Vasco Araújo

Detritus

Foi a minha Triste Rita Vasconcellos que mo apresentou. Vasco Araújo nasceu em 1975 e, mais novo do que esta vossa Tia, já tem uma biografia que se dá mal com sínteses. Quem é? Não é só, acreditem, nenhuma das coisas que é. Não é só o escultor que é, não é só o pintor que é, nem é só o filmmaker de paisagens inóspitas que é. Quem sabe quem ele é? para parafrasear o seu grafitado “Ad Verbum” de 2010. Sabe-se que às suas instalações não são estranhas a fotografia, a música, sons, vozes, a literatura, palavras.

La stupenda

Faz no presente uma arte do futuro. Mas o presente de Vasco Araújo acolhe sem reservas o passado. Não só a pintura, mas mesmo (ou sobretudo) o teatro, a ópera, a literatura. Não conheço caminho criativo mais difícil: fazer o novo, não pela ignorância do passado, mas pela permanente consciência dele. E não de qualquer passado, mas do melhor passado, o que vai de Homero a uma operática diva de Puccini, passando por Rousseau ou Beckett… Interrogando-se sobre os recursos do corpo, a voz, o físico, os gestos, Vasco Araújo não tem receio de falar com e do mundo em que vivemos. A realidade? Ia dizer que sim e páro: talvez mais do que a realidade, a encenação da realidade.

O que mais me interessa é transmitir sentimentos e que as pessoas se questionem. E não é o questionar do tipo concordo ou não concordo, gosto ou não gosto. É um questionar interior, de um outro eu ou dos vários eus que nós temos. Ao transformar-me em Norma ou em Tosca, quero que as pessoas não fiquem standardizadas num modelo que a sociedade, que a família ou a lei lhes impõe. Apetece-me que as pessoas reflictam sobre as questões – o que é que eu sou, o que é que eu estou aqui a fazer, porque é que eu me chamo assim, porque é que eu sou artista, porque é que eu sou engenheiro, advogado…? Porque é que eu amo ou não amo, porque é que eu sou arrogante ou não?

Vasco Araújo é um artista. De muitas perguntas operáticas. Agora, lá em cima, pergunta-nos, mais do que afirma, se Escrever é Triste. Uma pergunta com que nos vamos confrontrar, agradecendo-lhe, ao longo das duas próximas semanas.

Duettino

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.

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7 respostas a Vasco Araújo

  1. Querida Tia, fez uma linda introdução ao Vasco Araújo, artista maior. Para quem quiser conhecê-lo melhor, aqui fica:
    http://www.vascoaraujo.org/

    Obrigada Vasco.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Vou informar-me. Grata pelo endereço, Rita.

      • Escrever é Triste diz:

        Rita, o mérito é seu. Triste mérito. Fiquei pasma, como diz uma amiga minha, com a repercussão internacional da carreira do seu amigo artista.

  2. nanovp diz:

    Rita , mais uma vez aqui nos divulga a nossa cultura contemporânea, e ainda por cima num ” banner” marcante…Conheço pouco vou também investigar mais …

  3. curioso (não sou Meia-Noite) diz:

    hoje alguém de peso disse: há mais artistas que obras de arte.

    parabéns ao Vasco!

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