Como a “Maria Madalena” de Correggio?

 

 

Friedrich Heinrich Füger, Maria Magdalena, Neue Pinakothek em Munique

Vítima de onda de pilhagens após a II Guerra Mundial, desapareceu para mais não ser vista a obra “Maria Madalena” (1522) de Correggio (1489 – 1534). Facto anexo com a serventia de apenas explicar a vaga de cópias que museus do mundo guardam. De todas, seleciono a de Friedrich Heinrich Füger (1751 – 1818), pintada em 1808. Sobre esta versão, o desafio.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

8 respostas a Como a “Maria Madalena” de Correggio?

  1. Tomem lá este brinde que tinha por aqui:

    Andor de Santa

    Sabes por onde andas, santa?

    Pisas terreno movediço

    e a devoção é tão segura quanto instável.

    Homens carregam-te,

    mulheres choram e cobiçam-te.

    És a eternidade e a bruta ferida

    do desejo ausente.

    Santa de caruncho

    Roupa rota, saias levantadas.

    Santa sem vergonha de ser santa,

    e sem vergonha alguma

    que apague a santidade.

    No andor, todos se submetem,

    é doce a ilusão do abandono,

    mesmo a uma santa desviada.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Desviada e encontrada. Bem achado!

  3. curioso (carun chado) diz:

    coisas de gente morta?

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Acha? Para mim estão vivos e dialogam connosco.

  5. curioso (mas vivo) diz:

    prefiro as de carne e osso 🙂

    a ‘gente morta’ era uma memória ligada à Marta 😉

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Esclarecida, obrigada.

Os comentários estão fechados.