Fala de Ofélia a John Everett Millais

 

Este vestido tumular

puxa-me para certeza do fundo,

onde adormecem as raízes

e os restos da vida.

Oiço vozes distantes

mas sei que o silêncio avança.

O reino da Dinamarca

faz-se uma terra de espectros.

Só eu vivo –

na tela dos pintores

sobre águas paradas

entre flores que apodrecem.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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2 respostas a Fala de Ofélia a John Everett Millais

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Não se admire, Ivone, que lhe apareça, arrebatado, o Pedro Marta Santos, my dear young master Peter, a resgatá-la das telas desses efeminados pintores pulverizando-lhe o tumular vestido, só assim a despindo para depois, a sedas, melhor a vestir, está claro. Temo que tenha despertado o mais pré-rafaelita dos dragões…

  2. Ivone Costa diz:

    Convém que a vista de seda, sim. Consta que o vestido que a Elizabeth Sidall vestia, enquanto o Millais a pintava de Ofélia, era tão pesado de bordados a prata antiga que a pobre se ia afogando na banheira e nas flores. Pré-rafaelismos e pneumonias … 🙂

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