Fotograma

 

Sebastian Venable escrevia

um poema em cada Verão,

um laborioso poema

até que o acordou a morte

nas mãos de Cabeza de Lobo.

Deve ter percebido, suddenly,

que esporear com fúria o flanco das emoções

instiga nas plantas carnívoras

a hostilidade dos jardins.

Tudo isto, claro, bem sei: Tennessee Williams dixit.

Mas quem, rejeitado pelas palavras,

resiste a ser, a um tempo,

do calor e da vertigem a presa e o predador?

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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5 respostas a Fotograma

  1. Bastavam os nomes, a vertigem dos nomes, Sebastian – Cabeza de Lobo – Tennessee, para instilar o misterioso toque poético. Vêm presa e predador e desenha-se o trágico… Um filme, dizem.

  2. Ivone Costa diz:

    Mérito do filme, Manuel, bastou puxar o fio dos nomes …

    • E não é que não estou nadinha de acordo? “ins­tiga nas plan­tas carnívoras / a hos­ti­li­dade dos jardins” e “um labo­ri­oso poema / até que o acor­dou a morte” são versos, pura escrita. Qual cinema!

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    fantástico, ivone. até aqui, meu preferido entre todos os versos postados neste blogue. um senso de medida como não se vê/ouve. e esse suddenly deita a ficha ao mais coloquial. e os versos vão além instalando paradoxos.
    um laborioso poema. com imagens a fartar. e um tom mais contemporâneo que os seus anteriores, além de um pequeno tratado sobre sons. e tudo em torno do filme de mankiewicz.
    congrats.

  4. Ivone Costa diz:

    Obrigada, dear Ruy.

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