A freira de Casanova

 

Friedrich Heinrich Füger

Maria Madalena interrompe a leitura. Ergue o olhar. Sob a luz coada pelo arvoredo, atenta no observador que a contempla. Adivinha-lhe o pensar dela possuir sensualidade inferior quando comparada à Madalena de Correggio. Permanece a melancolia, a postura abandonada, ombros e pés nus sobre tapete de musgo.

Ignorava, então, que a sua pose remeteria para luxúrias de outros. Giacomo Casanova, um deles. Talvez o mulherengo convicto tivesse visto o original de Correggio em Dresden. O misto de devoção e excitação dos sentidos rendeu-o como terá acontecido com a generalidade dos emotivos no século XVIII.

Correggio

Seduzido pela obra original e pela cópia adquirida a Friedrich Heinrich Füger por Luís I da Baviera, amante de mulheres várias como Giacomo Casanova, passaria a designar por M.M. as mulheres que possuía. Uma delas, freira, presenteia-o com originalidade: caixa para tabaco em ouro onde é retratada duas vezes. Aberta a caixa longitudinalmente, aparece composta pelo hábito. No sentido transversal, surge nua na postura da Maria Madalena adotada por Füger.

Nem o ouro contraporia durabilidade ao sentimentalismo volúvel de Casanova.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a A freira de Casanova

  1. Panurgo diz:

    Não compreendo. Não há nada menos sensual do que uma mulher a ler. Excepto quando lêem Vogue, claro.

  2. Maria, e não se pode ficar com as duas Madalenas. Se era o que fazia o Giacomo é o que também se deve fazer hoje, não?

  3. curioso (trans versal) diz:

    o Fellini não engoliu a ingenuidade da abertura longitudinal da caixa… e pôs as coisas à mo(n)stra 😉

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    E que bem o fez!

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