François Villon

 

De François Villon, poeta francês do século XV, quase nada se sabe. Nascido enquanto a cleresia supliciava Joana d’Arc, sem adivinhar que assim permitiria que no século XX o dinamarquês Carl Th Dreyer filmasse em exacerbados grandes-planos a tortura da fêmea e da sua santidade, Villon ficou logo orfão de pai, e alguém, que foi mais do que um pai para ele, enfiou-o na Faculté des Arts de Paris com o objectivo salutar de o converter num clérigo – expliquem-me, se puderem, o que é alguém ser mais do que um pai para nós, a não ser que seja a mãe, a ver se eu percebo.

Só que, quando ao que parece Villon estava certeira e conformadamente a encarreirar no consolo da vida académica, o rei, le roi Charles VII, sabe-se lá se com a troika à perna, fechou a faculdade. A Villon deu-lhe para a boémia e no meio dela matou um padre. A razão: saias. Não exactamente as do padre Phillipe abatido ao activo, e muito menos as putativas, que seriam de Villon, se Villon tivesse feito o que aquele que foi mais do que seu pai queria. A causa, outras saias, irrelevantes para o curso da Grande História, saias que irritantemente nunca levantaremos, foram as saias cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso Phillipe terão partilhado por turnos que, nalgum momento, foram indesejavelmente coincidentes.

A amante de Charles VII foi a modelo de Fouquet nesta Madona contemporânea de Villon

Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, estava no que à época seria metade da esperança de vida, mas o perdão era então mais fácil do que hoje o indulto presidencial. O rei perdoou-lhe no mesmo ano em que se reabilitava a heróica Joana, e no mesmo ano em que os navegadores portugueses (que por certo Villon olimpicamente ignorava) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje os seguidores de Pablo Escobar e doutro pessoal boliviano, só por ignorância não agradecem. Era Natal de 1456, e Villon, perdoado e regressado a Paris, assaltou o Collège de Navarre – com ajudas ou sendo ele uma delas – roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou fatídico futuro de crime e infâmia.

Do primeiro crime até à sua eventual morte (se é que algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), medidos em lenta ampulheta, escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido variado de roubos e violência culminando na sua prisão e condenação à morte por enforcamento. Estes 8 anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que fizeram de François Villon, começando na “Ballade des Contre-Véritès” e quase terminando justamente na “Ballade des Pendus”, o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média que já não conseguia esconder o quanto esperava que um Rinascimento lhe chegasse da mediterrânica Itália.

Num tempo de penúria e de epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que a literatura de todos os tempos nos deu a ler. Tomara Rimbaud. Digo eu, que li Villon no fim dos meus exaltados 20 anos, um mês antes dos 21, quando, Angola a ferro e fogo, comprei na livraria ABC de Luanda – que então atendia no telefone 25343 – um minúsculo exemplar de 80 páginas com as “Poésies Choisies”, editado nos “Classiques Larousse”. E que capa tão bonita de simples.

Nos poemas de Villon, encontramo-nos com o esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou debaixo de tudo, les femmes

Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas –
Para a boca, só de Paris

as femmes de Villon, “ma demoiselle au nez tortu”, ou essas “dames du temps jadis” (“Dictes moy où, n’en quel pays, / Est Flora la belle Rommaine…”) que me ensinaram saudade dos amores do passado quando de amor mal sabia o presente: “mais où sont les neiges d’antan”. Ou ainda, e dessa maneira de que fiquei fiel devoto: “corps féminin, qui tant est tendre / Poli, soeuf et précieux”.

Prometeram-lhe a morte na forca. Villon escreveu, nesse momento, um dos mais angustiantes epitáfios que as línguas europeias registam. Por piedade comutaram-lhe a pena e, logo a seguir libertaram-no. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Terá, 31, 32 anos, morrido nessa altura. Estes versos ficaram, imortais:

Balada dos Enforcados ou Epitáfio Para Si Mesmo

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis–
Nos de pêlos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

tradução Augusto de Campos

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a François Villon

  1. Diogo Leote diz:

    Já não se fazem Vilões assim, destes que fazem miséria na Terra para depois se redimirem com o legado artístico que deixam para a eternidade.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Pois é, Diogo, este Villon fez-nos a nós.

  3. nanovp diz:

    Parece-me que seria muito popular nos tempos que vivemos…até o consigo imaginar lá para os lados do Parlamento a vociferar ” simplicidade a Deus por todos nós!”

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