Lamento

Lamento quem cuida jamais montar um Rocinante ou combater moinhos de vento.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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25 respostas a Lamento

  1. Inma diz:

    No tempo das amoras rubras apahei muitas eu fiz geleia. Quando faço o pequeno-almoço, costumo comer pão torrado com geleia das amoras rubras.

  2. Nem é preciso lamentar, Maria. Ficam assim secos, como nunca tivesse chovido.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Aridez que não suportaria. Pertenço aos infelizes que deles esperam mais e mais. Senão: o Rocinante e os moinhos de vento afastam-se à medida que julgo avançar.

  3. depois dos comentários acima só me apetece dizer que sim que Miguel Ângelo pintou uma abóbora maravilhosa ( haja sentido de humor e vento nas pás)

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Essa da ‘abóbora’ caiu-me no goto (linguagem farmacêutica). Subscrevo e aplaudo o seu “haja sen­tido de humor e vento nas pás”.

  5. Leonor diz:

    Quanto mais sublime me reporto mais equivalente me sacrifico!

  6. curioso (amoroso) diz:

    aquelas amoras rubras não dão geleia… talvez as pretas?

  7. curioso (sancho panza) diz:

    mas se for montada (no Roci nante)… vai sempre junto 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Estive próxima de alguns mascarados que o genuíno Rocinante tentam imitar. Nem para dois passos no desbravar de terras ‘anda lusas’ têm genica.

  8. curioso (vai com as outras) diz:

    no desafio lançado, qual será a sua escolha?

  9. curioso (em boli nado) diz:

    naquela bolina, olhando para um moinho, também montaria, numa núvem, com muito gosto 😉

    http://flordesall.blogspot.pt/2007/12/nuvem-com-bolina-e-amndoa.html

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Pelo que vi no endereço recomendado, mergulharia direta nas gulodices apresentadas.

  10. Panurgo diz:

    Muitas vezes dirijo esse lamento a algumas mulheres, dando-lhe assim um toque mais mitológico… que é preferível montar um Rocinante a um Pégaso… mas elas não caem na história… já montaram muito… «oh dulces prendas, por mi mal halladas, dulces y alegres cuando Dios quería!»…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Mulheres com gostos diferentes. Lá sabem! E depois, ignorava que Rocinante e Pégaso dessem para «violinos».

  11. curioso (ruci mântico) diz:

    mais platonica mente 😉

    Dulcinea… Dulcinea…
    I see heaven when I see thee, Dulcinea
    And thy name is like a prayer
    An angel whispers… Dulcinea… Dulcinea

  12. Maria do Céu Brojo diz:

    Vídeo excelente. Obrigada.

  13. curioso (des afiante) diz:

    @ Maria do Céu Brojo diz:
    Outubro 29, 2012 ás 06:54
    Desa­fio? Onde? Onde? Agarrem-me que vou-me a ele!

    -> montar Rocinante (talvez Clio) ou atacar moinhos (por des ventura de S. Bento)?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      À última proposta digo sim. Os ventos a tal obrigam. Além do mais é prazer que o epicurismo de bom ou mau tom, tanto dá, estimula..

  14. curioso (epi-happy) diz:

    ou seja, em conclusão, lamenta quem não epicura, metendo ali a montagem do Rocinante apenas para compor o quadro.

    parece que epi-happy curando se atinge (muito, pouco, nada?) a felicidade.

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