#8 Na rolha flutuante

 

Zarco bendizia a rolha flutuante que escolhera à sombra da Organização. Deixara o iate, latões polidos até assemelharem ouro, ao largo de Villefranche-sur-Mer, a baía mais aprazível de França. Aromas do Midi, as palavras dos existencialistas e os tons vivos impressionistas ainda sobrenadavam num copo de absinto bebido nas ruelas ou rente ao mar que dissolvesse dúvidas e dívidas. No regresso de Capri, o esconderijo de sempre quando esconjurava negrumes. Os Alpes Marítimos largaram os cumes amansados pela brisa também no próximo Cap Ferrat. Desaguariam na mornura do Mediterrâneo.

Na ilha da Grotta Azurra, lembrara os banhos de Tibério à boca da gruta no azul límpido do mar Tirreno, só ultrapassado pelo do Adriático. Avivada a memória, recordou que o conhecimento primeiro do lugar lhe chegara por livro: The Story of San Michele do sueco Axel Martin Fredrik Munthe. A propósito, ocorreu-lhe que talvez a sua mulher londrina tivesse enviado em nome de ambos as felicitações pelo nascimento do Axel, neto do comendador português que haviam conhecido no jantar de encerramento dum convénio, em Lisboa. A empatia inicial entre os casais evoluíra para amizade. Cimentara-a Londres onde o comendador tinha casa de quatro pisos em Mayfair ao bom velho estilo de upstairs, downstairs. Num serão, o comendador referira título nobiliárquico com origem portuguesa, sem que os atuais portadores fossem identificados. John Zarco suspendeu o inalar do charuto. Só depois viu Org a sorrir beatificamente no desenho do fumo expirado. O madeirame do teto destacava-o. Coincidência a aparição no momento em que ensimesmara pela acabado de ouvir? Há muito deixara de crer nas conjugações aleatórias em harmonia com saberes que nem eram nem deixavam de ser.

Intuições, talvez.

Em Capri, fora desilusão a capitosa Bardot no apogeu da voluptuosidade. A cintura de vespa, descobrira, era talhada por cueca munida de espartilho acima da anca. Subindo centímetros, os airbags espetados eram obra do continuado artifício, que a aplicação do elastano na lingerie proporcionara, pelo final de 59. Em vez de caldo de hormonas fervente, a partilha fluida com a Brigitte doutrora no agora. Fora como visita a museu de carnes afamadas no tempo em que os dentes não haviam rompido, e, para coçar as gengivas, mordiscava plêiade de brinquedos ao penduro no berço.

Adulto, o apelo aventureiro de carnes novas que associava à ascendência madeirense engaiolada pelo Atlântico, faria dele conhecedor especializado em truques femininos e mentiras. Soraia tê-lo-ia conseguido manipular? Conseguiria ao atingir a conjugação da latitude, longitude e data? Na putice sábia, optaria por tiro certeiro no despacho de toma lá, dá cá treinado anos a fio? Pela ninfomania que nem o placebo entregue pela Organização regulava, daria largas à gulodice por sumos impetuosos?

Zarco, vendilhão de promessas como ela, chulo de poderosos e de incautos quando a propaganda o descrevia filantropo. Provavelmente resistiria às manhas mesmo na proximidade das máscaras de Org que o perseguiam.

Da hora, dia e local marcado para morrer soubera sem saber. Como soubera dos Lacerdas entre cicios e urros de Soraia mais as Paris Hilton encapuçadas, dos Bretons, da tela fauvista de Kees van Dongen enrolada à cata de comprador. Não ele, era certo – morte avistada acumulava a vantagem da inutilidade de alguns gestos. Por outro lado, sempre preferira o retrato da Brigitte Bardot merecedor de capa na Time em 1960. Autor: Kees van Dongen, o pintor fascinado por mulheres com olhos grandes em tamanho e nos promissores mistérios. Como ele ali recostado no camarote renascentista forrado a veludos e brocados apontando o barroco, conquanto detalhes do maneirismo derrotado ainda sobrassem no espaço. A Organização de tudo cuidara: da ambiência luxuosa numa aparente traineira em busca de pescado, da companhia feminina com olhos verdes onde o horizonte tinha albergue e destinada a alegrar a viagem de Zarco. As túnicas bordadas a ouro cobriam pele macia, convidativa a luxúria em passeio de lábios e membros sôfregos. Nela se esvaía o homem elitista do Clube, a compostura perdida na alvura das suas nádegas balofas abraçadas pelas pernas morenas da encomenda turca. Durando o vai e vem ia ficando embrumado o porto de Esmirna, a traineira rodeada pelo mar Egeu, a Grécia do outro lado.

Alteraria o rumo dos acontecimentos se Jalabar tivesse apontado ao mar os binóculos usando a perspicácia dom e treino em vez de exibir, perante Soraia e o estafado Lacerda, a plumagem do seu poder na Organização e o conhecimento privilegiado de Org. Mas não, preferiu a lengalenga dos vaidosos que elevam ao cimo do Empire feitos e achados quando nem atingem altura modesta de casa, em Queens. Era executivo ao mando de Org, sim, mas, enviado a NY, fora no verde ferrugem das paredes alinhadas em Queens que o alojaram. Mais próximo do JFK, Jamaica quase ao lado, pertença de county nobre que herdara o nome da portuguesa Catarina de Bragança, rainha «com sorte» pelo enlace com Carlos II de Inglaterra, mais discreto, mais de acordo com os propósitos da reunião, informaram-no. Falácia que simulara digerir. Bem sabia que os genuínos executivos de topo respiravam os luxos de Manhattan, embora todos partilhassem nas deslocações Chryslers Voyagers com vidros fumados. Limousines banidas pela vulgaridade na ocupação dos e das stars de tigela meada em noite de galardões, das máfias e dos turistas embevecidos com o andei numa. Destes, fotografias convenientes e ala que se faz tarde nas baratezas de Chinatown. Mas isto nem pensava Jalabar de tão ocupado no basbaque da parelha em frente e no seu papel de mula de carga, arraçado de pombo-correio dos maiorais. Jalabar tinha obrigação de melhor.

No avanço, a embarcação cumpria o limite da dúzia de milhas náuticas a partir do litoral turco definido pela baixa-mar. Observador anónimo do trajeto seguido diria objetivo pesca conforme às leis internacionais.

John Zarco, só, olhava a tela/forro da divisão que na viagem enganadora era o seu território. Na obra de Rubens, barroca como o ambiente prisão, o anjo providencia alimento a Santo Elias para que recobre forças que o conduzam, em caminhada salvadora, até ao Monte Horeb ou Sinai ou Jebel Musa. Pela tecnologia sabia quão diferentes eram as coordenadas das escolhidas para a sua morte. Embrulhava nostalgia, quando bateram na porta que o separava da azáfama piscatória.

Abriu.

Humphrey Bogart, encostado à ombreira, esboçava trejeito indefinido envolto no fumo do cigarro.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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10 respostas a #8 Na rolha flutuante

  1. Come on in, Mr. Borgart… Vai um whiskie?

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Humphrey Bogart:
    _ “A humanidade está sempre três uísques atrasada.”

  3. curioso (dando lume) diz:

    e porque outubro é o mês dos anjos e Maria vela com eles pornós, aqui fica uma outra história marinheira de Saint Michael

    http://www.marypages.com/St.Michael.htm

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Curto, mas excelente o vídeo. Obrigada.

  5. curioso (des apontado) diz:

    mas nem tudo foi agradável…

    According to the unflattering new book, Bogart told another friend: ‘If only Mary didn’t make it worse. When I can’t perform she mocks and ridicules me. I should never have married her.’

    Read more: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1315409/Humphrey-Bogarts-fears-gay-drove-suicide.html#ixzz2APtGSZhx

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Devorei o escrito na fonte que, em boa hora, sugeriu. Ao ler apenas o excerto acima, julguei-o metáfora com endereço.

  7. nanovp diz:

    Agora tornou-se negra, a história claro, que Bogart é sempre a preto e branco!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      O preto e branco que me fascina no cinema e na fotografia. E se permiti que entrasse na história o Bogart foi exatamente pelo negrume emocional que dele é esperado.

  8. Isto está cada vez mais afiado!
    Entrei naquela fase em que apetece ir ao fim ver como acaba… (nunca antes me aconteceu)

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Desculpe ter zurzido no Jalabar genialmente caraterizado pelo António. Apeteceu-me dar volta ao «homem» para, nas sequências, surgir o contraditório.

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