Filmes para toda a Vida: E.T.

E com este são sete. Faltam tantos para chegar a mil e mais um para 1.001

E.T. (1982)

 

No imaginário da ficção científica o monstro é mau. O E.T. é o mal que vem dos cosmos aos trambolhões. Há décadas de cinema inventivo, brilhante, que nos alertam contra as estrelas. “Vigiem os céus” foi o lema dos anos 50, por temor do cosmos e muito por causa da guerra fria e da ameaça nuclear. Ainda era assim quando Spielberg começou este projecto. Havia cinco E.Ts. piores do que piranhas, desenhados por Rick Baker como quem desenha lobisomens.

Spielberg teve uma epifania. Explicou que queria uma criatura gentil e Baker gritou: “Falem com o meu advogado.” Houve conciliação, novas reuniões, e a Baker sempre a mão a puxar-lhe para o Id freudiano! Até que Spielberg deu na mesa o único murro da sua vida e mostrou quem era o patrão: “Chamem Carlo Rambaldi.”

Com um murro e Rambaldi, Spielberg criou uma obra-prima, um filme contra o medo. Rambaldi deu-lhe o E.T. que queria: redondo, oscilante, vulnerável, feito para olhar nos olhos os miúdos que iam contracenar com ele, um olhar que vê os adultos pela cintura, excluindo-lhes o rosto. Os quartos, armários, foram desenhados para a dimensão do E.T. e dos miúdos. E na borracha esponjosa do boneco, Rambaldi criou 40 expressões de lirismo magoado, perto da inconfessada felicidade que é viver-se uma boa infelicidade amorosa. Coisas de italiano.

E.T.” não é um conto de fadas como o “Feiticeiro de Oz”, nem uma fantasia à Disney. Toda a fantasia é solipsista, coisa de que “E.T.”, ancorado numa visão objectiva da suburbia americana, não pode ser acusado. Aceitando a desarmonia do mundo (o pai ausente, o conflito adultos-crianças), o milagre reside no facto de, no caos, na desordem dos factos, ser possível a felicidade. A lição não é nova, mas nos anos 80, foi este o filme que a mostrou com mais encantadora mestria e sem nenhum ressentimento.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a Filmes para toda a Vida: E.T.

  1. Luciana diz:

    Passei a gostar um pouquinho mais desse filme depois desse texto. Não que desgostasse, mas quando o vi não tinha mais a ingenuidade cruel da infância nem o cinismo terno que adquiri depois. Faltou-me estofo, talvez, para o sentir.

  2. POIS EU SEMPRE ADOREI.

  3. Margarida diz:

    E os meninos a passar, de bicicleta, diante da lua cheia? Há coisa mais bonita, mais comovente?

  4. Margarida diz:

    E o Trufaut a querer ser escolhido para ir de passeio pelas galáxias?

  5. Natália diz:

    E.T.: “Come”!
    Elliot: “Stay”!

    O momento mais dorido deste filme!

  6. CCF diz:

    Fui ver renitente (via-o como um realizado menor)…e saí maravilhada (para sempre atenta à obra dele).
    ~CC~

    • Ainda bem que é revisionista, cara ~CC~ E junte lá o Império do Sol, os Encontros Imediatos, uns Salteadores e dois Indiana Jones, mais um Tubarão e o 1941 à sua lista de grandes, muito grandes filmes…

  7. Curto mas excelentíssimo texto. Toda a obra de Spielberg é sobre o pai ausente, ele que tinha menos razões de queixa nesse departamento do que Lucas (o pai incentivava-o a maravilhar-se, ao contrário de Lucas sénior, e levou-o com nove anos a ver as estrelas cadentes – os cometas – no céu limpo de Phoenix após a família se mudar para o Arizona). É talvez o grande legado de Spielberg, numa era supremamente cínica: continuem a olhar como crianças. Nesse sentido, o “E.T.” é o filme mais importante.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Não é que este filme sempre me comoveu pela riqueza das metáforas? Agora, entendo melhor os porquês.

  9. nanovp diz:

    Não consigo dizer mais nada…

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