Corredores

Fotografia de José Ricardo Costa

– E esta?

Sorriu, a antecipar a admiração.

– É o corredor em frente à cozinha, em dia de limpezas. Olha aqui: as cadeiras todas alinhadas.

Ninguém diria. Até parecia empedrado de igreja antiga, nave estreita com sombra de sacristia.

– Mostra lá as outras, tio.

Realmente, juntando todas as fotografias como que a compor um puzzle, o referente revelava-se inequívoco.

– Isto tem piada. Cada uma diz da parte, não diz do todo.

Atirou para trás a cabeça, a rir.

– Ah, ah! Agora tenho um sobrinho medievalista.

– É só uma incursão passageira, para desanuviar. A propósito: vou entregar o trabalho do Schopenhauer no final do semestre. Podias dar-me uma ajuda? Está a ficar muito repetitivo.

– Como convém, não é? – e voltou a rir, de cabeça atirada para trás.

Continuaram, depois, na caixa das fotografias. Margarida tivera, desde sempre, uma predilecção pelo fraccionamento do espaço. Não que fosse para o ver melhor, nada disso. Aquela atomização tinha um outro propósito, incompreensível para muitos que lhe olhavam as fotografias com a tolerância que se oferece aos excêntricos em quem se descortina uma asa de génio: quis sempre mostrar que a ínfima parte de um todo dele se podia libertar e criar uma nova realidade. A fotografia da bainha do avental da Lúcia era o melhor exemplo:

– Saia-me daqui, valha-me Deus! Não vê que tenho que fazer?

Não. Via apenas o recorte do avental e o que poderia ser visto depois de ser visto só o recorte do avental. Deu-lhe sombra e esfumou-o, mostrou-o de novo em luz e contraluz, grande, e era reposteiro de palácio decadente e era uma memória doméstica ou um segredo. Talvez por isso, um homem alto e sozinho tinha ficado tanto tempo parado na frente da fotografia na inauguração da exposição. Margarida fotografava como se despertasse o que os outros nem sabiam que neles dormia.

– Mas há muitas destas do corredor. Caramba, parece mesmo o chão de uma igreja. E é engraçado: há aqui muitos corredores. Ah! O arquitecto! Ó tio, como é que isso foi?

Foi mau, rapaz. Mau para quem ficou e mau para quem guardou. Há nas histórias de família uma moralidade de mise-en-garde que convém preservar, ainda que doa a quem se faz guardião de meia dúzia de pequenas tragédias a dar de exemplo a quem tenha tendência para pôr pé em ramo falso.

– Mas ela não percebeu?

– Para as mulheres como a tua tia, a matéria de que os homens são feitos é a pura imaginação delas. E não abdicam disso.

– É uma boa história, tio. Pena não saberes como acabou.

– Uma boa história não acaba. Deriva.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Corredores

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Das caixas de fotografias saem catedrais misteriosas, avenidas inteiras.

  2. nanovp diz:

    uma boa historia nunca acaba…eu acho que continuam sempre, e no fundo todas as boas historias são no conjunto uma enorme HISTÓRIA …como os quadrados nos corredores são os quadrados de todos os corredores…

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Peregrinação que fez o meu contentamento.

  4. Rita V diz:

    deriva entre partes
    neste caso ‘submergem’ de uma oxirredução.

  5. curioso (químico qb) diz:

    que dirá disto a Maria?

Os comentários estão fechados.