morais. Se essas coisas se desintegrarem, não há maneira, segundo Hayek, de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a boa sociedade destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. (…) Hume, Smith, Burke e Oakeshott (…) tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja actualmente a ceder. Mas essa cedência é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele. Foi precisamente o êxito da falácia do planeamento na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso que coloca um nós genuíno no centro da política.”

 6 – A falácia do espírito em movimento. “Nas mãos de pensadores menos subtis, esta ideia de espírito do tempo vulgarizou-se como arma retórica com que justificar a inovação em todas as esferas e racionalizar o repúdio global do passado. É o conceito radical da filosofia do progresso e tem tido um impacto na vida política e intelectual do mundo moderno completamente desproporcionado em relação à sua plausibilidade.

(…) A falácia é agravada pelo mito do progresso. Na esfera do avanço científico é inegável que há progresso: quer isto dizer que cada geração aumenta o saber adquirido pela sua antecessora e um a um os segredos do universo são desvendados e explorados. (…) Por outro lado, é claramente falacioso pensar que este tipo de progresso é exibido em esferas onde não acumulação subjacente de saber sobre a qual construir. É inerentemente questionável acreditar, por exemplo, que há progresso moral contínuo que avança à velocidade da ciência; ainda mais questionável é acreditar que há progresso artístico ou espiritual que marcha a seu lado.”

7 – A falácia da agregação. “Quando os revolucionários franceses criaram o seu famoso Liberté, Égalité, Fraternité, estavam num estado de exaltação utópica que os impediu ver qualquer erro nisso. Aos seus olhos, liberdade era bom, igualdade era bom e fraternidade era bom, pelo que a combinação era três vezes bom. É como dizer que lagosta é bom, chocolate é bom, ketchup é bom, pelo que lagosta em chocolate e ketchup é três vezes bom. Claro que a cozinha norte-americana exemplifica este tipo de erro de modo que nunca deixa de horrorizar o exigente palato europeu. Mas na esfera política os erros têm consequências de longe piores do que quaisquer que se encontrem num prato norte-americano.”

A citação vai comprida. Mas vão por mim. Discordem, concordem, com mais ou menos veemência, com mais ou menos deleite ou irritação, mas deixem-se provocar.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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6 respostas a Viagens pela minha estante IV

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Tem a ver com coisas minhas, de me dar a volta por dentro. mas há três faróis pelos quais goatava ou tento — eu bem tento, bem tento — guiar-me: verdade, justiça e beleza. Nem é fácil conjugá-los, nem é fácil, sequer, distingui-los. Mas estou convencido de que no famoso slogan trinitário falta um eixo, verdade ou beleza, que introduza reflexão a tanta proclamação.

  2. curioso (antrop(r)ológico) diz:

    verdade e justiça serão sempre valores relativos e contrapontos a situações de (in)conveniência: mentira/inverdade e injustiça

    serão virtudes/normas comportamentais, visando a não conflitualidade

    há ciclos na história (da vida em sociedade) e a lei fatal do menor esforço (e do maior bem estar) vai guiando invisivelmente os passos da Humanidade

    é apenas um desabafo 😉

  3. Panurgo diz:

    Deve haver algum problema com a tradução; as ideias e os textos que ele refere são básicos e não apresentam grande dificuldade de interpretação. De digestão sim, que um tipo depois de ler o Saint-Simon ou o Hume anda ali uns dias a vomitar muros de Berlim. Todavia, cada citação que o Pedro coloca aqui é um disparate contínuo. Ainda por cima o Escorbuto faz aí uma mistela com conceitos da Filosofia Medieval que dá nojo. E falta qualquer coisa aí ao slogan da Revolução Inglesa em França. Se não estou enganado, era assim: “tal, e tal e tal… com manutenção dos privilégios adquiridos”. Quem descreve bem essa macacada é o Henri Robert; há até um alfarrabista em Lisboa que tem uma edição lindíssima dos Julgamentos, mas pedia-me um dinheirão, o filho da puta.

  4. Descobri há já uns tempos que o Rousseau era doido varrido.
    O resultado está à vista.

  5. fernando canhão diz:

    Caro Pedro, mesmo não o conhecendo, estou em crer que mais dia menos dia irá concordar com o comentador Panurgo. Mas nada de desanimos, leia de imediato e sem parar Alphonse Allais, as aventuras do Capitão Cap, livro B da Estampa.

    • Panurgo diz:

      Mais descrição, irmão Fernando. Pelo desculpa por assim o tratar em público e assim denunciar em público a sociedade secreta a que pertencemos: a daqueles que juraram perante o Altíssimo não gostar que os fodam.

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