Carangueja

 

Os velhos e os gatos fazem uma boa associação. E o Outono também.

Chamavam-lhe Carangueja.

Mora num 2º andar de um desses prédios velhos de Lisboa. Divide casa com a Dona Luísa, outra velha como ela. Como ela não será o mais apropriado. Tão velha quanto ela. Mas as duas velhas são bem diferentes uma da outra. O Sol e a Lua. Para além da velhice só o facto de serem viúvas as une.

Para uma senhora do antigamente, a Carangueja esteve em muitos países. Trabalhou na Rússia como empregada doméstica e por isso odiava todos os comunistas do mundo. “Obrigavam-me a lavar a roupa no tanque, ao frio e à neve. Ficava com as minhas mãozinhas cheias de feridas. Filhos da puta dos comunistas”. Foi artista de variedades nos palcos de Roma. E em Madrid namorou um toureiro. Mas as mezinhas com que se tratava aprendeu-as com a mãe na aldeia onde nascera, algures no norte do nosso país.

Para os bicos de papagaio dos dedos das mãos punha num trapo, alecrim esmagado com sal do mar “do verdadeiro” e enrolava a compressa aos dedos. Quando tinha muitas dores nas costas entornava azeite quente para uma toalha e colocava em cima dos ombros.

À noite, a altas horas da madrugada é costume vê-la sentada na paragem de autocarro. Assim, como quem está à janela a ver quem passa.

Tal como outras velhas de Lisboa a Carangueja também tem sempre muitos sacos. Cheios de nada, presumo. Costuma fazer as suas compras na cantina dos policias, “é mais barato”. Ao fim de semana vende na feira da ladra as roupas que sobraram de Itália. “Roupas boas, de boa qualidade. Olhe pra esta qualidade, menina. Disto não há cá. Isto veio de Itália. Só o vestia nos espectáculos.”

Quando eram jovens ela e o falecido marido costumavam ir apanhar caranguejos para a doca. Ela arranjava-os e depois vendia-os para tascas e restaurante da zona ribeirinha. Com sorte, também saiam da doca com Camarão de Espinho. Ás vezes eram arrastados para o Tejo pelas correntes. “Se estivéssemos no sitio certo na maré certa, deixavam-se apanhar.” Podia ter sido apelidada Carangueja de Espinho. Mas ficou só Carangueja.

O marido morreu cedo e viúva passou a dividir casa com a Dona Luísa e com o seu marido. Pelo que dizem as más línguas, nas noites de muito frio o também já falecido marido da Dona Luísa ia-se aquecer na cama da Carangueja.

A Dona Luísa é uma velhinha que não ouve bem, mas gosta de falar com toda a gente e de ir aos passeios e iniciativas da junta. Tem muitas amigas, alguma família e muito pouca paciência para os humores e manias extravagantes da Carangueja.

A misteriosa e solitária Carangueja. A Carangueja das sete saias coloridas, das camisas de seda rara e das histórias ainda mais raras. Dos gorros de lã no inverno ou dos chapéus de palha no verão. A Carangueja que cheirava sempre a bálsamos caseiros. Frescos. Ao cheiro, que vinha sempre de dentro de casa delas quando abriam a porta.

 

Aurora das Neves. Morreu sentada numa tarde de outono. Adormeceu. Foi levada pelo INEM e nunca mais ninguém soube nada dela.

O seu corpo deve ter sido esquartejado para contar novas histórias a alunos de medicina ávidos de experiencias.

Não sobrou nada para ser chorado ou comido pela terra.

Agora a Dona Luísa, vive finalmente em paz. Ou não!

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo.
Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte.
interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.

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11 respostas a Carangueja

  1. VICTOR SANTOS diz:

    Aprendi que tudo o que a Sandra B.B. diz, faz, escreve, pensa, etc etc tem qualidade !!! E porque existem diversas formas de amar, posso por isso dizer que eu tambem amo a Sandra B.B. !!!

    • Sandra Barata Belo diz:

      Victor, não sei se serei merecedora de tais elogios. mas fico muito contente por gostar do que faço. obrigada pelas suas palavras.

      • Victor Santos diz:

        Sandra, sou rapaz já para 44 mas espírito jovem …. pelo que seria um presente de Natal substituir o “você” pelo simples “tu”. E podes mesmo ficar contente, porque só costumo apreciar à primeira o que é bem feito. Tudo o resto tenho mesmo que analisar mais vezes. Vais longe, amiga, muito longe, daí a minha persuasão nos elogios, Merecidos elogios !!!

  2. Pedro Norton diz:

    Fiquei a pensar nos sacos. Acho que davam outra história, Sandra.

    • Sandra Barata Belo diz:

      hum… vou ver se os descubro e ás escondidas tentarei bisbilhotar la para dentro. sem que a Carangueja me veja.
      depois conto.

  3. Afinal sobrou alguma coisa para ser contada da anónima Aurora das Neves. E que bem contada foi, Sandra.

  4. Sandra Barata Belo diz:

    ainda bem que gostaste. há mais para contar, tenho que me atrever.

  5. Quem não quereria contar as sete saias da Carangueja, a saia russa, a sia italiana, a saia espanhola, o saiote de Espinho. Bem contado, Sandra. E quem te contou? A surda Luísa ou o velhinho marido friorento?

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    História com vida dentro. O modo de contar, a realidade que é presumida no texto fizeram-me relê-lo. E, a cada leitura, outras leituras achei. Belo momento de escrita.

  7. Há que averiguar se o INEM demorou demasiado tempo a chegar ao local do sinistro.
    Além disso, estamos perante um delito de ocultação e profanação de cadáver!

  8. Manuel Neto diz:

    Muito bem Sandra! Fiquei fan na entrevista que deste no HD, e agora ainda mais, pois confirma-se a inteligência e a sinceridade que demonstraste. Não é meu costume enviar comentários. Mas desta vez teve que ser. Espero que continues como és e que talvez venhas a ser uma velhinha com muitas histórias para escrever. Bjs

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