2014

(Oráculo a partir do cheiro que se sente
em forma de soneto estrambótico)

Nos caminhos crescem verdes daninhos,
uma selva de silvas, um decor
sem majestade ou qualquer dignidade,
e que em nada nos faz lembrar Angkor.

Um cão que sobra, sem perna, vai torto
pela cidade pestilenta e que ao sol,
virou atoleiro de lama mole
de onde exalam aromas de rio morto.

O hálito das ruas cheira a azedo,
a uma mistura de bafo de rato
com mijo de gato e gente com medo.

Cheira a desespero, ninguém lhes vale,
nem Cristo nem Buda nem Mohammed.
Tudo cheira mal, definha e fede.

(Entretanto aterrou um avião
Mas vinha vazio, sem Sebastião.)

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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14 respostas a 2014

  1. curioso (no velório) diz:

    tristemente sem margem 🙁

    só o tempo

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Súmula bem-vinda que como metáfora nos reproduz, bem como a todo o Ocidente e à Europa conduzida ao altar de “Nobel da Paz”.

  3. Panurgo diz:

    A herança é pesada…

    Tendo o terrível Bonaparte à vista,
    Novo Anibal, que esfalfa a voz da Fama,
    “Oh capados heróis! (aos seus exclama
    Purpúreoo fanfarrão, papal sacrista):

    “O progresso estorvai da atroz conquista
    Que da filosofia o mal derrama?…”
    Disse, e em férvido tom saúda, e chama,
    Santos surdos, varões por sacra lista:

    Deles em vão rogando um pio arrojo,
    Convulso o corpo, as faces amarelas,
    Cede triste vitória, que faz nojo!

    O rápido francês vai-lhe às canelas;
    Dá, fere, mata: ficam-lhe em despojo
    Relíquias, bulas, merdas, bagatelas.

    Manuel Maria

    • Pedro Bidarra diz:

      Herança pesadíssima. É como herdar os móveis de casa da avó. Graves, escuros, pesados, cheios de adornos rebuscados e duram para sempre.
      O que há a fazer com eles, quando nos tocam, é fogueiras. Tenho horror a casas de avós.

  4. curioso (vater low) diz:

    2013, já, rimará melhor com a desgraça? e 14 com a nova grande guerra?

  5. Pedro Bidarra diz:

    Inevitavelmente. Uma puta miséria é o que se avizinha (se me é permitido dar largas à má disposição)

  6. nanovp diz:

    Precisamos, todos, inevitavelmente, de um “banho por dentro” como dizia o Eça, e se possivel, longe daqui…de longe tudo parece sempre melhor, e dá saudades…

    • Pedro Bidarra diz:

      Curiosamente não é um banho por dentro, que pode ser tomado facilmente estando ligado ao mundo pelas redes várias que o mundo nos estende; o banho tem mesmo que ser por fora de imersão e longe a ver se nos livramos deste fedor.

  7. Creio mesmo, Pedro, que era o último avião…

    • Pedro Bidarra diz:

      Pois era. E só parou por acaso. Tinha um passageiro doente que largou por cá. Aterrou e levantou.

  8. Vasco Grilo diz:

    De repente fiquei com saudades do perfume do teu céu azul, esse que só aí existe! Se calhar não devia.
    Muito boa esta tua música de odores.

    • Pedro Bidarra diz:

      Também eu tenho saudades dele. Acho que vou lá atrás ler o texto de novo para lembrar-me. É que se chama auto-ajuda

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