Eram hortas, Senhor!

Eram hortas, Senhor, eram hortas servidas por abrigo improvisado de alfaias modestas para agricultura de primícias e outra de sobrevivência. Em quase todas, o zelador instalara em solos desocupados pelo betão memórias do passado rural antes de ser transplantado para o trabalho escravo em Lisboa. Habitando perto e sendo ameno o tempo, três ou quatro dias por semana regava, subtraía ervas daninhas, um nico de adubo que não estragasse a pureza do que terra fértil produz. Na altura da colheita, diria orgulhoso: _ cultivado pelas minhas mãos e sem as porcarias do vendido nos superes. Ao sétimo dia, zelador e «esposa» retiravam da casita feita de chapa e madeiras velhas cadeiras bancas e descansavam.

No estio, dos assentos protegidos por guarda-sol enferrujado nas bordas viam o domingo dos outros. Zumbiam automóveis na via rápida a dois metros como se receassem que a praia ou o ‘passeio dos tristes’ fugissem. O casal era feliz gozando a beleza verdejante da horta que espantalho enfeitava mais que cumprir a função de proteger o que crescia empoeirado. Conversavam sobre a vida, sobre o deixado para trás: _ como estará a prima Justina? Será que o neto já nasceu? É verdade que a horta dela no Freixo é maior, mas olha que cuidada como a nossa não deve estar. Hoje, só nos faltam os netos. Gostam tanto de vir para aqui os meninos! Mas deixa lá que também merecemos estar sozinhos depois da semana a tomar conta deles. Chegada a hora de voltar a casa, eram arrumados os pertences, colhidas alfaces e tomates, feijão-verde e ameixas. Dariam para sopas e acompanhamentos.

Bill Fogé

Nem dois anos passados, o desemprego empurrou o filho, a nora e os petizes para o apartamento na Ajuda onde viviam os pais. Paredes com quarenta anos sem terem visto tinta que as alindasse, uma sala, uma casa de banho em que lavrava a ferrugem, dois quartos exíguos, cozinha para estrelar um ovo de cada vez. Lá se enfiaram como foi possível, misturaram os tarecos das duas famílias. A breve trecho, a coabitação forçada deu em discussões pelo tudo em falta, pelo nada de esperança. Ida a paz, vinda a míngua rezingona.

Os pais, temendo o pior na família do filho, pelos netos e por cansaço de fim de vida tão custoso, com lágrimas optaram por habitar a casa da horta. Uns arranjos – telhado mais sólido, duas janelas encontrados nos desperdícios de remodelações, alfaias a um canto, móveis no outro – e o espaço tornou-se habitável. Vizinhos da horta, aos poucos, pontapeados para o mesmo. Nem um ano mais, e, feito de tristeza, bairro de lata viria a nascer no lugar onde felicidade morara.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags , , . ligação permanente.

8 respostas a Eram hortas, Senhor!

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Passo a passo, horta a horta, para um amanhã que não canta…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Bem clama Helena Roseta contra este retrocesso social enquanto a insensibilidade de cima inaugura alegremente novos bairros de lata.

  2. curioso (horteão) diz:

    grão a grão a galinha vai deixar de pôr ovos… vêm da China, para n0$$0 des contentamento

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    “Escrever é triste”, ainda mais quando parte da nossa realidade é descrita.

Os comentários estão fechados.