A posteridade

“Não havia escola, nem cinema, nem teatro”. Xavier Camps e os amigos, protegidos pela impunidade dos 15 anos, acorreram aos Jardinets de Gràcia, em Barcelona, para ver o avião alemão que, abatido, se oferecia como espectáculo de bairro. Corria o ano de 1939 e a Guerra Civil, de Franco e republicanos, voara já, e em piloto automático, para o fim mítico e shakespeareno. Xavier e os amigos buscavam aventura e a palpável proximidade com as “metralhadoras, balas e bombas” que na sua imaginação enchiam a carlinga do alado monstro germânico.

Coincidiram, nesse dia, nessa hora, com a câmara de Robert Capa que sobre eles disparou com suavidade e discrição, ferindo-os para a eternidade. As fotos de Capa estiveram perdidas 69 dúbios anos. Guardou-as com nobre reserva o general mexicano Francisco Javier Aguilar González. Descobertas em 2008 e apresentadas então pelo “NY Times” e pelo “El Periódico de Catalunya”, as imagens de Capa reencontraram-se com os fantasmáticos protagonistas que, em 39, correram pressurosos aos Jardinets de Gràcia e aos despojos que caíram fulminados do céu.

Uma vida depois, Xavier recorda o orgulho e ousadia que, nesse dia, o fizeram avançar para uma posteridade que a estatura tímida e a deselegância de umas calças largas e de mau tecido não podiam adivinhar.

Poderia acontecer a qualquer um de nós? Poderia ter-me acontecido? Que Capa (e se fosse o local, competente e velho Quitos fotógrafo já iríamos muito bem servidos) terá fotografado o dia em que, sôfrego, vim a correr, com o RA, ao Terreiro do Pó, no Lobito, para assistir ao ataque (a metralha e granada) à delegação da Unita, por uma unidade mínima do MPLA, num só jipinho amarelo (só quem viu sabe de que veículos asiáticos e instáveis estou a falar), comandada pelo JM, que acabou atingido com um tiro na cabeça que o imobilizou por três meses?

Alguém – que outro Capa? – terá em Luanda fotografado a conveniente explosão do jornal “Provincia de Angola”, a que o JS e eu fomos os primeiros (segundos?) a chegar, já passava do recolher obrigatório, e que serviria depois, mutatis mutandis, como acusatório “incêndio do Reichstag” contra a FNLA?

Porque é que nunca ninguém nos avisa de que nem todas as livre escolhas de juventude garantem a música da eternidade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a A posteridade

  1. curioso (nostra damos) diz:

    fosse essa a questão essencial: a música da eternidade está sempre garantida.

    então poderá é ter ritmos e harmonias indesejáveis?

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    As lembranças de cada um e as da humanidade, por isto ou aquilo, invadem o consciente individual e coletivo. Algumas, melhor é deixá-las em repouso, mas outras, ai de nós, questionam e ensinam em qualquer tempo do tempo.

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