Mesmo sem te ver sempre te quis

 

Há poucos minutos nada sabia sobre Vicente Celestino. Continuo, agora, a nada saber. Que este brasileiro tenha nascido numa família de imigrantes calabreses e que ele e os irmãos, destinados a sapateiros ou serventes de pedreiro, cantassem como Caruso e tivessem feito carreira artística, é o que é e é anedótico.

Celestino, dizem as biografias, profissionalizou-se e teve um avassalador sucesso quando a ópera era popular e falar da “Força do Destino” não provocava bocejos nem criava embaraços.

Era uma estrela e iluminou décadas de música brasileira, dos anos 20 aos anos 60. Vinham estilos novos, novos géneros e a luz dele persistia arrebatadora, operática, operária, popular. Casou com Gilda Abreu, uma mulher talentosa (e bonita), cantora também, actriz e cineasta, que com ele e com duas canções dele fez dois filmes, “O Ébrio” e “Coração Materno”.

Vicente tinha olhos bonitos, uma popa sobre a testa e um lábio superior fino que não era, todavia, um traço cruel. Compôs canções que parecem (são) boleros com requebros operáticos.

Escolhi o seu tenebrosamente romântico “Coração Materno” para lhe ouvirmos aqui a voz de tenor que tanto impressionou Caetano, Gil e os outros avatares da MPB. Caetano gravou uma versão (digamos, selecta) que protagonizaria um dramático episódio ao ser cantada no funeral de um estudante morto pela polícia durante uma manifestação contra a ditadura militar nos anos 60.

Noutra canção, “Ouvindo-te”, Vicente Celestino antecipa, diria, o nosso mundo virtual. Ama quem nunca viu. Ouviu uma voz cantar e dessa voz fez voz amada. Quem é que hoje, afinal, como no verso  de Vicente Celestino, não canta ou jura que “Mesmo sem te ver sempre te quis” . Melhor assim, porque se a virmos, à amada, teremos de lhe dizer “Por ti vou matar vou roubar, embora tristezas me causes mulher”.

ps – e com este faz 300. Tantos posts fazem de mim um chinesíssimo blogger dos trezentos. Se outra coisa não forem, são muitos e são baratos. Como este.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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2 respostas a Mesmo sem te ver sempre te quis

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Puro deleite. Além do mais, campónia me declaro.

  2. «Ama quem nunca viu.»
    Não sei se o contrário também é verdadeiro. 😀

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