#5, Olhos de avestruz

Se Soraia soubesse que os comprimidos eram um placebo, apenas uma inócua fórmula de açúcar e corantes ao qual a cor violeta (mais exactamente, o Pantone 2597 C) dava um credível ar de acetato de ciproterona,  terminaria a busca mesmo ali. Mas tal como Soraia ignorava muitas coisas sobre a Organização, para onde tinha entrado há apenas 2 anos e meio, a Organização também não sabia tudo sobre ela (e será que alguma vez podemos saber tudo sobre alguém, por muito que vasculhemos o seu passado, persigamos o seu presente ou determinemos o seu futuro?). Por exemplo, a Organização desconhecia que Soraia era uma perita em artes marciais como karaté, jiu-jitsu e muai thay, o que lhe dava imenso jeito nos casos em que os alvos, por um qualquer inexplicável motivo não se rendiam aos seus encantos físicos, facto que assim podia omitir. Soraia tinha um quase inesgotável repertório de golpes contundentes e perigosas técnicas mortais, que executava de mãos vazias. Nua, com as suas formas perfeitas (tinha como medidas (89-59-89) era uma arma. Vestida, era uma arma invisível. E havia outra vantagem: o erotismo que exalava, tal como os golpes que escondia, nada acusavam quando passava no detector de metal dos aeroportos.

Além de não saber que os comprimidos em que quase se viciara eram inócuos, por mais que puxasse pela sua bela cabeça, Soraia não conseguia encontrar o significado oculto para a data em que iria eliminar John Zarco. E claro que havia uma razão para essa data, até porque a Organização venerava os simbolismos. Nesse mesmo dia, em séculos muito distantes, tinham morrido o rei D. Manuel I de Portugal (esse país a que outrora pertencera o arquipélago onde John Zarco nascera) em 1521 e o pintor Wassily Kandinsky, em 1944. Está na altura de revelarmos que a Organização tinha grandes interesses no mercado internacional da arte. Não era por acaso que a bordo deste voo nocturno para Istambul viajava um francês com uma tela muito valiosa. O seu nome era Breton, André Breton. Sim, esse mesmo, o poeta surrealista que numa noite de chuva e tédio tinha inventado com um grupo de amigos um jogo colectivo a que deram o nome de cadavre exquis. Desde então, esta técnica para explorar o mistério do acidente, do qual parecem nascer verdades dignas de um oráculo, expressando o inconsciente colectivo do grupo através de contágio mental, tinha liberto escritores e permitido histórias inacreditáveis.

Não era por acaso que André Breton, marchand d’art para sobreviver como poeta, trazia consigo discretamente embrulhada em papel pardo uma tela do fauvista Kees Van Dongen, que já no final da sua vida pintara a famosa B.B. O retrato era de 59 e a loira mais bonita de sempre estava apenas 3 anos mais velha em relação aos capítulos anteriores. Conhecendo o título do quadro – « B.B. aux yeux d’autruche », não é difícil imaginar que a bela francesa não terá achado muita graça ao facto de ser comparada com uma avestruz.

Soraia e Breton partilhavam um destino comum: John Zarco. Quem chegaria primeiro? Soraia, para lhe tirar a vida, com data e coordenadas marcadas ou André Breton, para lhe tirar milhares de euros da carteira, vendendo-lhe este quadro? Tinha conhecido John Zarco em Paris, aquando da lua-de-mel deste na cidade luz com a sua mulher americana. Na ocasião, o bígamo Zarco tinha dito à sua mulher inglesa que ia ao Congresso Internacional do Divórcio Litigioso, que por ser um tema delicado, se arrastaria por duas longas semanas. Zarco fora apresentado a Breton por outro madeirense, Joe Berardo, que havia deixado no bem sucedido advogado o bichinho das artes. Ao saber, pela imprensa, do tórrido affair de Zarco e B.B. em Capri, Breton tinha imaginado que o advogado gostasse de ter permanentemente o belo rosto de Brigitte numa das suas casas, mesmo que envelhecido antecipadamente cerca de  mil e uma noites.

Os passageiros estavam tão entretidos e fascinados com a beleza voluptuosa da morena e longilínea Soraia, que não tinham prestado a mínima atenção a Monsieur Breton, o pai do surrealismo, que já teria idade para ser bisavô de Soraia. Enquanto este a observava, meio derretido com tanta beleza, não conseguia deixar de pensar no verso de Rimbaud: “Un soir, j’ai assis la Beauté sur mes genoux. – Et je l’ai trouvée amère”. Se Breton tivesse desviado o seu olhar concupiscente e ligeiramente míope para a direita, poderia ver o passageiro do lado a consultar no seu ipad o termo cadáver esquisito e cuja pesquisa o conduzira a um blog de estranho, mas sugestivo nome: Escrever é Triste. O nome do passageiro? Chamava-se Vasco Grilo, tinha ar de quem vivia, não numa metrópole mas na primeira aerotrópole do velho continente e foi precisamente na sua direcção que Soraia se encaminhou, para lhe colar uma perturbante pergunta ao ouvido esquerdo…

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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11 respostas a #5, Olhos de avestruz

  1. Ivone Costa diz:

    🙂
    O que eu gosto de uma metalepse… Maria João, este texto está uma maravilha.
    (o que vale é que as semanas passam lentas …)

    • Maria João Freitas diz:

      Ivone,
      Também estou muito curiosa em relação aos próximos capítulos, o seu incluído.
      Obrigada.

  2. Escrever é Triste diz:

    Tenho-me divertido muito, mas agora fiquei numa angústia: o Vasco não quer dizer-me já (só a mim que sou Tia) e ao ouvido o que é que a Soraia lhe disse?

  3. Maria João, li tudo com olhos de avestruz., E é assim que vou passar a ler, a descobrir placebos perdidos, armas nuas, o imprestável detector de metais. Com olhos de avestruz até a Beleza se nos senta ao colo. Está maduro e muito bom este Cadavre.

    • Maria João Freitas diz:

      Muito obrigada por tão gentis palavras, Monsieur Fonseca.
      Andei a investigar e parece que a avestruz tem as mais grossas sobrancelhas do reino animal.

  4. ah ah ah que bela passagem de testemunho … ao ouvido!

  5. Diogo Leote diz:

    Bela e imaginativa continuação, Maria João. O Vasco ainda não se manifestou. Ainda deve estar entretido com a Soraia. E que o entretenimento continue… desde que o partilhe connosco, claro.

    • Maria João Freitas diz:

      Diogo,
      Imagino que esteja aborrecido por a Soraia, criação sua, não se ter colado ao seu ouvido, mas o Vasco era o senhor que se seguia.

  6. Pedro Bidarra diz:

    É sempre a subir mas esta subida foi ingreme, estamos bem lá em cima.

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro,
      Muito obrigada, também por isto: o teu capítulo foi uma fonte de inspiração e um enorme impulso para a subida.

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