Brandos Costumes

 

Sei de um país onde, há pouco mais de cem anos, numa “tarde linda, azul, morna diáfana”, um “homem de barba preta”, professor do 1º grau de instrução primária, e “um homem do estribo”,  antigo empregado de comércio, assassinaram, a sangue frio, o chefe de um Estado em muito mau estado.

Sei de um país onde os revolucionários são assassinados por doentes tresloucados, antes ainda de fazerem a revolução. Sei de um país onde os revolucionários se suicidam, antes ainda de terminarem a revolução.

Sei de um país que fez da República Velha uma revolução contínua. “Actos revolucionários, sediciosos, pronunciamentos, golpismos, intentonas, inventonas, efectivas ou potenciais”. Sei de um pais cuja I República fornece “exemplos para quase todos os tipos de golpismos insertos nos manuais, desde os que ocorrem sem efusão de sangue, aos que atingem o nível do morticínio”.

Sei de um país em que um major se fez Presidente-Rei por meio uma revolução sangrenta que deixou no chão uma centena de mortos e mais de quinhentos feridos. Sei de um país onde Sidónio, “Presidente da República, pela vontade do Destino e o direito da Força”, se aguentou um único ano “à tona do caos português”. Sei de um país que, por esta altura, assassinava um Chefe de Estado a cada dez anos.

Sei de um país em que catorze governos no espaço de 3 anos acabariam por desembocar, numa noite sangrenta de Outubro, nos assassínios do Presidente do Governo e do próprio fundador da República.

Sei de um país que dispensou a democracia a 28 de Maio e que, “em Junho, foi alegremente aplaudir Gomes da Costa à sua, muito sua, avenida da Liberdade”.

Sei de um país que, logo depois, fez o Reviralho e montou a guerra civil em pleno coração do Porto. Sei de um país que, em escassos quatro dias, espalhou centenas de mortos e milhares de feridos  entre a Praça da Batalha e a Serra do Pilar. Sei de um país aos tiros, no Castelo, na Madeira, nos Açores, na Guiné e que só em Lisboa, num fatídico dia de 1931, da Rotunda às Avenidas Novas, das Amoreiras às Laranjeiras, junta mais quatro dezenas de mortos à estatísticas do morticínio.

Sei de uma ditadura feita de PVDE, de PIDE, de DGS, de repressão violenta, de torturas e de assassinatos políticos. Sei de um campo de concentração eufemísticamente apodado de colónia penal onde terão morrido, “de morte lenta” várias dezenas de opositores do regime.

Sei de um país que fez uma guerra em África de que ainda não terá contado, com rigor, todos os mortos. Provavelmente menos ainda os feridos, os estropiados, todos quantos não mais deixaram de ter perturbações psíquicas. Sei de um país que só em Wiryamu terá deixado mais de quatrocentos civis mortos, entre os quais muitas mulheres e crianças.

Sei de um país com revolucionários que sonharam encostar à parede ou mandar para o campo Pequeno “umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença”. Sei de um país em que heróis da revolução se fizeram terroristas com provas dadas.

Sei de um país que, contra todas as evidências históricas, continua a julgar-se de “brandos costumes”.  Sei de um país que, uma vez mais, vive tempos perigosos. Onde o desencanto é geral, a desesperança absoluta, o futuro, dir-se-ia, é coisa do passado. São tempos que deviam convocar-nos, humildemente, a aprender com o passado. E a primeira lição talvez devesse ser a de reconhecer que não há, na mitologia portuguesa, mentira mais perigosa do que a fábula dos “brandos costumes”.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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15 respostas a Brandos Costumes

  1. Rita V diz:

    este texto Pedro de brando não tem nada

  2. Pedro Norton diz:

    Não é o texto, é o país. Mas por alguma razão estranha gostamos de acreditar em mitos.

  3. Brandos ou não, para o mal e para o bem, os costumes são do pouco que resta que ainda é nosso. Pelo menos lembram-nos que ainda somos um país.

  4. Panurgo diz:

    «Sei de um país», calma lá. Sabe de uma gente, sempre a mesma, que há 170 anos mais não faz do que destruir esse mesmo país. E, quer dizer, cem mortos é carnificina em algum lado? O Reviralho, um movimento de canalhas, era coisa que se visse? Um milhar de mortos, se tanto, em três anos? E se o pais dispensou a Democracia, atendendo a todas as evidências, não fez bem? Fez uma guerra em África, mas quem é que começou por lá a fazê-la? Quem é que ofereceu uns quantos milhões de dólares pelo nosso território? E quem é que lá foi aguentar a guerra? Sempre os mesmos, os filhos dos pobres. Quer comparar essa juventude com a minha? Esta que quando se indigna vai passear a Lisboa, fumar charros e embebedar-se, e na semana seguinte está às portas da Vodafone, em fila ordeira, para comprar o Iphone 5? Presta para alguma coisa esta gente? Quem é que, exceptuando meia-dúzia de lunáticos onde eu me incluo, acredita verdadeiramente que isto só lá vai com uma matança à nórdico? Com o pregar dumas estacas no Marquês, dar a volta à rotunda, e espetar bem alto os responsáveis pelo desespero de um povo inteiro? Estão quase todos por ali… Não era justo?

    Bom, a não ser que em lugar do mito dos “brandos costumes”, estejam a preparar o mito dos “bravos costumes”. Sempre é mais uma desculpa para um sacrifício aqui e ali. Se for isso, pronto, ao menos percebe-se. Não há nada a temer.

    • blimunda diz:

      ora aqui está um bom exemplo dos nossos brandos costumes… quem deseja uma guerra civil? não a quero no meu país! para aqui chegarmos demorámos tudo isto que está descrito, e bem, neste post. voltar a pegar em armas, nunca!
      porque morte, é morte, seja de um seja de mil, Panurgo, e o tamanho de um país também se mede por essa dignidade, a da paz!

        • A ideia de que um povo seja geneticamente qualquer coisa, brando, violento, preguiçoso, burro ou inteligente, sempre me fez espécie. Ou seja, estou de acordo com o PN. Mas a sistematização do Pedro mostra um histórico em que se percebe que somos de rompantes. Ou seja, por vezes matamos de sopetão, depois vem uma grande acalmia. No campeonato da matança estamos muito cá para baixo.
          Agora, gostei muito da proposta de matança do Panurgo. Espero que, como na matança do porco, se comam umas febras frescas, acabadinhas de cortar e, à noitinha, umas papas de sarrabulho. Há que alimentar a audácia.
          Sublinho que os Telettubies, juntamente com o Dragon Ball, são uns dos meus humildes contributos para a educação dos infantes. Da melhor bonecada que já se viu…

          • Panurgo diz:

            Não percebo a polémica. Não se trata de uma guerra civil, ou de um holocausto nacional. Somente o empalamento dos vários responsáveis pelo tal desespero nacional. Há nomes em tudo e em todos. Eu não estou nada de acordo com a leitura do Pedro Norton. Primeiro, não estou convencido de que alguma vez tenha ocorrido por aqui qualquer coisa a que se possa dar o nome de Revolução, e, a ter havido, foi sempre financiada por estrangeiros. Isto pelo menos é indesmentível. É uma mania nacional, a prostituição do território.

            Então é a si que lhe devo uma quantidade de faltas injustificadas. Passar o Dragon Ball às cinco e meia da tarde não lembra o diabo, caramba.

            (E também lhe devo ter andado a vasculhar as fotografias que o meu pai trouxe de África, a ver se as consigo publicar, era no post lá em baixo, mas já que aqui estamos.)

            • Manuel S. Fonseca diz:

              Panurgo, se é só para empalar, vamos a isso. É que nem é preciso tirarem as calças. Vai haver umas discussõezitas sobre quem é que se deve empalar (é como tudo, há uns que caem em graça e há outros que são mesmo desengraçados) mas que se lixe.
              Não o sabia tão novo que até Dragon Ball. Também gostei pecaminosamente da coisa, mas o GT já não era tão bom.
              Venham de lá as fotografias…

              • Panurgo diz:

                E não era justo fazê-los pagar por aquilo que fizeram?

                Um desgosto. Estar vivo aos 27… não cheguei a rock star.. um falhanço tremendo. Agora, nem com bolas de cristal.

                Vou ver das fotografias.

  5. curioso (acomodado) diz:

    é isso aí: 1 morte já é demais.
    há outras forças, havendo vontade e coragem: aqui é que vai havendo brandura excessiva, acomodação.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Síntese do ido, do presente e dum futuro mais que possível. Li e reli.

  7. O eco de umberto diz:

    Justíssima apreciação. E se disserem que isto foi muitíssimo brando se comparado com o que se passou para lá dos Pirinéus em igual período de tempo, sempre se pode recuar a cronologia, pelo menos até 1820.

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