A mais bela das mentiras

Kees Van Dongen, Lucie and her partner, 1911, Museu Hermitage São Petersburgo

Partner: Lucie, o grupo de turistas japoneses já saiu. Daqui consigo ver que a sala está completamente vazia, por isso podemos falar. Sabes em que estava a pensar? Na nossa idade. Quantos anos temos, afinal?

Lucie: Vivemos apenas de noite. Desde as 7 e meia da tarde, quando o guarda com bigode farfalhudo fecha as portas do museu, depois de ter verificado, cuidadosamente, se não há alguém escondido numa das salas, até às 8 da manhã, quando chegam as senhoras russas de rosetas no rosto e espanadores na mão, para fazerem a limpeza. Será isso meia-vida? Meia-idade?

Partner: Também já reparei que o tempo não nos gasta como àqueles que nos visitam. Alguns parecem ter pintado os cabelos com tinta a óleo cinzenta, por vezes até branca. Mesmo assim, sinto que já não sou o mesmo.

Lucie: Foi por isso que no outro dia te sentaste no meu lugar?

Partner: Vinha tão cansado de ter dançado toda a noite contigo, que estava mesmo a precisar de uma cadeira.

Lucie: E daquela vez que nos tentámos sentar à Mesa num Café de Picasso…

Partner: O Cubismo não é nada confortável, caí logo da cadeira. Fiquei sobretudo com pena de não ter bebido um copo de Pernod.

Lucie:  E aquela tarde em 1965, em que te esqueceste de falar baixinho e a guia do museu ouviu uma voz a sair do quadro e franziu o sobrolho?

Partner: Tens cá uma memória. Às vezes, a partir das 6 da tarde, já não sei bem o que hei-de fazer para me manter concentrado. Há olhares que fazem cócegas.

Lucie: A mim, certos comentários dão-me vontade de espirrar. Felizmente, os humanos têm uma faculdade chamada imaginação e ela serve-lhes de desculpa para acreditarem em quase tudo.

Partner: Por falar em imaginação, tenho saudades do Kees e da tristeza que ele trazia escondida nas mãos.

Lucie: Sim, mas não te esqueças como ele era louco por dinheiro. E por mulheres.

Partner: E gostava de mentir. Estava sempre a inventar dados para a sua biografia. Nele, anarquista rimava com narcisista. E como dizia aos amigos naquelas soirées em Paris, a pintura era a mais bela das mentiras.

Lucie: Foram as mãos dele que nos deram vida.

Partner: Primeiro pintou-me a mim e durante aqueles dias senti-me tão sozinho. Pensei que não ia ter companhia, mas a esperança nasceu quando me colocou uma laranja na mão. Devia haver alguém a quem a oferecer.

Lucie: No dia em que nasci, comecei por ser uns olhos. Desde o primeiro dia que vejo a laranja de lado.

Partner: E depois, quando ele te pintou  e o teu coração começou a bater, parecia que estava a ouvir o meu em estéreo. Demorei algum tempo a habituar-me.

Lucie: Ainda hoje, quando me assusto, o meu coração bate tão alto que parece que se ouve na sala dos Impressionistas.

Partner: No dia em que o nosso criador morreu, só conseguimos chorar à noite, para não desbotar o quadro. E nem sequer fomos ao funeral dele, no Mónaco.  Iam logo pensar que o quadro tinha sido roubado e depois, quando reaparecessemos, nunca mais iam tirar os olhos de cima de nós.

Lucie: Diz-me, não tens frio? Já reparaste que estou vestida com cores marroquinas?

Partner: Não admira. Nesse ano, ele tinha visitado Marrocos e Sevilha. E quando nos pintou, não imaginava que acabássemos na Rússia.

Lucie: Em São Petersburgo neva muito. E ainda por cima estamos instalados no Palácio de Inverno. A ti não te faz diferença porque apenas a tua gravata tem cores marroquinas. Mas dentro dos quadros de Gaugin deve estar-se melhor. Lá  fazem pelo menos 34 graus.

Partner: Mesmo assim não nos podemos queixar. Olha que os Banhistas ao ar livre de Cézanne estão bem pior. Ou os personagens completamente nus de A Dança, do seu velho amigo Matisse. Lembras-te como eles se entendiam bem?

Lucie: Só não estavam de acordo nas cores. Nisso, o Kees continuou sempre fiel à realidade. Sabes, havia alturas em que tinha receio dele. Por vezes as pinceladas eram violentas, de tão espontâneas, para evitar contornos ou sombras.

Partner: Quando pintou a laranja foi bastante cuidadoso.

Lucie: E tu já a deixaste cair ao chão.

Partner: Isso ainda foi no século XX. Passámos o dia em sobressalto, a ver se ninguém dava por isso e no dia seguinte fomos ao mercado logo de manhãzinha, antes das senhoras da limpeza chegarem.

Lucie: Ainda pensámos em colher uma do quadro de Cézanne, mas por azar ele tinha apenas maçãs, peras e uvas.

Partner: Nos dias seguintes, houve visitantes que sentiram o cheiro da laranja. Volta e meia, fico com  a mão dormente de segurar a laranja há mais de 100 anos.

Lucie: E eu, a vontade que tenho de abrir o livro que seguro nas mãos e de continuar a minha leitura. Pedi ao Kees para não colocar qualquer indicação na capa, assim sempre posso ir mudando de livro sem ninguém dar por isso. E ele disse-me apenas que os livros que lesse, pela vida fora, deviam ter sido editados entre 1910 e 1911. Assim, vou alternando a Casa de Bonecas, de Ibsen, Novembro, de Flaubert,  O Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce, Os Poemas Escolhidos de Rilke e Os Extraordinários Casos de Sherlock Holmes, entre outros.

Partner: Nessa altura até tentei roubar o cachimbo branco ao Fumador de Cézanne.

Lucie: E como não conseguiste, por sentires uma estranha resistência, ficámos sempre com a suspeita de que talvez ele também tivesse vida, como nós.

Partner:  Gostava de ter um nome próprio, como tu. Mas não, sou o partner de Lucie. Quando muito, Le danseur, como diz a legenda francesa para nós nos livros de história de arte que estão na biblioteca do museu. Nunca um nome. Até o gato que tens aos teus pés e que jamais aparece no quadro tem nome. Chama-se Fauve, não é? Ainda náo percebi como essa pequena fera veio parar aqui.

Lucie: Saltou-me de dentro de um livro da Colette, Le Vagabond, logo da primeira vez que o li.

Partner: Então não percebo como ele quer continuar aqui. Às vezes sinto-me um animal enjaulado no jardim zoológico.

Lucie: Há quem diga que o museu é uma espécie de prisão. Achas que somos escravos?

Partner: Talvez meios-escravos. De noite gozamos de uma liberdade indescritível. Daquelas raras, que tem o dom da invisibilidade.

Lucie: Vivemos uma escravatura subtil, que resulta de uma aparente bondade. São aqueles que nos compreendem que nos tornam seus escravos. Por isso, sou tua escrava. E tu, meu. Somos a meia laranja um do outro. E, a partir de hoje, vou chamar-te Joe.

Partner: Gosto do nome. Lucie, se houvesse uma mão para corrigir o nosso mundo, o que lhe pedirias?

Lucie: Joe, falamos sobre isso logo à noite, quando sairmos para jantar.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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10 respostas a A mais bela das mentiras

  1. curioso (comprido) diz:

    Nada curtas… já vi este quadro em qualquer lado 😉

  2. Maria João, desde a Arca Russa do Sokurov que não era levado numa visita guiada tão estimulante ao Hermitage.

    • Ivone Costa diz:

      A Arca Russa! Muito bem pensado, Diogo, já nem lembrava de ter visto esse filme de que gostei tanto. A velhice anda a dar-me cabo da memória que era o meu orgulho. 🙁

  3. Maria João, fiquei tão contente com esta tua “tela”. Pintas tão bem que sabe a naif. Só me apatecia ser um arlequim do picasso para andar ali a enredar.me na meia-laranja.

  4. Ivone Costa diz:

    Maria João, fartei-me de gostar deste diálogo, logo eu que gosto tanto de diálogos.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Excelente paleta das ideias feitas palavras. Pintura outra, sendo a mesma, constituiu o todo.

  6. Rita V diz:

    apanhar o primeiro avião para ainda os apanhar no café

  7. curioso (apanhado) diz:

    p’ra inda o zapanhar sentados 😉

  8. nanovp diz:

    Uma pintura cheia de vida, uma historia dentro da pintura, e laranjas à mistura. E fiquei a saber que o Cubismo é inconfortável, mau para assento…

  9. vasco diz:

    Finalmente aquilo de que eu suspeitava. Que ali havia um gato.
    Muito bom.

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