Isto não é um realizador de cinema

“Ceci n´est pas un metteur en scène” ou “Isto não é um realizador de cinema”, diria René Magritte – se fosse em vivo em 2012 – de Woody Allen. E eu concordaria em absoluto. Aliás, teria concordado com a afirmação logo a partir do aviltante Vicky Cristina Barcelona, o filme em que Woody Allen vendeu a alma ao diabo (o “diabo”, neste caso, foi a Generalitat da Catalunha e os muito milhões que Allen dela recebeu para vender um produto como um qualquer publicitário) – depois de, recorde-se, poucos anos antes, ter abandonado a sua cidade de sempre, NY, para (palavras suas) se livrar da pressão de produtores gananciosos e preservar a sua liberdade artística. Não maçarei os leitores apreciadores de cinema – e admiradores da obra de Mr. Allen, como qualquer apreciador de cinema que se preze – com os detalhes da reviravolta artística (“artística”, aqui, é eufemismo para outra palavra muito feia que não me atrevo a pôr por escrito) que se deu com o referido folheto turístico de Barcelona travestido de cinema. Apenas lhes direi que, passado o choque inicial, e porque não abandono facilmente os meus afectos de longa data, descobri finalmente o truque para não deixar esmorecer os muitos que os filmes de Allen me trouxeram. E só vos digo que resulta. Querem saber como? Basta que se conformem com a mudança de ramo de Woody Allen. Deixem de olhar para ele como um realizador ou argumentista de cinema. Tratem-no como um publicitário, e nada mais. Vão ver como continuarão a aplaudi-lo, filme após filme. Temos de lhe dar o mérito devido: o homem começou tarde no ramo, entrou até nele de forma muito desastrada (convenhamos que, mesmo como guião turístico, Vicki Cristina Barcelona é muito fraquinho), mas cedo começou aí a dar cartas. Deu-as com Midnight in Paris e o recurso a um chamariz a que nenhum turista deslumbrado teve condições para resistir, o da viagem à Paris das “années foles” (primeiro) e da belle époque (depois). E, sobretudo, deu-as agora, de forma brilhante, com a visita guiada a Roma no seu mais recente guião turístico, To Rome with Love. Desengane-se quem julgue ver ironia nas minhas palavras. O facto é que Woody Allen se revela mesmo um genial publicitário na sua incursão (muito bem paga, certamente) pela Fontana di Treve (pois é, a Anita Ekberg já lá vai), pela Via Ápia, pelo Trastevere e por outros ex-libris da capital italiana, e, acima de tudo, nos desconcertantes gags com que vai pontuando o tour, todos eles devedores do melhor que o modo de vida italiano tem para nos oferecer – veja-se a descoberta da magnífica voz que só canta debaixo do chuveiro, veja-se o episódio de Benigni, que se tornou “famoso” por ser “famoso” (verdade se diga que, nesta matéria, os portugueses se têm revelado exímios imitadores).

Se me perguntarem o que é que explica tanta arte de Woody Allen no seu novo métier, eu até sou capaz de vos saber responder. O homem deixou de se levar a sério, é essa a resposta. Mais: o homem não só deixou de se levar a sério, como goza desavergonhadamente com a nova “persona” em que se transformou. E não é para qualquer um, isto de se fazer troça de negócio muito lucrativo que se fez com diabo. Não acreditam que Allen se tenha atrevido? Vão lá espreitar a cena em que ele, depois da ópera sui generis que encenou, exulta com o facto de os jornais o tratarem como “imbecile”, julgando (por ignorar de todo a língua italiana) tratar-se do mais elogioso dos qualificativos. É só a mais genial “moral da história” que vi nos últimos tempos no cinema. Eu disse cinema? Perdoem-me, é a força do hábito. Queria dizer na publicidade, claro.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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9 respostas a Isto não é um realizador de cinema

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, não acho nada mal que ele tenha deixado se levar a sério…

    • Manuel, agora que o Woody deixou de se levar a sério, é bem capaz de se interessar por um novo guião turístico sobre um pais da periferia da Europa à beira mar plantado. Matéria prima para bons gags não lhe faltará. E nem sequer tem de ser muito criativo, basta-lhe imitar a realidade…

  2. nanovp diz:

    Diogo não tenho visto os últimos filmes, desta nova etapa que tu falas…nem Barcelona, nem Paris nem agora Roma. Mas será que perdeu qualidades para além de ” se vender” à publicidade? O bom cinema é sempre bom cinema, mesmo quando é comercial, mas pelos vistos estes não chegam lá…

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    De tudo o retido em memória das frases ‘off the record’ do Woody Allen, a mais frequente no mundo feminino é a frase batida: “Após os quarenta anos, é mais provável que uma mulher seja atropelada em Manhattan que encontrar marido”.

  4. Rita V diz:

    Não gostei do ‘Mid­night in Paris’ e é ele que diz «Na maioria das vezes, sinto-me decepcionado com meus filmes»
    Fishing? – Maybe!

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