Filmes-Orfãos 1: “Trouble in Mind”

“Trouble in Mind”, somewhere in time

Há filmes que ninguém defende. São filmes sem-abrigo, ao relento, expostos aos elementos. Frágeis. Prestes a morrer. Há muitos filmes assim. Os filmes-orfãos estão sempre em vias de extinção. São invisíveis aos sentidos. Indefensáveis. É deles que mais sinto falta.

Um filme pode ser grande como o Evereste. Incontornável como um glaciar. Bruto de bom, brutal. Mas um filme ultrapassa o juízo, corre por fora do gosto, ri-se dos amores, cola-se a nós como tatuagem diabólica, finge que se insinua, troça da nobreza. É.

Ninguém sabe porque um filme é. A origem não importa. Ou a autoria. As imagens que nos atormentam, as imagens que não nos deixam, renegam a origem. Insistem, quebram os moldes. Ficam. Sem se importar connosco. A memória não tem selo de qualidade, ou filiação. Simplesmente existe. Não adianta lutar. Não lembramos porque é Antonioni. Ou Hawks, e Straub. Lembramos porque o momento agarrou-nos. Na inutilidade da luta, no mais puro desprezo do intelecto. A arte não é imperativa. Não existe para além de nós, ou para nossa salvação. A arte é uma necessidade inconsciente, está lá.

As imagens mais bonitas são as que aparecem primeiro, as urgentes. Não interessa de onde aparecem. São nossas, na via ápia do passado, na via verde do futuro. Não lhes imponham portagens, é inútil.  Os filmes de que mais gosto são os filmes abandonados. Filmes-orfãos.

O primeiro de que me lembro – não há razão, não tenho razão – é “Trouble in Mind”. Fez vinte e sete anos há pouco tempo (tem menos dezassete do que eu, tem mais treze do que a minha afilhada, é a vida). Foi realizado por um filho bastardo de Robert Altman chamado Alan Rudolph, e gosto mais de Rudolph do que do pai. Rudolph faz setenta anos em 2013, e não dirige nada há uma década – talvez um descapotável, entre a Califórnia e o Novo México. Os seus filmes padecem da mais crónica doença do cinema: a inocência do romantismo (e, já agora, o romantismo da inocência).

“Made in Heaven”

No pior, são diegeses de trazer por casa (“Welcome to L.A.”, “Mrs. Parker and the Vicious Circle”, “Breakfast of Champions”). No melhor, têm a vertigem sã do mudo, puxam pela inconsciência, berram à vontade de cantar, ignoram a lógica, marimbam-se para a compostura. São ridiculamente apaixonados. Podiam escrever-se sonetos florentinos sobre “Made in Heaven”: Kelly McGillis está destinada a Timothy Hutton, mas o destino pinta-se de rosa choque, e engana o par duas vezes, e Debra Winger veste fraque. “Choose Me” é mais sexy do que a voz de Luther Vandross, e de Terry Pendergrass, e de Keith Carradine, e as curvas de Leslie Ann Warren são infinitas guitarras. “The Moderns” diz tanto sobre a Paris dos anos 20 como os conselhos de Gertrude Stein a Picasso – ainda se pode falar de Geração Perdida sem falar de 2013?

Voltando a “Trouble in Mind”: Vejam-no depois de uma erva de Marraquexe, de trinta galões de Bushmills, de aguardente velha. Começa por uma canção, mil vez cantada por Nina Simone, Janis Joplin. Johnny Cash:

Trouble in Mind/ I Feel Blue/ But I Won’t Feel Blue Always

A versão – a melhor versão, a única versão – é a dos trinta mil bagaços de Marianne Faithful. Conta a vida de um velho condenado (Kris Kristofersson, olhos miúdos de tanta tristeza ver), da dona de um café para fugitivos (Genevieve Bujold, na única vez que não chateia), de uma jovem mamã pré-rafaelita (Lori Singer, a Daryl Hannah dos pobres), de um delinquente sem amor-próprio (outra vez Keith Carradine), da Cidade da Chuva Que Nunca Pára. Vejam-no. Este filme precisa de amor.

A solidão é um baú cheio de canções

Se o regarem, cresce.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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4 respostas a Filmes-Orfãos 1: “Trouble in Mind”

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Já vi. Agora, aumentado o conhecimento graças ao Pedro, revisitá-lo é inadiável.

  2. Filmes-orfãos? Bingo. Grandessíssima, “exquisite”, ideia. Também vi este do Rudolph e ia jurar que até escrevi sobre ele. A dizer um cântaro de coisas boas.

  3. curioso (or fanado) diz:

    moeda já cunhada noutro timbre…

    Please note that the Hollywood definition of an “orphan movie” is a movie that lost its funding and was never made.

    http://www.msscreensiren.com/2010/07/top-10-orphan-movies.html

  4. nanovp diz:

    As bermas da estrada estão cheias de surpresas, ou dito de outra forma, o “cinema órfão” ou os “homeless” do cinema terão muito a oferecer para quem queira procurar, que é o meu caso…e não é que sempre confundi a Lori Singer com a Daryl Hannah!!!!

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