A imensa saudade

No canto inferior direito da primeira página, depois de uma breve nota biográfica sobre Raymond Chandler, está manuscrito, numa caligrafia ainda com preocupações de legibilidade, Pedro Bidarra, Maio/82.
Os anos oitenta foram um paradoxo. Uma década de futurismo, de penteados errados, enchumaços nos casacos e programas televisivos idiotas. Uma década gozada até hoje por todo o humorista sem talento. Mas foi também uma década de renascimento na arte, contra o minimalismo e o modernismo conceptualista, na música que resultou do punk e do funk e no cinema que voltou a construir narrativas com princípio, meio e fim e a ser comercial sem complexos. O cinema americano – por cá na Gulbenkian, o Bénard da Costa dava-o a conhecer todo de uma vez – e a literatura americana, voltaram a ser consumidos em toda a Europa até em França. Foi sobretudo uma década apaixonada pela juventude nos nossos avós, por oposição à dos nossos pais que eram hippies, barbudos, francófonos e de Abril.
Foi por essa altura que o Chandler veio parar ao meu bolso.

Eu era dado à leitura mas não à grande literatura. A que tinha lido, porventura mal aconselhado, deprimia-me. Sofria de uma condição a que nós psicólogos damos o nome de empatia excessiva ou hipersensibilidade e que as pessoas normais chamam apenas de pieguice. As minhas leituras, para além de ficção científica, eram livros de ciência, filosofia, psicologia, sociologia e todos os volumes da Marvel a que conseguia deitar mão.
Era cedo para Dostoievsky. Estávamos nos anos oitenta. Não havia nenhuma razão para ficar em casa a ler volumes de neura e chegar tarde às festas. Haveria tempo mais do que suficiente para a grande literatura quando me fartasse da galhofa ou quando o fígado, os rins, ou qualquer outro órgão essencial se recusasse a colaborar. O que quer que acontecesse primeiro seria sinal para recolher-me a casa e dedicar-me aos clássicos.
Apesar de tudo alguns romances vieram ter comigo pela única razão de caberem no bolso. Com o livro de bolso a literatura passou a andar de um lado para o outro. Era por isso uma questão de tempo até que eu e os autores clássicos nos encontrassemos; no metro, no autocarro ou enquanto esperava em restaurantes, médicos, bancos e repartições. A espera, um dos mais característicos traços na nossa ideia de serviço, era um grande e propício momento ao escapismo e à leitura. Excepção feita às fotocópias e aos calhamaços da academia, que lia por obrigação, a portabilidade passou a ser o primeiro critério de escolha de um livro. Assim descobri o Chandler e o Hammett, o P. K. Dick, o Ballard, o Asimov e o Heinlein mas também o Fitzgerald, o Hemingway, o Faulkner, o Salinger e as peças do Bernard Shaw e do Oscar Wilde.

Fitzgerald disse um dia que “não há segundos actos na vida americana”. Não há segundos actos em quase nenhuma vida. Não é só na América. Um tipo é o que foi, e fez, da primeira vez. Quando arrumamos alguém numa gaveta deixamo-lo lá esquecido para sempre, com os canhotos de bilhetes de concerto, as carteiras de fósforos desdentadas, as contas da farmácia, os relógios sem pilha e toda a tralha que lá enfiamos. Um tipo faz-se publicitário vira publicitário para sempre, faz-se crítico de cinema vira crítico de cinema para sempre, faz-se jornalista vira jornalista para sempre.
Às vezes há excepções.
Raymond Chandler teve um segundo acto. Aos 44 anos, depois de ter perdido o emprego como executivo numa companhia de petróleo, resolveu começar a escrever histórias de detectives para viver. Aos 44 começou a escrever e o que escreveu ajudou a desarrumar um género e a rearrumá-lo numa gaveta lá bem mais acima. Chandler, com Dashiell Hammett, que muito admirava, e James M. Cain, faz parte do trio que não só reinventou o género policial como, ao fazê-lo, influenciou todo o romance americano, o cinema e até a maneira como se olha para a América.
Chandler reinventou-se, reinventou um género e fê-lo com uma voz única e inimitável. Chandleresque é hoje um adjectivo usado para definir um estilo tão único que não acredito haver algum autor que o queira para qualificar a sua obra. Chandler não se escreve de novo, só se pode copiar. Outros autores podem escrever-se de novo. Dir-se-á que são Fitzgeraldianos, como se disse do Brett Easton Elis nos anos 80, e soa a cumprimento. Ou Orwellianos ou Dickensianos. Mas Chandleresque nunca soa a cumprimento ou sequer a referência. Soa a cópia e copiar é feio.

“But down these mean streets a man must go who is not himself mean, who is neither tarnished nor afraid. The detective in this kind of story must be such a man. He is the hero, he is everything. He must be a complete man and a common man and yet an unusual man. He must be, to use a rather weathered phrase, a man of honor.”
In The Simple Art of Murder by Raymond Chandler.

Quem eu copiava na época, de uma forma vicariante, era o Philip Marlowe, o maior dos personagens dos romances de Chandler e que afinal é uma projecção do próprio autor.
Marlowe não é um personagem de hoje. Como já não era da época em que o li nem da época em que foi escrito. Marlowe é um género de personagem que deixou de estar em voga nas artes, nas letras e na vida. É um romântico, um solitário com príncípios. Um detective que foi à universidade, joga xadrez, gosta de música clássica mas que trabalha no meio da escumalha, bebe de mais, fuma, anda à porrada e é socialmente inepto, embora nunca lhe faltem as palavras e seja um virtuoso nas artes da comparação, da ironia, do sarcasmo e do insulto. (O que é que há a não gostar?) E é do género masculino, um género considerado passé com o advento do homem sensível e educado, um género que hoje é politicamente incorrecto e que tem vindo a ser substituído pelo feminino — em todas as suas formas e iteracções.
Na Wikipedia, e noutros sítios da web, as minorias mais sensíveis acham que o Raymond Chandler é homofóbico. Como seria de esperar. Como seria de esperar também rementem a causa da coisa para uma homossexualidade recalcada. Alguns dos comentários de Raymond Chandler, pela boca de Philip Marlowe, são hoje vistos como xenófobos e as personagens femininas são consideradas produto de uma misoginia que, dizem, será mais uma vez resultado de uma homossexualidade recalcada. (Haverá alguém neste mundo que não é gay para esta gente?)
No The Long Good-bye (O Imenso Adeus) está lá tudo o que é correcto e politicamente incorrecto no que respeita a homens, mulheres, loiras, mexicanos, advogados, médicos, polícias e políticos. É uma visão cínica e realista sobre a vida com comentários sobre a política, o dinheiro, o jornalismo, a democracia, a lei, a literatura, a publicidade, o sexo, o jogo… tudo. Tudo escrito ao correr da pena e com uma invejável fluidez. Mas há mais. Sendo um dos personagens principais um escritor, Roger Wade, há um evidente toque autobiográfico e uma deliciosa quantidade de comentários e apartes sobre a escrita, o escrever, a crítica, os livros e os editores – pérolas que não me lembrava de ter lido e que os meus tristes e literatos amigos por certo apreciarão.

Quando li o The Long Good-bye, pela primeira vez, eu e os meus amigos estávamos nos primeiros episódios da season 2 das nossas vidas.
O livro, hoje amarelo como o branco dos nossos olhos e a desfazer-se como os nossos fígados, foi um dos livros de um dos autores da minha vida. Assim que o li decidi que não ia escrever, ia antes viver. Percebi que nunca seria perfeito como o Chandler mas imperfeito como o Marlowe. Enfim, não percebi nada.
Que saudades de ler o Chandler pela primeira vez. Ou serão saudades da época em que o li?

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

14 respostas a A imensa saudade

  1. curioso (saudoso) diz:

    as duas coisas, numa só: sódade 😉 e vida: viva!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Lê-se e também se quer ser, como este humilde escritor que o Pedro Bidarra descreve e descrevendo engrandece, um desses homens a quem nunca faltem as palavras. Não lhe faltaram nunca e muito menos quando começava a escrever uma das suas novelas. No “Red Wind”, começava assim: “There was a desert wind blowing that night. It was one of those hot, dry Santa Anas that come down through the mountain passes and curl your hair and make your nerves jump and your skin itch. On nights like that every booze party ends in a fight. Meek little wives feel the edge of the carving knife and study their husbands’ necks.”
    E deixei-me levar pelo ritmo da evocação dos portugueses anos 80, e da espera que os habitava, porque me pareceu que nessa evocação havia ecos da primeira linha do Big Sleep: “It was about eleven o’clock in the morning, mid October, with the sun not shining and a look of hard wet rain in the clearness of the foothills.”

    • Pedro Bidarra diz:

      Olha acabei de ler o Long Good-bye escrevi o texto e meti-me num avião para as Américas. A espera (e a esperança) que nos habitava era a de um novo mundo. Foi o que fiz, já que o nosso virou velho e pardacento outra vez.

      ps: a sensação de nunca ficar sem palavras, lembro-me tão bem quando li os Chandlers todos de seguida. O que eu me esforçava por praticar a eloquência

  3. Panurgo diz:

    Nunca li isto. Americano que não esteja no cânone daquela besta do Bloom, salvo uma ou outra excepção, não leio. Vou dar uma vista de olhos no Chandler, pelo sim, pelo não.

    • FC diz:

      Se me permite a sugestão comece pelo Hammett. É mais seco, e abre-lhe o apetite para os outros dois, se bem que o imagine, a si, mais Reservoir Dog, o que diga-se de passagem nada tem de mal. Voltando aos outros, leram-se muito nos anos 80 e depois na época do “porque não” foram-se com as couves ficando as putativas saladas gourmet. Acerca de ler cada vez leio menos, com receio de me fazer mal à vista.

    • Pedro Bidarra diz:

      Como já deu para perceber vai lê-lo de pé atrás e com as expectativas no mínimo. Ainda bem. Acho que vai passar um bom momento.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Como o entendo ou presumo entender no sentimento de reviver a leitura primeira de autor que nos tatua no cérebro frases pertença dos autores que mais dizem no dizer.

    • Pedro Bidarra diz:

      O que vale é que os autores nunca mais acabam e por isso, nestas coisas da leitura, há sempre primeiras vezes.

  5. “Assim que o li decidi que não ia escrever, ia antes viver”. Os escritores que nos incitam a viver são os melhores. Gostei muito. O filme do Altman deste livro não é mau (é uma excepção).

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu, que gosto tanto de filmes, e dos negros, nunca gostei de ver o Chandler, ou melhor, o Marlowe em nenhum. Nem o Bogart no Big Sleep.

Os comentários estão fechados.