#7 Os segredos do senhor Jalabar, executivo de topo

A travessia fora realmente violenta.
Lacerda podia garantir que já conhecia com minúcia a saudável orografia de Soraia, mas, embora fosse apreciador de excessos, tanto furor uterino deixara-o completamente no fio. Das três vezes que fizera um esforço sério para dormir, animado pela reserva de bordo de Jack Daniels e por um microdot com fama de sonhador, fora interrompido pela avidez sexual da ‘patroa’ Soraia – mais propriamente pela sua mão diligente e hábil.
E tudo recomeçava e continuava no esconso apertado do WC voador, rumo a novo orgasmo salvífico…, que por norma eram três ou quatro.
Nem conseguia perceber como aguentara tamanha maratona.
Por volta do meio-dia local o Airbus A-380 fez-se à pista do aeroporto Atatϋrk, ao mesmo tempo que se gerava alguma confusão à volta de uma passageira que viajara a noite inteira a dormir. Que ele tivesse reparado, pois entre as investidas consumadas de Soraia e os seus esforços por dormir talvez a misteriosamente imóvel mulher se tivesse mexido ou mostrado a cara alguma vez, até aí encoberta por uma espécie de túnica com capuz.
Para sua surpresa e dos demais passageiros da primeira classe, da abandonada túnica com capuz surgiu uma Paris Hilton rutilante, impecavelmente pintada e arranjada – o que renovou em Lacerda o imenso mistério que algumas mulheres ainda lhe inspiravam. Intimamente agradeceu ao Cosmos que Hilton e Soraia não se tivessem encontrado e conversado um pouco que fosse. «Ia sobrar para mim, garantidamente…», pensou, imaginando-se a suprir vontades inadiáveis às duas, no aperto do voador WC.
A confusão era medonha nas saídas internacionais: entre os fãs do Real Madrid que aguardavam em semi-histeria ruidosa os galácticos futebolistas e os mirones da socialite norte-americana, Lacerda e Soraia lá conseguiram furar até ao meeting point onde era suposto encontrarem o seu contacto em Istambul.
Esperaram.
E esperaram tanto que Soraia, já a ferver de raiva, preparava-se agora para contactar com alguém da Organização que explicasse o que para ela era inexplicável – no que foi interrompida por Lacerda, que lhe tocou no braço para de seguida apontar um indivíduo alto e de tez asiática que se plantara há uns bons dez minutos nas imediações empunhando um pequeno cartaz, onde, em letras pouco generosas, se podia ler o curto e seco vocábulo ORG.
Soraia rodeou o invíduo, que permaneceu absolutamente imperturbável apesar de inspeccionado ao pormenor e de bem perto.
– Org?! Mas então você está aqui há uma data de tempo e não diz nada?, inquiriu com razoável ira a bela profissional do sexo, falando em inglês.
– E quem lhe disse a si que eu queria dizer alguma coisa a quem quer que fosse?…
A resposta pausada chegara curiosamente em português. – Na verdade estava à espera que a Organização me enviasse gente com alguma capacidade de observação, e não apenas um peão e uma torre que só se mexem quando empurrados…
O olhar do asiático, que era realmente muito alto mesmo nos padrões ocidentais, tornou-se particularmente frio. Ao mesmo tempo que guardava o seu minúsculo cartaz, apresentou-se:
– O meu nome é Pencatur Jalabar, sou momentaneamente o vosso motorista, e tenho o poder para vos matar se achar que tal me é conveniente. Para já tenho que impedir que os outros candidatos à morte de John Zarco se cruzem com vocês os dois, a Organização não quer disputas inúteis entre concorrentes…
Soraia estava branca de petrificada, e Lacerda calado que nem um peto.
Já no táxi de Jalabar, a explosiva mas subitamente mansa Soraia tentou uma percepção do que se passava:
– Desculpe-me, Pencatur…
– Para si é, senhor Jalabar…
– Ok, senhor Jalabar…, falou de concorrentes…
– Sim, os outros que estão no jogo John Zarco. Todos querem o prémio principal, não é verdade…
Soraia hesitou, confundida, antes de continuar:
– Quer então dizer que há mais gente atrás de Zarco? Mas que raio de importância é essa que o tipo tem que consegue ter não sei quantos assassinos atrás dele?…
– A importância que tem ou não tem não me cabe a mim pesar, sou apenas um executivo de topo e cumpro ordens milimétricas. Quanto ao número é à qualidade dos executivos isso depende apenas do nível e complexidade do alvo. O vosso, por exemplo, é um alvo estabilizado, e por isso conta com vários executivos na disputa do prémio extra para quem o terminar. Já a mim cabe-me este mês um verdadeiro enigma que inclui a possibilidade do alvo que procuro ser um conjunto de alvos… Aqui não há disputas.
– Como assim?…
– Senhor Jalabar!…
– Claro, senhor Jalabar, desculpe… O trejeito quase sedutor que acompanhou a rectificação apressada de Soraia não agradou minimamente ao executivo asiático, que franziu o fino cenho. – A verdade é que não me disseram que havia mais gente ao barulho…
– Eu sei. É uma diversão privada da Organização, os executivos do seu nível só sabem alguns pormenores com o decorrer da operação. A Organização paga, e como tal quer diversão, fazem apostas. É simples e natural.
Pencatur Jalabar estacionou o seu táxi Jaguar no parque da marina de Ataköy, situada nas imediações do aeroporto Atatϋrk, e dirigiu-se, seguido de Soraia e Lacerda, à esplanada do restaurante.
Levava a tiracolo uns potentes binóculos.
Já sentados numa mesa virada para os peers, e depois de Jalabar pedir ao turco de serviço uma cerveja local, um gin fizz e um blue Curaçao, os dois executivos de segunda (sabiam-no agora!) ouviram o executivo de topo explicar-lhes que tinha de os ajudar porque tinha apostado bom dinheiro neles e, como tal, queria que ganhassem. Depois, com a ajuda dos binóculos, identificaram dois barcos dos seus supostos adversários. Não eram veleiros, mas sim potentes iates de recreio. Não, não era ali que estava o Katherina IV, o veleiro que os levaria até Zarco, informou Jalabar, acrescentando que o apanhariam já em mar aberto e que ele se encarregaria de toda a logística da abordagem.
Depois de ter feito umas quantas fotos aos barcos adversários, Lacerda resolveu intervir na conversa:
– O senhor Jalabar não se importaria de nos explicar qual é o seu alvo…, enfim, como é que um alvo se pode transformar em vários…, acho que é importante nós…
– Em teoria você não tem que saber coisa nenhuma, o seu dever é captar as imagens dos acontecimentos. Há quem coleccione isso… O desprezo emanado das palavras de Pencatur Jalabar irritaram Lacerda, que teve de se conter para não atirar logo ali com a Leica aos cornos do tipo. Era cara, a Leica, e o bicho notoriamente perigoso…
Logo se acalmou com as palavras de Jalabar:
– Mas eu mostro-vos a pista que tenho de seguir, para ficarem com uma ideia de como são as coisas no meu nível…
Dito isto tirou um I-Pad do bolso do blusão leve e poisou-o na mesa, iniciando algumas operações.
– A pista é esta, disse Jalabar em tom contidamente triunfal.
As cabeças de Soraia e Lacerda pareciam as de dois corvos a disputar um pedaço.
Afinal, tratava-se da imagem de um documento antigo, ilegível naquelas condições.
Mas…, e o que é isso aí, senhor Jalabar?…
Recostando-se na cadeira, o asiático, sempre pausadamente, foi alinhando informações:
– Este foi o próprio Org que mo passou… Trata-se de documento régio, português, João IV… Tem a ver com a recondução de um título nobiliárquico depois da ocupação espanhola… O alvo é o actual titular… Só que não é fácil encontrar! Nada fácil, mesmo…
– Mas porquê?… senhor Jalabar…
– Porque a família titular já não é portuguesa, mas sim inglesa – e já ninguém usa o título, que se saiba… Por isso o mais provável é eu ter de dar cabo de toda uma geração. Uma autêntica brincadeira de mau gosto da Organização, enfim, de Org…
– Mas quem é afinal Org, senhor Jalabar?…, perguntou Soraia, um pouco a medo – e desta vez com a cara bem séria.
– Org?… Depois de lenta e prolongada gargalhada, Pencatur Jalabar condescendeu:
– Posso-lhe dizer que não é de cá, isso ainda posso dizer…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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18 respostas a #7 Os segredos do senhor Jalabar, executivo de topo

  1. curioso (ja la bou) diz:

    se Jalabar fosse RoupaSuja e a gargalhada fosse rápida e prolongada, outra seria a maralhada.

    com pena da Soraia, espero que daqui saia, com algo mais que nada 😉

  2. Os espiões… posicionam-se:

  3. A Paris e a nossa Soraia juntas… Os próximos narradores é favor não deixarem fugir o que, está-se mesmo a ver, o António traz naquela cabeça…

  4. Diogo Leote diz:

    António, espero que a narradora que se segue (julgo que a Maria do Céu) não se lembre de encontrar os comprimidos da Soraia. Seria inglório para ti, que certamente moveste montanhas para convencer a Paris a participar na história…

  5. nanovp diz:

    Dava folhetim na TV, e agora com a ligação lusitana tornou-se numa verdadeira “saga” global…tenho a sensação de que já não preciso de ver o ( novo) 007….

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Como prosseguir esta ‘piéce de resistance’? Ai de mim…

  7. curioso (sus penso) diz:

    pura adre na lina que já deve estar bem a cu mulada 😉

  8. curioso (irresis tible) diz:

    pièce de résistance? belle idée 😉

    http://www.foxandrose.com/piece-de-resistance-bra.html

  9. curioso (résis tance) diz:

    até em barrila a Soraia, a Paris e a Ware e as 3 juntas 😉
    (têm dúvidas? façam zO:Om)

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