A barraca feliz de Bon Iver

Eu sei que parece ofensivo dizê-lo numa altura em que o regresso às barracas paira como uma sombra ameaçadora em Portugal. Mas a verdade é que há gente que nunca devia ter saído de uma barraca onde já foi feliz. Não, não se inquietem, que não estou a fazer aqui a apologia do empobrecimento extremo para onde certos senhores que nos (des)governam nos querem atirar. A barraca a que me refiro está bem longe, algures numa floresta do Wisconsin. E, de facto, entre Novembro de 2006 e Janeiro 2007, fez de Justin Vernon , que então a habitou como um eremita, um homem imensamente feliz. Eu explico para quem ainda não identificou: do isolamento a que Vernon se auto-impôs nesse inverno na floresta do Wisconsin resultou um admirável álbum, For Emma, Forever Ago, que acabou por ser publicado sob o nome Bon Iver, numa alusão ao “Bon Hiver” (bom inverno) que passou na barraca.

Como seria de esperar, Justin Vernon acabou a fartar-se da sua barraca. E também se deve ter fartado das comparações com o minimalismo acústico do Neil Young da sua melhor fase. Vai daí começou a fazer-se acompanhar em palco por uma quantidade infindável de músicos que o puseram a milhas da austeridade sonora do primeiro álbum. E o resultado esteve bem à vista no concerto de ontem no Campo Pequeno em Lisboa: o excesso de instrumentação, se foi amigo do ruído tão do agrado de plateias com tendência para a histeria (e como as houve ontem, juro que até me pareceu ver meninas a desmaiar), revelou-se inimigo das harmonias vocais e dos sons límpidos de guitarra que provocaram o aplauso em For Emma, Forever Ago (e que também estão, embora em menor grau, no segundo álbum). Não significa isto que o concerto não tenha tido, aqui e ali, muito bons momentos. Mas tal aconteceu, justamente, quando Justin se despojou de parte da parafernália instrumental da banda. Ou seja, quando Justin nos fez o favor de regressar à barraca. E, já agora, faz-nos outro favor, Justin: explica-nos porque é que usas e abusas do falsete quando tens uma bela voz de barítono?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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7 respostas a A barraca feliz de Bon Iver

  1. Diogo, são tão novinhos. Todos, músicos e público. É um rio de inocência…

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Acredito piamente no que afirma. Noutro plano que não o musical, bastas gentes se perdem quando sumidas as raízes da matriz.

  3. É, Manuel, parece que um gajo tem de chegar a velho para recuperar o prazer do isolamento numa barraca…

  4. Ora, nem mais, Maria. Esta coisa de querermos agradar ao mundo inteiro leva-nos à perda de identidade. O problema é que, quando se quer voltar atrás, pode já ser tarde demais.

  5. nanovp diz:

    As cabanas tem uma historia importante na arte, da música à filosofia, não as podemos sub-estimar…

  6. Pois é, Bernardo, o luxo e o conforto são inimigos da arte…

  7. Maracujá diz:

    Porque partilharia a barraca feliz de Bon Iver, porque lá dentro fala-se com a proximidade humana característica da partilha, caro Diogo, porque o criei na ausência de presunção e porque me caía melhor textualmente o uso da palavra tu, permita-me deixar-lhe um pouco de essência neste incenso de palavras:

    “Sem ter que te falar, ouve-me, porque te conto ao ouvido,
    Levanta-te dessa cadeira onde estás confortavelmente acomodado
    Tira esses sapatos e descalça essas meias.
    Consegues absorver o calor soalheiro
    da madeira a penetrar-te pelos dedos dos pés?
    Agora sai daí e sente o vento.
    Do mar, porque sim!
    Descalço percorre a estrada.
    Ouve cada som desta música, é o teclado de um qualquer piano
    É a brisa que sai do toque de uma arpa
    Sente a irregularidade do chão que ainda pisas
    É a imperfeição dos momentos a nossa felicidade
    A areia, a terra, a pedra pega-se aos pés
    Barro ou xisto?
    O mar está numa tranquilidade desconcertada, mas tens de ir
    A resistência causa dor confortável
    Está frio, salgado, borbulha e molha sem remédio para a cura o traje Calvin Klein
    Que importa?
    Apenas sentir, sentir, sentir,
    O momento que é sentir esta savana que é a vida”

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