Imobilidade e Criação (ou O Paradoxo das Contas)

para o António Eça fã de futebol

É certo, a única arte moderna a ser lembrada no futuro não será o cinema, mas o futebol. E, ainda assim, para criar alguma coisa no futebol, dificilmente é necessária a imobilidade. A tal vida contemplativa.

Ainda bem, não temos um poeta laureado, como os ingleses. Candidatos não faltariam. Temos, isso sim, um craque laureado, o que é muito menos subjetivo, convenhamos. Além disso, o craque laureado ganha um caminhão de dinheiro. E, o melhor, nem um centavo dessa grana vem do contribuinte, via mecenato estatal, como na Inglaterra. 

Vejam Neymar, o atual “artista” nacional. Neymar tem causado polêmica nos últimos tempos. E não por suas mobilidades, que, no geral, sobre um gramado, até que nos encantam: criando chances de gol, assistindo-as, serrando espaços onde não há, esquivando-se pelos desfiladeiros enzagueirados, achando brechas no muro de pedra, convertendo gols. Mas precisamente por uma imobilidade. Como podem ser criativas também as vidas que apenas contemplam, mesmo no caso de um futebolista.¹ 

Quando do nascimento de seu filho – que não foi propriamente fruto de uma imobilidade – há pouco mais de um ano, Neymar fez o obstetra fechar a clínica só para si e a futura mamãe. Isso implicou em salas vazias, equipamentos ociosos. Em certa imobilidade-ambiente. Preço: R$ 45.00,00. [algo em torno de uns 23.000 euros]. Uma bagatela, que teria custado nadicas, se Neymar houvesse lançado mão de seu plano de saúde, entrado na fila, agendado dia e hora. Como os demais brasileiros. Mais ou menos imóveis. Suando sob o sol. 

O problema é que, de acordo com o médico, Neymar ainda não pagou a conta. Ele está sendo processado por essa imobilidade, deveras criativa. Criativa para o bolso do próprio Neymar. Sem dúvida. 

E logo ele, tão lépido em campo. Tão fagueiro diante dos microfones abertos ao pós-jogo. E por que demora em criar um pagamento? 

E não há um problema crônico aqui? O médico, que não parece lá grande coisa com uma bola nos pés, por fim mobilizou-se. E acusou Neymar de mau pagador. E até entrou com um processo na justiça. Periga ganhar o jogo. A celeuma foi parar na imprensa marrom e não tão marrom assim. E tome processo. 

Fosse Neymar Zenão, teria outras defesas. Sabe como? Instaurando um paradoxo do futebol. Há o infinito entre o 0x0 e o 1×0, etc. 

Ou talvez um outro paradoxo: o das contas a pagar. 

É, pensando melhor, este último seria um paradoxo bastante disputado.

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¹Eu ia tascar uma exclamação bem aqui. Mas aí me lembrei da Ivone que não as desperdiça em vão. E contive-me a tempo.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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9 respostas a Imobilidade e Criação (ou O Paradoxo das Contas)

  1. gostei da ideia de ‘imobilidade’
    🙂

  2. Ivone Costa diz:

    🙂

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy, meu caro amigo, dê-me aí o seu ombro e abra a cachaça. A imobilidade, acabo agora mesmo de o experimentar, é a essência do futebol. Se o meu amigo tivesse feito a gentileza de vir a Lisboa assistir comigo ao SLB-Barça saberia do que estou a falar. Eles não se movem. Estão fixos, uma petite fôret, e a bola vai de tronco em tronco, ressaltando, em aleatórios ricochetes, intermináveis, angustiantes. O futebol é subsumido nessa imobilidade neo-platónica, a caminho da escolástica. Meu amigo, diga ao Neymar que não pague. Esses R$ 45.000,00 vão fazer-lhe falta. O futebol é coisa de meninas. Sentam-se no seu balancé e ganham de rocking chair.

    • Panurgo diz:

      As melhoras das tonturas.

      Yours sincerely,

      Panurgo

      • Ruy Vasconcelos diz:

        manuel, panurgo, bernardo, amigos,
        seria um encontro épico, haveríamos de subir ao bairro alto e bebermos e nos drogarmos até dizer chega. depois, pegar as garotas certas e mais à mão. e levar para o alto da fortaleza de são jorge. e, contemplando oito séculos de história e o mitológico tejo, lá, abaixo, haveríamos de abolir a lei da gravidade, e ir para onde quer que quiséssemos no globo, voando. como nossos ancestrais voaram à força de vento, velas e uma ousadia nunca dantes. muito mais heroicos. e muito mais imprescindíveis que qualquer outra casta europeia.
        que ORGULHO ser (também) português! isso de dívida é momento, conjuntura. passará. ficará para trás. e seguiremos, juntos, a meter o norte da europa num saco, um dia. e recobrar a glória e apontar o verdadeiro feitio, o verdadeiro modo de descobrir as coisas. as novas coisas que há para serem descobertas neste mundo.

  4. nanovp diz:

    Para não pagar as contas há que se sentir imóvel, como estátua, para eles não repararem em nós…e fico mais descansado sabendo que a grana não veio do bolso dos contribuintes!!!

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