Despacho breve

Olhou os guindastes e os trolhas que lhe construíam novas paredes. O sobe e desce dos ferros. Mudança em frente. Que os móveis ficassem enquanto ela partia. Criar sítio novo. Casulo. Levar as telas, esculturas e cerâmicas. Fotografias de família que desemolduraria. Trapos, adereços e calçado. Álbuns e livros. Pouco mais. Com parcimónia, rechear o apartamento branco. Pintá-lo com sedas e musselinas. Talvez limas e ameixas. Talvez o fúcsia sintetizado pelo Leonhart Fuchs.

No minimalismo, reviver Elsa Schiaparelli e a rivalidade com Coco Chanel entre as duas guerras que rasgaram o mundo. Lembrar Dali, o vestido com lagosta impressa, o gigantismo do chapéu em forma de sapato. Arrojos idos e vindos. Fúcsia – a cor das meias dos toureiros, símbolo que rejeitava da Ibéria. Fascínio pela indecisão entre rosa, lilás e encarnado, pela conjugação de arte e ciência. Provocação que Yves Saint Laurent retomara e a seduzia ao rever na pantalha das memórias o laço imenso debruçado na Torre Eiffel.

Apeteceu-lhe abandono nos braços férreos do guindaste ali tão perto do aeroporto. Que a levasse e depositasse no ‘seisièmme arrondissement’. Em vez de trolhas, a Eiffel em fundo. O fúcsia enlaçado. O rio estrada de barcos-moscas com turistas em busca dos recantos e símbolos de Paris nas bordas.

Despedira o Santiago com habilidade. Evitara a “minha ou a tua?”, o “deixas o teu e levamos o meu, ou o contrário? Por mim, esteja contigo, as coisas não têm valor.” Estava certa de si: nem apetite, nem sentimento. Poisou-lhe um beijo flor nos lábios. Abreviou o fim sem entremeio de coxas, sussurros e gritos. Lembrou outra mão que um dia lhe amordaçara a boca, não fosse escândalo para os vizinhos a banda sonora do prazer. Ele menos livre que ela julgara. Preso a conveniências.

Por esse tempo, a janela larga sobre o Sado era fronteira de vícios inconfessados quando a noite chegava. Adivinhados. Depois, confessos. Ela ensaiara fuga vezes demais. Sem êxito. Atravessava a ponte e volvia sempre ao Sul perto. E não o queria, querendo. Guerrilha longa demais.

O Francisco dera-lhe mão e afeto que a puxara do inferno – carne e sentimento – pelo simulacro de amor que para si ela inventara e ele desesperava. Tão fácil mentir a quem era! E fora amante e apaixonada do Francisco, fizera planos _ vida junta num dia longe, porque não? Mas soubera da verdade que a mentira dele provou. Deles fez réu num processo sem delongas no tribunal dos sentimentos que acomodava. Quando a consciência era fogo esperto, recorria ao mesmo tribunal e fazia despacho breve.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Despacho breve

  1. curioso (indi gesto) diz:

    obriga a um primperam 🙁

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Água morna açucarada faz o mesmo efeito vom a vantagem da isenção de químicos. 😉

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas que pronto despacho. Santiago é despedido com provada habilidade. Quem estará agora à larga janela sobre o Sado?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Gosto de imaginar mulher suave debruçada na janela. Que respire tranquilidade.

  4. ai não sei … há trolhas e trolhas

  5. curioso (a do çado) diz:

    mas se o mal já era a falta de química… 🙁

  6. curioso (a cer tou) diz:

    @ Rita Roquette de Vasconcellos diz:
    Outubro 9, 2012 ás 11:33
    ai não sei … há tro­lhas e tro­lhas

    yeah! namouche! My nam easy namouche 😉

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Trolhas/trouxas outros.

  8. curioso (re agente) diz:

    a Química não tem as culpas todas 😉

Os comentários estão fechados.