Miles and Jeanne

 

A Bela Moreau

Uma noite apenas. Um verdadeiro “one night stand”.

Louis Malle, o jovem realizador, conversa com Marcel Romano e Miles Davis, o inspirado trompetista em “tournée” por terras francesas. Estamos em Dezembro,  corre o ano de 1957.

Nas paredes do estúdio, passavam as imagens do filme de Louis Malle “Ascenseur pour l’échafaud”, em silêncio. Silêncio virgem ainda.

A jovem Moreau de cabelo alisado, em caracol nas pontas, surpreende com a sua beleza, os músicos que ainda não entenderam bem o que lhes é pedido. A cara lisa e pálida contrasta com a boca carnuda e as sobrancelhas negras.

Davis parece relaxado e os músicos improvisam notas e malhas sem preparação prévia, sobre as imagens que passam.Estas tornam-se mais vivas, à medida que a noite avança, com a banda sonora que se vai construindo, como se estivesse lá estado sempre.

O Adónis Negro

Moreau, charmosa e bela, casaco negro a deixar ainda mais viva a sua pele branca, passeia-se pela sala e oferece bebidas. Os seus olhos pousam em Miles, um “Adónis” negro que solta beleza pura sempre que sopra o trompete.

A música entrelaçada com tudo à volta, improvisada como a vida, adensa narrativa às imagens que vão passando, reconta a história que se rescreve, em som, a cada novo segundo que passa.

No final da noite, com a manhã que nasce lá fora, o projecto termina, os protagonistas separam-se, o “affair” terminou. Deixou memórias doces, mas não se há-de repetir.

Felizmente que temos o filme e a banda sonora.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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5 respostas a Miles and Jeanne

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Demasiada criação para poderem ficar juntos… Uma noite destas já é do tamanho da eternidade.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Para ter o cabelo como o da Morreau, da Françoise Hardy décadas e meia depois, muito sofreram os meus cabelos espalmados entre a tábua de engomar e uma toalha. O ferro não cessava de os alisar…

    http://www.youtube.com/watch?v=0aLoezucIzk&feature=related

    Antes dos sete, à conta da Gigliola Cinquetti, as minhas tranças ficaram no chão do cabeleireiro.

    http://www.youtube.com/watch?v=PtbW7zYmYfM&feature=related

    Pelos setenta, foi a Nancy Sinatra a ditar botas e hot-pants.

    http://www.youtube.com/watch?v=SbyAZQ45uww&feature=related.

    Com estes antecedentes nada de bom a esperar da pequena. Confirmo.

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