Mulher nua, manto azul

 

 

Sei que gosta de me ver assim. Senta-se numa pedra, descalça as sandálias, os tornozelos fora da túnica. Senta-se e cala-se. Ainda é um homem novo, físico seco. Caminha muito, em passo estugado.

Seguem-no outros doze homens, uns baixos, outros também, barbas crescidas, uma suja dignidade de peregrinos. Ia entre eles quando primeiro o vi. E logo o vi mais a ele do que aos outros doze. Uma labareda, como uma pomba negra entre pombas brancas, um traço de amor ou glória, foi nele que o meu olhar pousou, nele o meu olhar se traiu. “Mulher” disse-me “dá-me de beber.”

Ter-lhe-ia dado vinho, o que no meu seio estalava. Dei-lhe água, a manga dele a roçar-me a face. O sol ardia, a aridez cruel da terra no horizonte, a fonte húmida entre mim e a boca deste homem sombrio, intranquilo.

Segui-o durante semanas. Falava às multidões, com um galho fazia estranhas equações na areia, dirigia-se em parábolas aos outros doze. Uma figueira seca, um filho pródigo, às vezes atirem a primeira pedra. Um dia, os olhos com a incorruptível resplandecência de um touro, foi como se me chamasse “Mulher, vem”. E eu fui.  Não sei se disse despe-te e já eu estava nua.

Ele gosta de se sentar e ver. Senta-se quase sempre na mesma pedra e olha. Sei que às vezes os olhos de touro negro correm pelo peso grave e branco dos meus seios. Sinto quando se fixam no humilde brilho dos meus mamilos.

Ele que às multidões tanto fala, comigo cala-se. Gosta de me ver nua. Não precisou de dizer despe-te, não precisa de dizer vira-te, já eu ofereço a visão das redondas nádegas à vermelha mancha que lhe descubro no olhar.

Ele que com o toque de um dedo faz da água vinho, nunca teve na palma da mão o meu ventre ou nos lábios a carne da minha coxa. No aterrador silêncio dele, abre-se um sorriso humano, quase inocente, quando olha para o meu perene, límpido sexo.

É talvez um homem ou o fogo de um homem, a brisa de um deus. Sim, o silêncio dele assusta – como se assustar fosse um hino, um salmo, um cântico. Por vezes, sento-me à frente dos olhos dele e mostro-lhe uma adulta abertura de pernas. Ele que aos cegos dá visão olha-me sem se mexer, as semicerradas negras pestanas segurando uma convulsão cósmica, o sussurro do universo.

Hoje, saiu do silêncio dele um aceno. Dizia, enrola-te no teu manto azul. Talvez tenha dito, “lê”. Logo um mágico papiro se estendeu sob o peso do meu cotovelo, a estranha música do vento entre as mirradas árvores. Não sei o que ele agora vê ou como me vê, mas gostaria de ficar para sempre assim, nesta nudez de manto, eterna, delicada e imóvel.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Mulher nua, manto azul

  1. Ivone Costa diz:

    Pobre Maria Madalena, pode lá ela perceber o que vê um deus quando olha … 😉

  2. Ívone, bem-aventurada as pobres madalenas porque é delas o reino dos céus…

  3. E por nuas… lá se foi também o produtor do Império dos sentidos, filme que muito ensinou aos nossos dignitários da igreja nos idos 90; (terei que estender os posts que estou a escrever sobre os anos 80 para incluir este colorido episódio da nossa história): bfds

  4. nanovp diz:

    Então o profeta era platónico, ou seria só resultado da beleza do modelo, da pintura?

  5. curioso (tropo) diz:

    ou aquela trilogia: mundo, demónio & carne

  6. Um bocadinho arco-íris, ó curioso…

  7. curioso (irizado) diz:

    bastante mais airoso (a mona vis) que o pesado vulto coberto pelo manto azul 😉

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Maravilha em letras. Desvaneceu-me.

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