Ainda não li 6 mil livros

Eu pensava que era uma leitora compulsiva. Até ler este artigo de Joe Queenan. É verdade que ainda não tenho 55 anos, mas nos 13 que me faltam para lá chegar, jamais chegarei aos 6.128 livros lidos. Lido, lidos. Não estamos a falar de leitura oblíquas ou de rapidinhas, e juro que não me estou a meter com o professor Marcelo. Estamos a falar de ler os livros da nascente à foz, inteiros, com tempo, degustados, sem essa coisa de “ai filha, vai ser tão bom, não foi?!” que me dá cabo dos nervos.

Ler desarvoradamente sem escutar críticos – o que é que eles querem dizer com isso de um “livro luminoso” pergunta o Queenan? Que é um livro de 100 watts, digo eu.

Ler sistematicamente 50 livros seguidos sobre a II Grande Guerra, por exemplo, coisa que o meu Triste Pedro Marta Santos era mesmo capaz de fazer. Já ler a longa lista dos Jules Verne faria logo soçobrar o meu volúvel Manuel S. Fonseca. Tenha a certeza de que a minha combativa Maria João Freitas chamaria um figo a todo o Balzac da Pléiade. E também estou a ver o meu heróico Pedro Bidarra a ler o “Ivanhoe” enquanto o meu sonhador Pedro Norton lê o “Conde de Monte Cristo”.

Mas a um grande leitor nem é o que lê que interessa, é mais onde se lê. Se Churchill lia um livro por dia e fazia a guerra a Hitler, a minha erudita e Triste Ivone Costa até deve ser capaz de ler no meio de um debate sobre o estado da Nação, em plena Assembleia. Atrevo-me a revelar onde lê o meu nordestino e tão Triste Ruy Vasconcelos? Não me atrevo, não, mas Ruy, foi ela que me disse. Já a minha irruptiva Maria do Céu lê sempre num room with a view. E o querido António Eça leu na selva com uma cobra ao pescoço.

E do que é que gosta quem muito gosta? O meu menino Diogo Leote, gostando do que gosta, do que mais gosta não é da edição de bolso do “Código de Processo Civil de 2012“, nem o meu intrépido Vasco Grilo do “Fear of Flying“, ou a minha Teresa Conceição do “Les Journalistes Français Sont-Ils Si Mauvais?

A minha linda Rita Vasconcellos, de tanto gostar de imagens, até era capaz de as ler “TinTin” num green a jogar golf. O meu poético Bernardo Vaz Pinto, numa exaltação de Ginsberg, leria os poemas de Eliot numa jam session da família Marsalis. Oh, e a minha Triste e versátil Sandra Barata Belo contracena consigo mesma, lançando o “Hamlet” contra o “Godot“.

Já sei, vou ter protestos. Que fui injusta e lailailai. Fui. Protestem em posts muito bem escritos. Digam, meus caros Tristes, o que sobre Livros – quantos têm, onde os têm, se os compram, se os oferecem, os que odiaram, os que  adoram, onde os lêem, quando os lêem – haja para ser dito.

E para não estarmos para aqui a falar sozinhos, desafio a Eugénia de Vasconcellos a fazer o mesmo no seu Cabeça de Cão, o indecoroso Panurgo no muito dele Anjos e Prostitutas e o Pedro Correia no Delito de Opinião.

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.
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22 respostas a Ainda não li 6 mil livros

  1. Eu dou-lhe o Jules Verne,ahgrrrrr. Vê-se bem, que não me conhece. Mas fique descansada que não perde pela demora.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Irruptiva, sim. Rendida a literal ‘room with a view’, também. Magníficas conclusões. Todavia, segredos acerca dos hábitos e gostos da Maria do Céu enquanto leitora, mais tarde a Triste dirá.

  3. Panurgo diz:

    Se ainda pagassem um copo. Do bom.

    • Escrever é Triste diz:

      Panurgo, don’t de so stiff and tense, be a good sport. Vai ver que logo tem do bom. Presunto, claro, pata negra.

  4. Ivone Costa diz:

    Tia! E posta-me assim, a mim mísera e mesquinha, a ler na Assembleia?

  5. tia, você sabe onde manel lê?
    será que eu digo¹ ou há alguém de menor entre os autores e leitores?

    ____________
    ¹ E se disser, é preciso acrescer detalhes etnográficos d’Angola e tudo mais: aquele procedimento ritual e levemente afrodisíaco dos Mumuilas…

    • Escrever é Triste diz:

      Sobrinho, meu sobrinho lindo, conte tudo que eu não sei de nada. Vou já buscar o bule e as compotas…

  6. curioso (sem pio) diz:

    pois é… fui ler o Panurgo e … gostaria de assinar por baixo (mas não me atrevo): reagiu como se um deus fosse atacado! dixit: é obra! só faltou citar o Dante

  7. Não sei ao certo quantos livros já li. Vou apontar um número redondo que está seguramente abaixo do número exacto: 3000*. Com 31 anos. E nos últimos tempos não tenho lido quase nada, consequência da crise, primeiro, e de me ter mudado para a Suiça, depois… Se tiver tempo e dinheiro, ainda hei-de bater esse número do Joe Que­e­nan. Quanto a ler sistematicamente, li 50 livros da Agatha Christie…

    *Neste número não entram os livros de Banda Desenhada, porque então o número teria que subir mais uns 300.

    • Escrever é Triste diz:

      André, vai muito bem lançado., Quando bater o Queenan diga-nos!!! Obrigado pelo comentário

      • Tendo em conta o desaceleramento dos últimos 2/3 anos, começo a perder terreno… Não é por falta de vontade (a lista dos que quero ler é enorme; uma pequena amostra: http://thoughloversbelostloveshallnot.blogspot.pt/2012/10/101-livros-que-ainda-nao-li-e-quero-ler.html ) é o cansaço, e a falta de tempo, e de livros… Neste momento acabou-se-me o stock de livros que trouxe de Portugal no Verão – e ainda falta um mês e meio para me ir «reabastecer». Ler em Francês ainda é um processo bastante demorado… e prefiro o Português a qualquer outra língua – embora o AO me dê a volta aos intestinos, ainda vai havendo muitas obras publicadas como deve ser…

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